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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Abre-te Sésamo!

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Imagem: iStock
Claudia Werneck

Claudia Werneck

Claudia é fundadora da ONG Escola de Gente e jornalista. Especializada em comunicação e saúde pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Autora de 14 livros sobre direitos humanos, diversidade e inclusão (WVA) para crianças e pessoas adultas, Claudia já recebeu mais de 60 reconhecimentos e premiações nacionais e internacionais como o Prêmio Direitos Humanos e a Ordem do Mérito Cultural, ambos da Pesidência da República. Seus livros já somam mais de 400 mil exemplares vendidos, em três idiomas (português, inglês e espanhol).

09/01/2022 06h00

Eu já passava dos 40 anos quando um médico que estava escrevendo um livro para a editora na qual eu trabalhava me disse que não conseguiria entregar o texto na data acordada pelo seguinte motivo: "Eu me deprimi", ele disse. Fiquei atônita. Não pelo prazo a ser estourado, passível de ser estendido, mas pela natureza ousada e libertária daquele argumento.

Foi como um "Abre-te Sésamo" do Livro das Mil e Uma Noites pra mim. A diferença é que no conto "Ali Babá e os 40 ladrões", o protagonista usava esta expressão mágica para abrir uma caverna repleta de joias e pedras preciosas acumuladas por larápios fictícios dessa história inspirada na arábia pré-islâmica.

Já o meu "Abre-te Sésamo" se deu ao contrário. Fiquei tão impactada pela naturalidade e seriedade dele, o médico-autor, falando de sua saúde mental - ou da falta dela naquele momento - que algo dentro de mim se escancarou. Foi quando me dei conta de que a frase mágica também abria espaços internos. No caso, a minha caverna psíquica, que não guardava tesouros exógenos e alheios. O que eu encontrei lá, ainda que desorganizadas, foram doses imperfeitas de meu próprio eu.

Até então eu achava vergonhoso falar de depressão. Ou da depressão que me acompanhava, de diferentes modos e intensidades - ainda na adolescência ou talvez desde a infância. Naquele dia, entendi que devemos ir além de se perceber, ou não, em depressão. Devemos falar dela com carinho, prontidão e cuidado.

A depressão chega chegando. Independentemente do modo como se manifesta - irritação, dores, enjoos, tristeza, falta de atenção, cansaço etc - fica a sensação de que quando nos deprimimos perdemos algo ainda maior do que alegria e paz. Um pouco de vida, talvez. Como se a falta de vida não fosse também um fato da vida.

As mentes não perdoam a depressão. E uma vez que estão sempre em busca de prazer, transformam a depressão em uma supervilã, de um filme, claro, que nunca será rodado externamente, mas que existe dentro de cada pessoa e que a nossa consciência edita para sobreviver.

O cenário é a caverna íntima. Não muda. A tela interna está sempre com programação de ações que se sucedem, queiramos ou não. Vivemos transbordando de ação. O roteiro não te anima? Vai ter cinema assim mesmo.

Crianças gostam de brincar de revelações e mistérios. Na vida adulta, continuamos correndo atrás de tesouros que estão fora de nós. Talvez por isso Indiana Jones seja um clássico das buscas tortuosas, perigosas e bem sucedidas. Entretanto, cada pessoa tem seu próprio baú repleto de bens psíquicos e sigilosos. São tesouros particulares e tendem a ficar eternamente na clandestinidade. Não nos mobilizam como busca nem nos seduzem como descoberta.

Quase 20 anos depois de ser sacudida pelo comentário do médico psiquiatra José Belisário Filho, que admiro muito, ainda me sinto sortuda por ele ter me acordado pra mim.

Não é confortável para quem está na conversa saber que há alguém ali que se sente deprimido. Até porque esta pessoa também pode estar em depressão, esforçando-se muito para amordaçá-la e teme que, durante a conversa, num comentário qualquer, a depressão possa fugir das amarras e se mostrar pra todo mundo. Se por conta da Covid-19 deprimir-se agora é um estado mental mais factível, o que acontecerá quando o isolamento social, as mortes e todas as perdas associadas à pandemia se forem? Que outra justificativa razoável teremos para nos deprimir? Quando o mundo se estabilizar, as depressões serão aceitas? Como deprimir-se de novo com alguma paz sem tragédias humanitárias ou pessoais?

Deprimir-se pode ser um modo de preservarmos a nossa saúde mental - como um basta, um chega, um grito parado no ar. Deprimir-se do nada existe. O nada não é nada. Nada é um monte de coisas.

Há um valor humano inesgotável em quem decide se aventurar pela sua caverna psíquica farejando sofregamente com o nariz encostado no chão, o cheiro e os rastros do esconderijo bem protegido de seu próprio tesouro. O que virá depois? Ninguém sabe.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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