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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Reflexões sobre literatura infantil e infantojuvenil de autoria negra

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Juliana Correia

Juliana Correia

Jornalista, escritora e contadora de histórias, autora do @baobazinho, trabalho que alia arte, memória e educação a partir dos contos da tradição oral africana e afrodiaspórica. Mestra em Educação pela UFRRJ; pós-graduada em Ensino de Histórias e Culturas Africanas e Afro-brasileiras, pelo IFRJ, pós-graduanda em Literatura Infantojuvenil, pela UFF.

28/11/2021 06h00

Para começar, considero importante enfatizar que o racismo não tem a ver com ignorância, burrice, falta de Deus ou de amor ao próximo. O racismo tem a ver com política, com a forma como a sociedade foi (e continua) estruturada a fim de se garantir a manutenção do poder político e econômico nas mãos de um mesmo grupo racial: o branco.

A cultura desempenha um grande papel em todo esse processo, pois as artes são importantes agentes nessa engrenagem, inclusive a arte literária. Tanto a força para a manutenção do poder hegemônico, quanto a potência para a (re)construção de perspectivas não hegemônicas residem na literatura. Isto é porque as narrativas promovem experiências subjetivas, inspiram a formação de sentidos, a construção simbólica do mundo. Formam assim um campo de disputa. Acontece que esta disputa não ocorre em pé de igualdade. E não ocorrerá. Isso não interessa a quem está no poder.

De acordo com Abdias do Nascimento, o silenciamento é uma das maneiras pela qual o genocídio do povo negro opera. Uma das formas de subjugar os negro-africanos e seus descendentes foi, e ainda é, marginalizando ou apagando as epistemologias que produzimos, o que teóricos designaram por epistemicídio.

Por isso que os modos de co-existir e os valores civilizatórios que marcam as sociedades tradicionais africanas, bem como as comunidades negras nas diásporas, são historicamente perseguidos, folclorizados, subalternizados. As narrativas negras integram esse vasto repertório que é sistematicamente invisibilizado. A autoria negra também. Talvez aqui comece a ficar mais escuro ao leitor porque a literatura infantil e infantojuvenil afrocentrada não é "antirracista" e não se condiciona ao chamado "antirracismo".

A produção literária com base africana diz respeito a uma agência que preza pela reorientação cultural, pela possibilidade de reontologização do sujeito negro, a partir de um repertório que promova a história, a cultura e a ancestralidade negro-africana de forma positiva. Ela não é uma resposta ou uma reação ao racismo e sim um caminho para a emancipação mental de crianças e adolescentes negros. Ela diz respeito à uma escrita literária que parte da própria comunidade negra, considerando aí a autoria, a linguagem, o contexto social e histórico, os referenciais, além do discurso ou mensagem que a obra apresenta.

Considerando os públicos infantil e infantojuvenil, especialmente as crianças e adolescentes negros, um ponto interessante para refletirmos é o caráter "universal" atribuído aos chamados "clássicos da literatura". Como uma produção literária oriunda de uma determinada época e de um determinado espaço geográfico pode ser considerada "universal" ainda hoje? Quem definiu o que era "universal" e por quê? Em que medida o caráter "universal" não favorece a manutenção do apagamento das narrativas não ocidentais?

Outro ponto relevante para reflexão é a superproteção aos cânones, as diferentes estratégias empregadas para mascarar autores como Monteiro Lobato, por exemplo - um escritor e empresário declaradamente racista, que integrou o Movimento Eugênico, uma organização política e cultural que pregava a supremacia branca e o extermínio da raça negra no Brasil, que utilizou as próprias publicações destinadas ao público infantil para propagar tais ideais.

Como ser "antirracista" defendendo racistas e/ou comercializando/promovendo obras racistas? O mercado, um mocinho muito esperto, agora, ou melhor, mais especificamente a partir da Lei Federal 10.639/2003 - que tornou obrigatória a inclusão do ensino de História da África e da Luta do Povo Negro no Brasil no currículo de toda a rede escolar - se interessa também por obras com protagonismo negro. Mas se fixou na questão da representatividade, como se apenas ela importasse. Se há três ou quatro livros de autoria negra em uma vitrine, por exemplo, a empresa logo é identificada como "antirracista" e morre o assunto. Só que não.

Porque racismo tem a ver com poder, lembra? Com quem determina quem pode, quando pode e quem diz o quê.

A literatura infantil e infantojuvenil afrocentrada é a possibilidade de promoção de um imaginário positivo no que tange a história, a cultura e a ancestralidade negro-africana a partir da autoria e do referencial negro-africano. E essa não é uma produção pensada como uma demanda "antirracista", que seleciona autores e obras literárias negras apenas como uma estratégia comercial para atender um determinado nicho de mercado.

Trata-se de uma arte que contribui para a restituição da dignidade humana, para a libertação mental, para a nossa autonomia, a começar pelo poder de narrar a própria história, a partir da nossa própria comunidade.

A Curadoria de Ecoa

Toni Edson - Causadores - Amanda Bambu/ UOL - Amanda Bambu/ UOL
Imagem: Amanda Bambu/ UOL

As histórias e pessoas apresentadas todos os dias a você por Ecoa surgem em um processo que não se limita à prática jornalística tradicional. Além de encontros com especialistas de áreas fundamentais para a compreensão do nosso tempo, repórteres e editores têm uma troca diária de inspiração com um grupo de profissionais muito especial, todos com atuação de impacto no campo social, e que formam a nossa Curadoria. Esta reportagem, por exemplo, nasceu de uma conexão proposta por Toni Edson, curador de Ecoa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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