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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como as tecnologias de baixo custo podem transformar radicalmente o Brasil

As agricultoras da Rede Mulheres Produtoras do Pajeú estão espalhadas por 11 municípios de Pernambuco - Arquivo
As agricultoras da Rede Mulheres Produtoras do Pajeú estão espalhadas por 11 municípios de Pernambuco Imagem: Arquivo
Ana Cristina Nobre

Ana Cristina Nobre é educadora social com pós-graduação em Geopolítica e História. Feminista, é filha de agricultores familiares. A Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú, que ela coordena, foi a vencedora da categoria Iniciativas que Inspiram do Prêmio Ecoa 2021.

11/05/2022 06h00

A maioria das casas da zona rural do semiárido pernambucano não tem sistema de esgotos e nem coleta de lixo. Mas soluções próprias e de baixo custo contribuem para a prevenção de doenças e previnem a contaminação do lençol freático, além de fortalecer as atividades produtivas desenvolvidas pelas agricultoras locais.

Criadora de uma dessas soluções, a Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú trabalha no desenvolvimento do território do sertão do Pajeú há 16 anos contribuindo para que as famílias consigam mostrar resultados importantes para o desenvolvimento da região.

O que são tecnologias sociais

Existem muitas definições, mas podemos resumir assim: trata-se de um conjunto de técnicas e metodologias aplicadas em contextos sociais que permitem a melhoria das condições de vida. São soluções que favorecem a inclusão social e econômica, a transformação ambiental e cultural, ou a mudança de uma comunidade ou território frente a um problema - e é a própria população que participa do desenvolvimento dessa solução. É o que fazemos aqui no Sertão do Pajeú.

Um exemplo: o biofiltro

Os biofiltros feitos pela Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú são tecnologias de baixo custo construídas com ferro e cimento. Há versões com materiais reciclados também. Um biofiltro é composto de quatro compartimentos e tem como função reaproveitar a água usada pela família. Normalmente, são águas que vêm da limpeza ou do banho das casas, e que antes seriam jogadas a céu aberto na natureza, podendo se tornar fonte de poluição do meio ambiente.

Por serem algo prático de ser feito, eles têm sido uma saída para a irrigação de quintais de famílias inteiras, uma vez que o reúso mantém os Sistemas Agroflorestais (SAFs) produzindo durante os períodos de estiagens. Isso garante às mulheres e suas famílias alimento ao redor de suas casas, onde cultivam plantas frutíferas como mamoeiros, laranjeiras, graviola, goiabeiras, pinheiras, acerolas, além de raízes como macaxeiras e batata-doce.

O uso dessa tecnologia pelas mulheres vem contribuindo para melhorar a produção de alimentos, uma vez que a produção no semiárido é praticamente dependente dos períodos de chuvas. É essa tecnologia que permite que as agricultoras tenham água por mais tempo na propriedade para suas atividades agrícolas, sobretudo para algumas espécies frutíferas.

Uma tecnologia assim, tão acessível, impacta diretamente na saúde e na qualidade de vida de mulheres e crianças, seja com a oferta de alimentos saudáveis, seja através do cultivo e uso das plantas medicinais. Outro ganho é a geração de renda com a comercialização do excedente dos produtos in natura ou processados, como é o caso das polpas, doces e bolos.

Esperamos que mais brasileiros e brasileiras do campo e da cidade em situação de vulnerabilidade econômica, social e nutricional possam ter acesso às tecnologias sociais de baixo custo como política pública para garantir uma oferta maior de alimentos, possibilitando uma vida mais digna, justa e sustentável.

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