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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O garimpo do general Heleno e o impacto no passado, presente e futuro

Vista aérea de balsas de garimpo ilegal no Rio Madeira - BRUNO KELLY/REUTERS
Vista aérea de balsas de garimpo ilegal no Rio Madeira Imagem: BRUNO KELLY/REUTERS
André Baniwa

André Baniwa

É vice-presidente da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI), empreendedor social, escritor, consultor e liderança do povo baniwa desde de 1992. Entre as conquistas do povo baniwa estão a produção e comercialização autogerida da Arte Baniwa (cestarias de arumã) /2000, Pimenta Jiquitaia Baniwa/2013 e a Escola Indígena Baniwa e Koripako - EIBK Pamáali/2000 de gestão participativa com inovação e criatividade intercultural.

13/12/2021 10h23

É conhecido, desde que começou o Brasil, que os militares das Forças Armadas denominam a Amazônia como vazio demográfico para justificarem suas iniciativas absurdas, como essa do general Heleno de autorizar garimpos na região do município de São Gabriel da Cachoeira, estado do Amazonas.

Os militares nunca enxergam os povos que têm como seu habitat a Amazônia, suas comunidades, seus territórios e todos os sistemas ou ecossistemas de vida que estão aqui. Essa atitude de nomear como vazio demográfico é, na verdade, uma demonstração da incapacidade de cumprir sua missão constitucional que prevê a proteção do meio ambiente como forma de garantir o bem-estar da sociedade brasileira. Todos devem promover a proteção do meio ambiente.

O princípio de território significa que ali tem sistemas de vida de povos, dos seres humanos, que tem direitos constitucionais que deveriam ser consultados. Seus resultados deveriam ser vinculantes, por isso não querem consultar, não querem dialogar. É uma forma de governar sem transparência, sem publicidade, fora dos princípios constitucionais.

A Amazônia nunca foi um vazio demográfico como dizem as Forças Armadas. Mas eles afirmam que é. Me pergunto se essas pessoas têm filhos, filhas, netos, netas e parentes para questioná-los sobre tantos absurdos que praticam. Não têm ética, só querem se dar bem. Só eles querem ganhar bem, e os demais que se danem, essa é a sua filosofia.

Os militares sempre estão guerreando com comunidades, as desrespeitando, abusando delas, e isso acontece muito em São Gabriel da Cachoeira. Talvez porque nunca tiveram guerra para eles, por isso guerreiam com o próprio brasileiro.

O garimpo traz muitas pessoas que aparentemente são boas, mas na verdade não são. Em São Gabriel da Cachoeira, entre a década de 1970 até os anos 1990, existiam como formigas que cortam as folhas, como pragas para as roças que vão destruindo em busca de ouro. Para isso, fazem qualquer coisa e criam discursos detonando todas as instituições do Estado, como se não fossem brasileiros.

Vão chegar nas comunidades com o discurso de que a prefeitura não está fazendo nada, que as organizações indígenas só estão ganhando muito dinheiro em nome delas, que a Funai não faz nada, que o governador não faz nada, que o presidente não presta e não vai fazer nada e assim sucessivamente. Eles fazem esse discurso só para serem aceitos, e não ficarão somente naquele pedaço autorizado, vão provocar impactos negativos e vão amedrontar todos ao redor das comunidades.

Junto a isso tudo vão prometer construir hospital, escolas, que vão levar os filhos para estudar nas universidades com bolsas de estudos, que vai ter muito dinheiro para todo mundo que aceitar suas práticas etc. É esse tipo de gente que o general Heleno, esses militares, as Forças Armadas e o governo atual estão promovendo, apoiando.

Num passado não distante, os garimpeiros enganavam os povos indígenas do Alto Rio Negro para procurarem dominar os lugares. Mas as comunidades perceberam que estavam sendo enganadas e promoveram ação de expulsar garimpeiros de lá de suas áreas depois de muitos estragos sociais, culturais e ambientais.

Mais recente, desde o governo Temer, no território dos baniwas entrava garimpeiro empresário sem dialogar, sem respeitar a organização social, afirmando ser amigo do presidente, do governador e de outras autoridades. Foram lá organizar cooperativas comunitárias, com a benção dos militares das Forças Armadas que autorizavam a pesquisa.

Quando nós nos reunimos, ouvimos os mesmos discursos da década de 70, 80 e 90. Só que nós já éramos outras pessoas, outras lideranças que já sabiam buscar entendimento, que sabiam tabuada, já tínhamos aprendido matemática, somar, multiplicar, diminuir, a divisão.

Mas foi a própria apresentação que a denunciou que este plano era insustentável, e foi assim que aquela tentativa acabou, por que as pessoas foram saindo da reunião quando viram que este projeto não tinha viabilidade nenhuma. Isso depois de muita perturbação das comunidades.

Garimpo traz muitas invasões de todas as formas, estamos vendo isso junto aos parentes yanomami, munduruku e outros no rio Madeira e, portanto, não presta. Os garimpeiros quando lerem este artigo se reconhecerão nele. E eu acho que não deveriam entrar no papo do governo, porque não vai prestar. Sei que são pessoas que têm sentimentos e família, então, principalmente seus chefes deveriam procurar meios legais de trabalhar, como gente inteligente deveria agir.

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