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É mais do que tempo de cuidarmos de nossa casa

Rodrigo Hübner Mendes

Rodrigo Hübner Mendes tem dedicado sua vida para garantir que toda pessoa com deficiência tenha acesso à educação de qualidade na escola comum. É mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka. Atualmente, dirige o Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que desenvolve programas de pesquisa e formação continuada sobre educação inclusiva em diversos países.

17/04/2020 04h00

No ano 2000, o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, lançou o Pacto Global, "uma chamada para as empresas alinharem suas estratégias e operações a 10 princípios universais nas áreas de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e anticorrupção" e se organizarem em torno de ações para enfrentar os desafios do novo século que estava por começar.

Mal sabia o diplomata ganês, Nobel da Paz no ano seguinte, o quanto esse apelo se faria central 20 anos depois. Hoje, em meio a uma pandemia anunciada, mas enfrentada com vacilação e precariedade em seu início, começamos a ver reações da sociedade que nos deixam com a esperança não apenas de que poderemos superar esta crise a partir do esforço coletivo, mas que esse esforço venha a mudar nossa cultura "umbigalista".

Entre as diversas ações que temos observado, merecem destaque as que conectam as empresas e o restante da sociedade, particularmente as pessoas em situação de maior vulnerabilidade. Em menos de 60 dias, vimos dezenas de lideranças do setor privado anunciarem medidas para ajudar a sociedade e o mundo a reemergirem. Exemplo emblemático foi o do Banco Itaú, que, dias após ter doado mais de 200 milhões a fundo perdido para apoiar ações de mitigação do impacto da covid-19, anunciou uma expressiva destinação de R$ 1 bilhão a serem dedicados à saúde. Trata-se do maior aporte de recursos privados para semelhante finalidade, concentrado em uma ação específica, em toda a história do Brasil. O montante total (pouco mais de 1,2 milhão) equivale a 40% de todo o dinheiro colocado pelas empresas em causas humanitárias no país em 2019.

Além das iniciativas que citei recentemente, vale aqui lembrar do engajamento de inúmeras outras empresas, de cidadãos comuns, ou de pequenos empreendedores, que vão à rua por iniciativa própria, assumindo o risco de contágio, para ajudar moradores de rua, cuja situação jamais foi tão crítica. Isso não é caridade, é visão nova de sociedade, é percepção de nossa interdependência. Cabe lembrar também os artistas que fazem lives para arrecadar recursos e a ação surpreendente da CUFA - Central Única das Favelas -, com uma organização que muitos órgãos tradicionais, públicos ou privados, não têm.

Em uma coletiva de imprensa, o presidente do Itaú, Candido Bracher, disse algo simples, mas que resume o que é esse novo caminho que parece se abrir: "O Brasil enfrenta uma crise muito grave. O Brasil é a nossa casa. É o momento de cuidarmos da nossa casa". Casa. Coletividade. Convivência entre diferentes. A guerra contra o inimigo invisível está tornando o ser humano visível de novo.

Rodrigo Hübner Mendes