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Pandemia x sala de aula: a necessidade de repensar a escola

Patricia Lobaccaro

Patricia Lobaccaro construiu carreira no campo do investimento social, articulando redes e iniciativas para fortalecer projetos transformadores no Brasil. Foi presidente e CEO da BrazilFoundation de 2010 a 2019, mobilizando mais de 35 milhões de dólares em apoio a mais de 500 organizações da sociedade civil no Brasil. Atualmente Patricia atua como consultora no setor social e faz parte do conselho de instituições sem fins lucrativos. É formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo e fez curso de gestão em non-profits em Harvard.

31/05/2020 04h00

Muito já se falou de como a pandemia escancarou as desigualdades sociais. Tornou evidente também as desigualdades na educação. De acordo com a UNESCO, o distanciamento social e lockdowns fecharam as escolas em 186 países e territórios, afetando mais de 1.5 bilhão de crianças. Embora o homeschooling não esteja sendo ideal para a maioria dos alunos, os mais pobres foram afetados desproporcionalmente. As diferenças ficaram mais evidentes, por exemplo, entre crianças que têm acesso à nutrição adequada em casa, e as que tinham na merenda escolar a única refeição do dia, entre as que têm computador e um local adequado para estudar em casa, e as que não tem acesso à internet, nem tão pouco água encanada e saneamento. Assimetrias de aprendizado também ficam mais evidentes e torna-se necessário repensar não apenas em como será a reabertura das escolas, mas como será a educação do século 21, que proporcione aprendizado e desenvolvimento de competências socioemocionais para todas as crianças.

No Brasil, a organização Todos Pela Educação vem realizando uma série de debates para discutir como será a volta às aulas abordando temas como impacto emocional da pandemia nos alunos e profissionais da educação, cumprimento da carga horária exigida por lei, recuperação da aprendizagem e evasão escolar por desconexão com a escola. Uma questão é consenso: é preciso escutar os professores.

Com relação aos alunos com necessidades especiais, o desafio de não deixar ninguém para trás ganha outra dimensão diante das óbvias limitações do ensino a distância quanto à interação social e a construção de vínculos afetivos. Segundo Rodrigo Mendes, fundador do Instituto Rodrigo Mendes, que tem a missão de colaborar para que toda pessoa com deficiência tenha uma educação de qualidade, "simplesmente disponibilizar uma série de aulas em vídeo na internet e esperar que todos aprendam é o caminho certo para a exclusão de muitos". Os professores precisam identificar as barreiras que prejudicam a aprendizagem nesse modelo de ensino e buscar promover acessibilidade. De acordo com Rodrigo, o planejamento da volta às aulas deve contemplar uma série de medidas específicas para garantir a segurança, como a adoção de protocolos sanitários para cuidadores, motoristas de transportes adaptados e o uso de máscara transparentes por parte dos intérpretes de Libras.

Nos Estados Unidos existe ainda pouco clareza de como será a reabertura das escolas em setembro. Em Nova York, o governador Andrew Cuomo pediu ajuda ao fundador da Microsoft e filantropo Bill Gates para reimaginar como seria a educação do futuro, já que a tecnologia está de maneira muito acelerada transformando o mundo em que vivemos. O convite não deu muito certo e a iniciativa logo de cara sofreu críticas, justamente por não ter envolvido os professores e nem os alunos como protagonistas centrais dessa discussão.

A pandemia também afetou o final do ano letivo nos EUA, que acaba em junho, e a formatura dos alunos do ensino médio. Uma das grandes tradições no país são os bailes de formatura, as famosas "proms", planejadas com anos de antecedência. Diante da impossibilidade de realizar as formaturas de modo presencial, o país se mobilizou para realizar uma grande festa virtual coletiva, chamada de Graduate Together, transmitida em rede nacional de televisão. A cerimônia teve discurso de personalidades como o ex-presidente Barack Obama e da ativista Malala Yousafzai, performances de artistas como Pharrell Williams e after party com lives nas mídias sociais. O evento foi lindo e um alento para os jovens formandos que teriam tido essa lacuna na vida escolar. No seu discurso, Obama lembrou os muitos obstáculos que essa geração de alunos já nasceu tendo que enfrentar: os tiroteios nas escolas, frequentes nos EUA, as pressões causadas pelas mídias sociais, as mudanças climáticas e a conclusão do ensino fundamental em época de pandemia. O ex-presidente Obama completou: "Se o mundo vai ser melhor daqui pra frente, será responsabilidade de vocês".

Enquanto isso, na Europa e na Ásia, muitos países já iniciaram o processo de reabertura das escolas, mas as salas de aula não se parecem em nada com as de antes. Alunos e professores utilizando máscaras, aferição de temperatura na entrada, janelas mantidas abertas para ventilação, espaço de 1.80m entre as carteiras, rodízio de alunos e até divisórias de plástico para separar as carteiras. Muitas escolas adaptaram quadras esportivas para acomodar carteiras com mais espaço entre elas, enquanto outras tem feito aulas ao ar livre.

Para além da reabertura das salas de aula, é necessário refletir sobre a função social da escola, que vai muito além das questões acadêmicas. Escolas também servem como niveladoras de oportunidades e alavancas da mobilidade social. Acredito que possivelmente um dos legados da pandemia seja uma maior valorização da educação e dos professores, bem como o fortalecimento das relações entre as famílias e as escolas. Mais uma vez, cabe a cada um de nós contribuir para que isso aconteça.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.