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Recorde de doações e pouco investimento no fortalecimento da filantropia

Patricia Lobaccaro

Patricia Lobaccaro construiu carreira no campo do investimento social, articulando redes e iniciativas para fortalecer projetos transformadores no Brasil. Foi presidente e CEO da BrazilFoundation de 2010 a 2019, mobilizando mais de 35 milhões de dólares em apoio a mais de 500 organizações da sociedade civil no Brasil. Atualmente Patricia atua como consultora no setor social e faz parte do conselho de instituições sem fins lucrativos. É formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo e fez curso de gestão em non-profits em Harvard.

19/07/2020 04h00

Durante a pandemia o Brasil bateu recorde de doações, com cerca de 6 bilhões de reais doados. Isso é um fato que sem dúvida deve ser comemorado. Já contei aqui sobre o importantíssimo papel que as ONGs tiveram em fazer os recursos doados chegarem na ponta, mas na coluna de hoje gostaria de falar sobre a importância das redes de articulação e da própria estrutura que fortalece o terceiro setor. Essas redes e articulações potencializaram a captação de recursos e permitiram que os recursos pudessem chegar ao seu destino de forma eficiente, transparente e com agilidade.

Um exemplo de rede que surgiu em resposta ao COVID-19 foi o Fundo Emergencial para a Saúde, criado para apoiar hospitais e profissionais de saúde, fruto da articulação de várias instituições, incluindo o Movimento Bem Maior, a BSocial e o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS). O fundo arrecadou cerca de 40 milhões de reais, que foram importantíssimos para dezenas de hospitais, beneficiando a compra de respiradores, EPIs e testes rápidos. Mas pouca gente se pergunta como esses recursos conseguiram chegar na ponta de forma transparente e eficaz. Lidar com dinheiro (dos outros) envolve enorme responsabilidade. Foi necessário criar um mecanismo de transparência e de boa gestão financeira - incluindo governança, que contou com um comitê técnico de médicos. Bons mecanismos de gestão requerem investimento de tempo e recursos, mas ao passo que muitos filantropos estiveram dispostos a doar os recursos na ponta, ainda existe muita dificuldade na obtenção de recursos para custear a estrutura que está por trás dessa gestão. Paula Fabiani, diretora-presidente do IDIS, acredita que "o setor ainda precisa amadurecer, embora comece a perceber a importância das organizações de infraestrutura profissional e eficaz".

Uma modalidade eficaz de promoção da filantropia é o matchfunding, no qual um investidor se propõe a dobrar ou triplicar doações feitas a uma determinada causa. Enquanto 92% das empresas americanas fazem ações de matching das doações de seus funcionários, no Brasil os exemplos de matchfunding são raros. Durante a pandemia, o portal de doações Benfeitoria conseguiu articular duas ações importantes de matchfunding. No Matchfunding Enfrente, a Fundação Tide Setúbal e parceiros triplicaram a arrecadação de iniciativas de enfrentamento aos efeitos da pandemia nas periferias, mobilizando mais de 11 mil doadores e R$ 7,2 milhões para mais de 250 projetos. No Matchfunding Salvando Vidas, o BNDES dobrou a arrecadação para compra de EPIs para as Santas Casas e hospitais filantrópicos, mobilizando mais de R$ 27 milhões.

O terceiro setor conseguiu demonstrar sua importância na situação emergencial de combate ao covid, mas isso ainda não se traduz em investimentos estruturantes que fortaleçam a longevidade e sustentabilidade dessas organizações, tampouco se traduz em investimentos que ajudem a estruturar o campo da filantropia no Brasil.

Por que há pouco recurso sendo doado para suporte institucional das organizações que atuam na ponta e para a própria estrutura do setor?

Situações de desastre e emergência causam um boom de doações, pois pessoas se sentem confortáveis em investir em ações com impacto imediato, como por exemplo fazer doações para cestas básicas. Uma modalidade de filantropia um pouco mais avançada é a filantropia estratégica, que investe em ações com resultados que geralmente não são imediatos, porém com efeitos duradouros e transformadores, com impacto no desenvolvimento social e econômico de um país - como por exemplo no apoio à educação, geração de renda e ações de advocacy que aprimorem políticas públicas. Um estágio ainda mais avançado da filantropia, e que no Brasil conta com pouquíssimos financiadores, seriam os investimentos no fortalecimento da própria estrutura de fomento à filantropia: incluindo financiamento à organizações que articulam redes, promovem a cultura de doação, fazem advocacy para melhoria de leis de doação, promovem ética e melhores práticas de governança, sistematizam conhecimento e capacitam profissionais do terceiro setor.

Fundos filantrópicos como o Fundo Brasil de Direitos Humanos, também desempenham um papel fundamental na estrutura da filantropia brasileira. As redes formadas por esses fundos permitiram que recursos fossem distribuídos na ponta com velocidade, agilidade e eficácia. No caso da resposta ao Covid-19, o Fundo conseguiu destinar recursos para 270 organizações de base em todo o país. Além de investir em projetos sociais, o Fundo Brasil atua desde 2006 fortalecendo rede e potencializando as ações desenvolvidas pelas organizações apoiadas. "Não há dúvidas de que o setor da filantropia no Brasil está crescendo. O desafio é ampliar especificamente a prática do grantmaking", diz Ana Valéria Araújo, superintendente do Fundo Brasil.

São pouquíssimas as instituições e pessoas físicas que apoiam e financiam o fortalecimento da estrutura da filantropia no Brasil. E quem são eles?

O único edital no Brasil que financia o desenvolvimento da filantropia e o fomento da Cultura de Doação é o Fundo BIS, coordenado e gerido pelo GIFE, o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, criado para aperfeiçoar e difundir conceitos e práticas do uso de recursos privados para o desenvolvimento social. O Fundo BIS e é uma iniciativa inédita e inovadora, inclusive a nível mundial, e seu o edital teve duas edições financiando 8 iniciativas.

Outro exemplo é o recém criado Instituto MOL, que nasceu com a missão específica de fortalecer a cultura de doação no Brasil, além da produção e disseminação de conhecimento sobre cultura de doação. "A gente vive uma realidade muito desigual no país e o governo não vai resolver isso sozinho, cada um de nós tem que fazer sua parte. Nesse sentido a filantropia e a cultura de doação tem um papel de extrema importância. Na hora que a gente fortalece a cultura de doação a gente está formando cidadãos mais conscientes. De um lado o fortalecimento do papel do cidadão e do outro o fortalecimento do próprio setor.", comenta Rodrigo Pipponzi, fundador do Instituto. Além disso, o Instituto ACP, criado pela família Pipponzi, atua no fortalecimento institucional das organizações da sociedade civil brasileira para que sejam vetores de desenvolvimento do país - entendendo que as organizações da sociedade civil precisam de recursos, apoio e inteligência para se profissionalizar e conseguir ter um alcance maior.

Teresa Bracher também é uma investidora social que tem historicamente apoiado a estrutura do terceiro setor. Além de ter apoiado a pesquisa das Doações no Brasil em 2015, que até hoje é a principal pesquisa feita no Brasil sobre doações, tem sido grande apoiadora da coalizão dos fundos patrimoniais filantrópicos.

Outro peso pesado da filantropia que investe no fortalecimento da cultura de doação é José Luiz Egydio Setúbal. Médico pediatra de formação, além de ser um dos maiores acionistas do Banco Itaú, criou uma fundação dedicada à causa da saúde infanto-juvenil no Brasil, oferecendo assistência médica e apoiando pesquisa na área pediátrica e disseminação de conhecimento. Adicionalmente do foco na saúde, a Fundação José Luiz Egydio Setúbal (FJLES) entendeu que precisava também investir para fortalecer a estrutura do setor filantrópico brasileiro. A FJLES é hoje uma das principais apoiadora do ecossistema da filantropia no Brasil, apoiando o Movimento Para uma Cultura de Doação, atividades de advocacy da ABCR, além dos principais festivais de filantropia realizados no Brasil. A fundação também está financiando a criação de núcleo acadêmico para pesquisa acadêmica de geração de conhecimento sobre filantropia. "Invisto na estruturação do terceiro setor porque acredito na participação da sociedade civil como agente da transformação do Brasil", conta José Luiz.

Os exemplos acima, de iniciativas e de doadores que investem na consolidação do campo da filantropia no Brasil, infelizmente são exceções que podem ser contadas nos dedos.

Como mudar essa mentalidade de imediatismo e criar uma cultura que sustente as ações da sociedade civil a longo prazo?

O mindset de imediatismo do brasileiro não existe somente no terceiro setor, nas esferas públicas também. Ainda se investe muito em ações com resultados imediatos visíveis que possam gerar votos nas próximas eleições e nem tanto em políticas públicas que resolvam problemas estruturais a longo prazo. Mas voltando ao tópico do terceiro setor, precisamos fazer um trabalho melhor, de educar os investidores sociais sobre a importância de se investir em soluções que resolvam problemas a longo prazo, e também na estrutura do campo, que coordena e potencializa ações para uma maior efetividade do campo como um todo.

Patricia Lobaccaro