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Nordeste dá exemplo de ação sinérgica

Rodrigo Hübner Mendes

Rodrigo Hübner Mendes tem dedicado sua vida para garantir que toda pessoa com deficiência tenha acesso à educação de qualidade na escola comum. É mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka. Atualmente, dirige o Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que desenvolve programas de pesquisa e formação continuada sobre educação inclusiva em diversos países.

08/05/2020 04h00

Não é novidade para ninguém que o país se ressente da falta de uma ação organizadora centralizada por parte do governo federal, no que tange à gestão da profunda crise causada pela pandemia de covid-19. As unidades da Federação estão, portanto, com uma parcela maior da responsabilidade gerencial do que teriam caso a ação central e as ações locais fossem mais sinérgicas. Uma resposta a isso veio justamente dos estados que estão entre os mais pobres do país: os nove estados do nordeste. Desde março de 2019, decidiram unir forças para responder, de forma coordenada, a muitas demandas comuns, buscando otimizar e racionalizar gastos e investimentos.

Agora, que a coisa por lá ficou séria - o Ceará, por exemplo, é um dos estados mais atingidos pela crise do coronavírus -, o consórcio decidiu agir para fazer frente à pandemia. Na semana passada, criou o que foi chamado de Brigada Especial de Saúde. O foco do trabalho é atuar na prevenção e no diagnóstico precoce da doença. Para isso, vai reforçar a estrutura de equipes de saúde que já atuam na região, agregando um contingente de cerca de 15 mil pessoas, entre estudantes, paramédicos e médicos formados fora do Brasil, mesmo que ainda não tenham seu diploma validado no país. A ação será apoiada por um aplicativo, desenvolvido pela Fiocruz, que permitirá a troca e o armazenamento de dados sobre a saúde das famílias atendidas pelo programa.

A estratégia central é alcançar o vírus antes que ele alcance a sociedade. O responsável pela Comissão Científica do consórcio é o cientista Miguel Nicolelis, que defende a ideia de que tais médicos podem contribuir com o programa e, posteriormente, ser avaliados para o reconhecimento de sua formação. É uma tese controvertida, sobre a qual mais de uma instituição médica manifestou sérias críticas. Independentemente da polêmica, o ponto principal a destacar é o exemplo de que gestores públicos podem atuar de forma mais eficiente quando trabalham em grupo, buscando saídas criativas, que multiplicam recursos sem multiplicar custos.

Emergências costumam revelar muito sobre os seres humanos e suas comunidades. Acompanhada de suas inevitáveis mazelas, a nossa emergência tem trazido também boas surpresas. O que fica dessa iniciativa louvável do Consórcio Nordeste é a constatação de que as melhores medidas não estão necessariamente correlacionadas com a fartura de recursos. Muitas vezes, originam-se da riqueza de ideias e intenções.

Rodrigo Hübner Mendes