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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quais as palavras que você não aguenta mais?

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Imagem: iStock
Ricardo Oliveros

Ricardo Oliveros

Ricardo Oliveros é um jornalista formado no dia a dia das redações. Acredita que um texto é antes de tudo um espaço de diálogo que pode transformar quem lê.

08/05/2022 06h00

Eu quero compartilhar uma questão com você. Quando leio um texto e no meio surgem palavras que viraram moda, eu desisto de seguir em frente. Gratidão, empoderamento, território, ressignificação, assertivo. A lista é grande, eu sei. Já vai pensando quais são as suas que vamos fazer indicações tipo paredão.

"Gratidão por esse projeto assertivo que foi responsável pelo empoderamento de tantas mulheres e que pelas suas ações puderam ressignificar o território".

Acredito que toda área do conhecimento traz consigo uma série de palavras, códigos e conhecimentos que fazem parte de uma cultura construída pelas pessoas que formam determinado grupo. No terceiro setor existe uma contradição que é a forma de comunicar um projeto e a escolha de uma linguagem acadêmica que só é entendida por seus pares e não para o público a que se destina.

A primeira pergunta que faço é: Como romper essa bolha e fazer com que mais gente possa participar de um projeto?. Entendo meu trabalho de comunicador enquanto parte da construção de uma ponte entre um assunto que a pessoa se identifica e sua vontade de conhecer mais sobre o universo escolhido.

Da primeira fila da SPFW para o centro da periferia

Eu venho de uma carreira como jornalista de moda, inclusive como colunista aqui no UOL. Quem trabalha no meio sabe da quantidade de palavras estrangeiras que são usadas como se todos os termos fossem de domínio público. Fashion, Beauty, Make, Look, Backstage, Stylist. Sem contar expressões como "o preto é o novo preto" para se referir a volta de uma cor que não sai de moda ou "animal print vem com tudo no verão" dando um ar de novidade para a batida estampa de onça.

Um dia fui numa palestra do educador Antonio Hermes de Sousa e ouvi uma frase que se faz presente até hoje: "Quem tem privilégios, tem que fazer parte da solução".

A consequência é sempre pensar para quem estou escrevendo, tendo como base pessoas como minha mãe. Uma mulher que tem sabedoria vinda da prática e de uma simplicidade sem rodeios. Ao contar o que eu fazia, era necessário traduzir um mundo para que se transformasse em algo próximo e interessante para ela.

Depois, fui trabalhar no Instituto Elos, uma organização da sociedade civil, que atua na área de formação de juventudes e desenvolvimento comunitário. Uma das minhas atribuições era divulgar projetos no formato de convites irresistíveis para ação.

Aprendizados em tempos de cólera

Um exemplo desse formato de comunicação foi durante a pandemia. Como fazer com que as pessoas prestassem atenção à importância de lavar as mãos? A maioria dos textos que pesquisei eram verdadeiros tratados para agentes de saúde e não levavam em conta um dado básico: 35 milhões de pessoas não têm acesso à água tratada, e apenas 46% dos esgotos gerados no país são tratados, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).

A inspiração do texto foi a música "Tudo Ok" do Thiaguinho MT. "É hoje que a gente para todo mal que o vírus fez. Mãos e rosto OK. Casa e comida OK. Celular OK". Tudo com a bacia de água como base para cada ação de higiene. Quando vi duas adolescentes cantando para sua mãe a versão do Arrocha Vírus tive a certeza que fiz parte da solução.

Num mundo onde as ideias se tornaram uma fonte inesgotável de separação, de discursos de ódio, palavras carregadas de preconceito e racismo disfarçadas de liberdade de expressão, é importante criar espaços de reflexão, cuidado, afeto e diálogo.

O primeiro passo é eliminar as palavras que perderam sentido e significado. Vamos lá: escreva aqui embaixo sua lista de palavras que você quer eliminar nesse paredão. Prometo que vou escrever e queimar tudo em seguida.

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