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Educação ancestral em tempos de pandemia

Indígenas brasileiros fazem cursos de informática na Oca Digital durante os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas  - Marcelo Camargo/Agência Brasil
Indígenas brasileiros fazem cursos de informática na Oca Digital durante os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Gersem Baniwa

Gersem Baniwa

Gersem José dos Santos Luciano é indio baniwa, natural da Terra Indígena Alto Rio Negro/AM. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado e doutorado em antropologia social na Universidade de Brasília. Foi Dirigente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro em 1987 e Coordenador-Geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira ? COIAB. Foi Secretário Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira-AM e Coordenador-Geral de Educação Escolar Indígena do Ministério da Educação. Atualmente é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Amazonas - UFAM.

10/10/2021 06h00

Educação é a capacidade humana responsável pela formação e desenvolvimento integral do ser humano em qualquer sociedade. É por meio da educação que os costumes, tradições, comportamentos, saberes, fazeres e valores são permanentemente aperfeiçoados, atualizados e transmitidos de geração em geração.

Os povos originários das Américas, também conhecidos como povos indígenas, construíram complexos sistemas educativos de conhecimento que lhes possibilitaram desenvolver complexas civilizações humanas ao longo de pelo menos 12 mil anos. São herdeiros portadores dos saberes de seus antepassados, complementados por outros saberes, acessados e apropriados, principalmente, por meio da escola. A essa junção complementária de distintos saberes chamamos de interculturalidade e intercientificidade. São culturas, saberes e ciências que ao se encontrarem, dialogam e se complementam entre si.

As escolas, sob protagonismo crescente dos professores indígenas, vêm promovendo essas tradições, sendo fundamentais no enfrentamento da pandemia de covid-19. Tiveram que mergulhar, revisitar, resgatar e reviver sabedorias ancestrais de curas e tratamentos de doenças.

Para os povos indígenas, as doenças estão presentes desde a origem do mundo como consequência do não cumprimento de regras de convivência entre humanos e destes com a natureza. As doenças só não imperam em absoluto porque os heróis criadores deixaram um conjunto de saberes e fazeres para manejar e controlá-las, razão que explica a importância dos conhecimentos e práticas tradicionais.

As cosmologias indígenas consideram o universo em sua totalidade e o ser humano integrando a vida como um todo. A covid-19 é considerada uma reação e lição da natureza aos processos ecocidas praticados pelo homem e revelou a tendência ontológica deste ser humano: pouco sensível e egoísta que dá pouco valor à vida e pouco se importa com a dor e o sofrimento do outro.

Os povos indígenas reaprenderam com a dor e o sofrimento pelas mortes de seus membros a valorizar e potencializar ainda mais seus valores ancestrais, o profundo amor à vida, ao outro, à natureza, aos saberes tradicionais, à solidariedade, aos modos de vida coletivos e comunitários. Reaprenderam a reconhecer e remanejar seus limites, mas também redescobriram a potência dos seus saberes no campo da medicina tradicional.

O pluralismo epistêmico da Ciência Acadêmica deve ser a mais concreta lição desses tempos e resposta aos ataques negacionistas. Experiências pedagógicas fortes com a pandemia potencializam tempos de transformações, construções de novos ciclos e oportunidades de novas escolhas humanas para desviar e corrigir caminhos errados. É uma oportunidade para a humanidade mudar e ressignificar o seu conceito de vida, de existências e de desenvolvimento ao mesmo tempo em que processa novas interaprendizagens de convivência e coexistência humana e cósmica.

A pandemia é uma oportunidade de o ser humano reaprender sobre a sua espécie, revisitar suas formas de estar e viver no mundo e repensar suas relações consigo mesmo e com a natureza. Os povos indígenas reafirmam seus ideais de vida que se inspiram nos mais velhos, na ancestralidade de Bem Viver, na reciprocidade e na profunda solidariedade entre as pessoas, na coletividade, na convivência com outros seres da natureza, no profundo respeito pela terra e no uso coletivo do que ela oferece, fonte de tudo o que precisa para viver e curar as doenças.

Os povos indígenas são testemunhos vivos de que há outras formas de vida e outros modos sustentáveis de habitar o planeta há pelo menos 15 mil anos sem alterar a composição e o funcionamento dos ecossistemas e da Natureza-Mãe. A filosofia de vida indígena expressa na utopia de Bem Viver é o caminho para uma vida saudável e sustentável no mundo. Bem Viver é uma concepção de vida segundo a qual não existe separação entre ser humano e natureza e por isso todos devem viver de forma respeitosa e harmoniosa com ela.

A Curadoria de Ecoa

André Baniwa - Juliana Pesqueira/UOL - Juliana Pesqueira/UOL
André Baniwa
Imagem: Juliana Pesqueira/UOL
As histórias e pessoas apresentadas todos os dias a você por Ecoa surgem em um processo que não se limita à prática jornalística tradicional. Além de encontros com especialistas de áreas fundamentais para a compreensão do nosso tempo, repórteres e editores têm uma troca diária de inspiração com um grupo de profissionais muito especial, todos com atuação de impacto no campo social, e que formam a nossa Curadoria. Esta coluna de opinião, por exemplo, nasceu de uma conexão proposta por André Baniwa, curador de Ecoa.

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