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Anísio e a máquina que viabiliza a democracia

Rodrigo Hübner Mendes

Rodrigo Hübner Mendes tem dedicado sua vida para garantir que toda pessoa com deficiência tenha acesso à educação de qualidade na escola comum. É mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka. Atualmente, dirige o Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que desenvolve programas de pesquisa e formação continuada sobre educação inclusiva em diversos países.

17/07/2020 04h00

No último dia 12, o Brasil celebrou 120 anos do nascimento de Anísio Teixeira, um dos nomes mais importantes da história da educação brasileira. Dois pontos de sua obra fundamentam isso: as bases para a universalização da escola pública de ensino fundamental e a modernização do ensino.

Olhando pela janela hoje, é difícil reconhecer esse trabalho, já que, se há um buraco estratégico nos caminhos do nosso país, ele está justamente na educação e suas imensas carências. Por isso, é preciso entender o Brasil e o mundo em que Anísio Teixeira viveu.

Nascido na pequena Caetité, no interior da Bahia, filho de um fazendeiro e político local, Anísio seguiu o caminho dos jovens de posses do interior: estudou em uma escola de padres da sua cidade até a idade de ir para o então ginásio, quando a família o mandou a Salvador, onde completou o que equivale hoje ao ensino médio. Dali, seguiu para o Rio de Janeiro, onde cursou a Faculdade de Direito.

Terminada a faculdade, voltou para a Bahia. Caiu então no mundo da educação, por conta de um convite do recém-eleito governador Góes Calmon para que assumisse uma função executiva, a de Inspetor Geral de Ensino. Ali se defrontou com o mundo real da escola no Brasil. No Estado da Bahia, apenas 20% das pessoas estava ou tinha estado na escola primária. Como comparação, em São Paulo o índice era 60% e, no Rio Grande do Sul, 73%. Não à toa, portanto, o primeiro feito do jovem executivo foi na infraestrutura: construiu escolas até o ponto de ter 70% das crianças baianas em idade escolar frequentando as aulas. No fim de seu período na Bahia, foi aos Estados Unidos para aprofundar seu conhecimento sobre educação. Tornou-se aluno de John Dewey, um dos grandes pensadores de seu tempo, homem que marcou o futuro do jovem educador.

Voltou ao Brasil para trabalhar na antiga Capital Federal, o Rio de Janeiro, onde mais uma vez ajudou a expandir a oferta de vagas em escolas públicas de ensino fundamental. Só que ali, Anísio já tinha uma influência marcada por Dewey e dominava a visão educacional da Escola Nova que, entre outras mudanças importantes, propunha uma educação mais crítica, com um aluno mais participante de seu próprio desenvolvimento e de seu papel na sociedade. Isso se refletia na concepção da grade curricular, agora expandida, e no próprio espaço físico da escola, apto a receber as crianças com períodos dedicados à arte e à educação física, entre outras inovações.

Saiu do Rio em 1935 por divergir do governo Vargas e ficou afastado da educação por alguns anos. Logo após a redemocratização, foi convidado para o conselho da UNESCO, onde permaneceu por um ano, até receber dois convites no Brasil: para um cargo no Ministério da Educação, no Rio, e para ser Secretário da Educação da Bahia, em tese um cargo menos importante. Foi este que o atraiu.

Em seu estado natal, propôs uma rede que iria revolucionar o ensino na Bahia: as Escolas Parque, que tinham claramente os conceitos da Escola Nova, propiciavam educação em tempo integral e buscavam aproximar-se da comunidade. Só uma foi construída, no bairro popular de Caixa D'Água, com projeto do arquiteto modernista Diógenes Rebouças, o mesmo que projetou o estádio da Fonte Nova, marco da arquitetura brasileira, infelizmente demolido em 2010.

Com o sucesso de sua atuação regional, Teixeira voltou ao plano nacional. Criou o Centro de Pesquisas Educacionais e esteve entre os debatedores que levaram a cabo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Sucedeu Darcy Ribeiro na reitoria da Universidade de Brasília, entre 1963 e 1964, quando foi retirado do cargo pelo golpe militar. Saiu do país por um breve período, durante o qual lecionou nas Universidades Columbia (Nova York) e da Califórnia.

De volta ao Brasil, foi trabalhar como consultor na Fundação Getúlio Vargas. Em 1971, aceitou a proposta de pleitear uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Visitou diversos acadêmicos, como parte do ritual para ser escolhido para a vaga. Depois de uma dessas visitas, Anísio Teixeira desapareceu por dois dias, depois dos quais, seu corpo foi encontrado no fundo do poço do elevador do último prédio que visitara. Permanece até hoje a forte suspeita de que foi assassinado por agentes da ditadura.

O resgate da memória de Anísio Teixeira, como o de tantos outros, deve nos trazer inspiração para que se cumpra aqui um destino mais próspero. O caminho, ele nos deu em vida: "Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública".

Rodrigo Hübner Mendes