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Arte, cultura e filantropia em épocas de covid-19

Patricia Lobaccaro

Patricia Lobaccaro construiu carreira no campo do investimento social, articulando redes e iniciativas para fortalecer projetos transformadores no Brasil. Foi presidente e CEO da BrazilFoundation de 2010 a 2019, mobilizando mais de 35 milhões de dólares em apoio a mais de 500 organizações da sociedade civil no Brasil. Atualmente Patricia atua como consultora no setor social e faz parte do conselho de instituições sem fins lucrativos. É formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo e fez curso de gestão em non-profits em Harvard.

10/05/2020 04h00

A cultura e a arte vivem uma época de muitas incertezas com a pandemia. Embora a filantropia brasileira tenha batido todos os recordes em decorrência da pandemia, com mais de 4 bilhões de reais doados, a maior parte dos investimentos foram destinados à saúde e compra de cestas básicas.

Museus, teatros e instituições culturais tiveram que fechar as portas temporariamente, perdendo receita de bilheterias, aluguel dos seus espaços e patrocínios. Muitas empresas redirecionaram suas prioridades de investimento para a situação emergencial causada pelo covid.

A cultura nesse momento é um dos grandes pilares da nossa sociedade para aliviar a tensão que as pessoas estão vivendo enquanto isoladas durante a quarentena. Artistas estão fazendo palestras, talks e performances via lives, enquanto muitos livros e filmes estão sendo disponibilizados gratuitamente. A cultura precisa continuar recebendo investimento pois tem sido a grande válvula de escape para a sociedade nesse momento.

Embora artistas e produtores culturais estejam sofrendo muito com a pandemia, ações solidárias protagonizadas por eles são muitas. A arte tem essa capacidade única de mobilizar, de inspirar.

O Projeto 300 Desenhos reuniu um grupo de profissionais das artes visuais com o objetivo de levantar recursos para organizações desenvolvendo ações sociais durante a pandemia. O @ArtChanllengeCestou, está mobilizando artistas a doar uma de suas obras para a campanha Corona do Paredão. Já a iniciativa 150 fotos para São Paulo realizou a venda de 150 fotografias com venda esgotada em poucos dias e renda revertida para ações de combate ao covid em São Paulo.

Outro projeto interessante é o Projeto Quarantine, que busca reimaginar o modelo econômico para as artes, funciona como uma cooperativa de artistas em que todos os trabalhos são vendidos pelo mesmo preço com vendas igualmente distribuídas entre todos os participantes. Além disso, uma cota extra foi criada para ser doada para o fundo emergencial de apoio às pessoas trans afetadas pelo Covid-19. Segundo os criadores do projeto, "a crise atual tem fortalecido a importância da cooperação e da redistribuição mínima de condições materiais como as únicas possibilidades de superação do vírus".

Como os museus e instituições culturais estão lidando com a pandemia?

Com as portas fechadas durante o distanciamento social, museus adotaram a tecnologia para manter os espectadores próximos de seus acervos. Museus ao redor do mundo estão disponibilizando recursos gratuitos de aprendizado online, acesso às suas coleções digitais, tours virtuais e conversas com curadores. Além disso, criaram processo digitais para que suas equipes possam trabalhar virtualmente.

Segundo Fabio Szwarcwald, diretor executivo do MAM Rio, isso é um caminho sem volta. Mesmo com a reabertura dos museus daqui a alguns meses, a forma digital de trabalhar vem pra ficar e toda a programação dos museus será pensada digitalmente. Exposições terão componente virtual, enquanto seminários e palestras deverão ser transmitidos ao vivo. Fábio acredita que a situação acelerou o processo de digitalização e se mostrou uma oportunidade interessante até mesmo de atrair mais público para os museus. A experiência presencial é muito mais rica do que a digital, e isso vai estimular as pessoas a quererem participar presencialmente quando os museus reabrirem.

O MAM Rio, assim como outros museus, está engajado em ações comunitárias em resposta ao covid. Lançou recentemente o programa Clube de Colecionadores, que direciona metade da renda obtida na venda de um conjunto de obras para apoiar duas iniciativas de arte e cultura do Rio: a Lanchonete<>Lanchonete e o Galpão Bela Maré.

Quando o pior da pandemia passar, os museus irão reabrir de forma gradual, mas em um ambiente bastante diferente. Além de planejar como essa reabertura vai ocorrer, uma das discussões importantes é sobre como conseguirão manter suas operações dada a crise econômica que já está chegando.

Se as cestas básicas alimentam o corpo, a arte e a cultura alimentam a alma. Precisamos encontrar formas de viabilizar que instituições e equipamentos culturais, grandes e pequenos, possam continuar desempenhando seu importante papel educativo e social.

Patricia Lobaccaro