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Covid-19 terá enorme impacto no terceiro setor; mas há luz no fim do túnel

Patricia Lobaccaro

Patricia Lobaccaro construiu carreira no campo do investimento social, articulando redes e iniciativas para fortalecer projetos transformadores no Brasil. Foi presidente e CEO da BrazilFoundation de 2010 a 2019, mobilizando mais de 35 milhões de dólares em apoio a mais de 500 organizações da sociedade civil no Brasil. Atualmente Patricia atua como consultora no setor social e faz parte do conselho de instituições sem fins lucrativos. É formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo e fez curso de gestão em non-profits em Harvard.

29/03/2020 04h00

Com as medidas de saúde de distanciamento social implementadas para conter o avanço da pandemia da Covid-19 no Brasil, muitas ONGs precisaram interromper temporariamente suas atividades. Assistência social, atendimentos de saúde, atividades de complementação escolar e outros serviços cruciais prestados pelas organizações sem fins lucrativos tiveram que ser descontinuados, criando ainda mais pressão para o público que conta com esses serviços.

Navegar por esses tempos incertos está sendo desafiador para todos. Para o terceiro setor, que atende as populações mais vulneráveis e lida com os maiores desafios do planeta, enfrentar esse desafio não será fácil. Se os recursos já eram limitados em circunstâncias normais, com a crise vai ficar pior. ONGs que realizam eventos para captar recursos como bazares, leilões, jantares e almoços beneficentes perderão a receita dessas atividades. Governos tenderão a atrasar repasses de parcerias e empresas vão diminuir patrocínios a projetos sociais, quando as ONGs mais precisam deles. Mesmo com a sustentabilidade financeira fragilizada, a demanda pelos serviços de assistência social dessas organizações será ainda maior em virtude da crise econômica gerada pela pandemia.

Por outro lado, estamos vendo um momento inédito da filantropia brasileira. Na minha última coluna aqui em Ecoa, escrevi sobre a resposta do setor filantrópico ao coronavírus. Na época, já haviam sido mobilizados mais de 1 bilhão de dólares (R$ 5 bi) globalmente, mas não consegui identificar nenhuma ação de doação no Brasil. Nos últimos 10 dias isso mudou: já são mais de R$ 475 milhões doados para lidar com os efeitos dessa pandemia. Banco Itaú lidera com uma doação de R$ 150 milhões; a rede Comunitas mobilizou R$ 23 milhões para compra de respiradores, a XP Investimentos anunciou doação de R$ 25 milhões para compra de cestas básicas e está mobilizando sua grande rede para dobrar esse valor; Edu Lyra da Rede Gerando Falcões já conseguiu R$ 5 milhões de reais para distribuição de cestas básicas com a campanha Corona no Paredão; a Ambev, Gerdau e Albert Einstein anunciaram construção de um hospital em M'Boi Mirim; Rubens Menin anunciou doação de R$ 10 milhões para compra de respiradores para hospitais públicos em Minas Gerais, entre outras várias doações.

Também observamos um nível de colaboração sem precedentes na esfera da articulação de redes. O Movimento por Uma Cultura de Doação, que articula o setor filantrópico brasileiro e reúne importantes atores como a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), o Movimento Bem Maior e a Editora MOL, criou duas iniciativas: o Fundo Emergencial para a Saúde, em apoio a instituições como a Fundação Oswaldo Cruz, Hospital das Clínicas e Santa Casa e uma ação de captação para distribuição de cestas básicas. Já o Instituto Phi lançou a ação Rio Contra o Corona para apoio emergencial a várias comunidades no Rio de Janeiro. Em São Paulo, um grupo de empresários, representantes do governo e empreendedores sociais lançou a União SP Contra o Coronavírus, que já mobilizou R$ 3 milhões e criou vários grupos de trabalho propondo e implementando ações de combate aos efeitos da pandemia.

Enquanto isso, podemos ver ações inspiradoras protagonizadas por coletivos em comunidades e ONGs encontrando formas de engajar suas comunidades no combate à pandemia. O Embaixadores da Educação criou a campanha Fora Coronavírus para mobilizar alunos da rede pública para criar ações de conscientização; a Casa do Rio no Amazonas articula o movimento Amazônia Sem Corona; a Associação das Mulheres de Paraisópolis está distribuindo marmitas na comunidade; e a Gastromotiva vem articulando o setor da gastronomia social para construir soluções para desafios como a sustentabilidade dos restaurantes e dos pequenos negócios de gastronomia, especialmente os que operam em áreas periféricas, a manutenção de emprego e renda, e a segurança alimentar para a população de baixa renda.

Se a situação é preocupante e a pandemia e a crise gerada por ela estão afetando todos, a mobilização e generosidade dos brasileiros são uma luz no fim do túnel. A pergunta que fica é a seguinte: será que a gente consegue estender essa solidariedade para além da resposta imediata de combate ao vírus? A sustentabilidade do terceiro setor está bastante ameaçada. Precisamos pensar em formas de apoiar as organizações da sociedade civil para além das ações emergenciais de resposta à pandemia. Para que o Brasil e o mundo saiam mais fortes dessa crise, será necessário solidariedade, estratégia e visão de longo prazo.

Patricia Lobaccaro