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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Precisamos contar nossas histórias

RF._.studio/Pexels
Imagem: RF._.studio/Pexels
Toni Edson

Toni Edson

Toni Edson É licenciado em Artes Cênicas (UDESC), Mestre em Literatura Brasileira (UFSC) Ator profissional desde 2000, trabalha com teatro de rua a partir de 2003. É doutor pelo Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas da Universidade federal da Bahia (PPGAC/UFBA), estudando procedimentos e tradição oral de contadores de história africanos como inspiração para rodas de história na rua. Desde 2013 é professor de Encenação e Teatro de Rua da Escola Técnica da Universidade Federal de Alagoas (ETA/UFAL).

29/09/2021 06h00

"Mundo dá volta, camará!" já dizia Gilberto Gil com toda sua inteligência. Escutei essa frase também, algumas vezes, quando treinava capoeira, e aí lá se vão milênios atrás. Parei de treinar e a ginga ficou na língua, nos trejeitos vocabulares e na necessidade de olhar no olho de quem bem dança contigo, mesmo que essa pessoa se autodenomine um oponente. Esse preâmbulo pode parecer esquiva, mas essa breve volta que dei é só a preparação para desferir um verbogolpe: estou na batalha e vou escrever sim literatura negra, vou comprar e ler sim pessoas negras e indígenas escrevendo e vou continuar boicotando atravessadores (as) brancos (as) com seus conteúdos racistas, irresponsáveis e criminosos.

Até pouco tempo atrás eu dizia que não queria ser lembrado como um escritor. Sou entusiasta da oralidade, pesquisador de tradições orais e contador de estórias com muito orgulho, técnica, apuro estético e desenvoltura (um contador "desenrolado", como se diz onde moro). Para mim, a palavra falada, as histórias contadas, ainda são amplamente superiores aos pontos de vista escritos. Tenho, como água mole em pedra dura, um desejo de que o mundo possa escutar mais histórias e por isso sigo contando. Compreendo, como se ouve em Burkina Faso e possivelmente em toda a África Ocidental, que nesse jogo de interlocução, que é o escutar de narrativas, quem escuta é mais importante do que a pessoa que fala. Já ouvi essa expressão inúmeras vezes da boca de meu irmão burkinabê Françõis Möise Bamba.

Me coloco humildemente nesse lugar de entender a minha desimportância e pequenez como ponte para histórias que atravessaram muitos séculos através da transmissão oral. Concordo e propago as palavras ditas por Tierno Bokar ao grandioso Amadou Hampatê Bâ de que a escrita é só uma fotografia do saber, a sabedoria parte de uma luz que emana de dentro de nós. Percebo o mercado editorial brasileiro extremamente tacanho e desonesto com autoras e autores, chamo muitas editoras de "atravessadores" nas palestras e oficinas que profiro. Mas estou disposto a morder minha língua e escrever cada vez mais.

Eu não queria ser lembrado como escritor

Desde muito pequeno eu tenho contato com livros, e mesmo antes de aprender a ler, eu brincava com primas e primos falando coisas "que o livro mandava fazer". Percebo desde novo que o poderio da palavra escrita é grande, principalmente no mundo em que estamos. Sou um leitor assíduo, gosto do ato da leitura, das mãos nas páginas, dos marcadores, das orelhas e contracapas, do cheiro do livro (quando meu nariz colabora), e percebam que em nenhum momento falo de e-books, mas isso é outra história para a qual eu ainda posso morder a língua. E mesmo com todo esse gosto pela leitura, eu dizia, até 2019, que não queria ser lembrado como escritor.

Tudo bem, nem todo leitor escreve ou pelo menos não gosta do que escreve, não há nada de incomum nessa minha visão. Acontece que escrevo bem, gosto do que faço, escrevo literatura dramática e poética desde criança, e entre atropelos e celebrações, sou Mestre em Literatura Brasileira. Minha intenção de não escrever e ser publicado em larga escala vinha exatamente de achar que a escrita é menor do que a fala, que a oralidade precisa ser mais difundida, praticada, exaltada, pesquisada e valorizada, inclusive na Academia (mas essa é outra história para a qual também quero morder a língua).

Eu não queria ser lembrado como escritor, mas sim como orador. Se eu pudesse ser lembrado, gostaria que fosse na contracorrente do que é posto como verdade. Há também algumas razões pessoais que me travaram o exercício da escrita, mas essas aberrações acadêmicas nem cabem aqui. Até que veio a pandemia…

Autoriza-se a escrever

Por mais que a fala tenha entrado em maior evidência com a lives e os podcasts, entre outros meios, que há muito já ensaiavam seus passos para bailar conosco, um curso de escrita com a feiticeira Cristiane Sobral permitiu-me autorizar a minha escrita. E eu, que há mais de vinte anos narro estórias, mas não escrevia nessa modalidade, passei a escrever contos. Eu sempre soube que a gente precisa contar nossas histórias. Estou falando de nós, negres, dos povos originários do Brasil, das mulheres, da comunidade LGBTQIA +, das pessoas que foram e têm sido silenciadas historicamente. Eu vislumbrei que contar minha história narrando, em co-presença, ou até pelo intermédio das telas era suficiente.

Por isso, inclusive, nunca me preocupei nem tive vontade de publicar minha dissertação ou minha tese, e diga-se de passagem já são públicas desde que surgiram, graças aos programas aos quais me filiei. Viva a Educação Publica. Mas cada novo descortinar de crimes me faz entender que esse lugar de disputa também é meu e vou investir em ocupar.

Mais ação sem romantizar

Quando comecei a contar narrativas de povos africanos, as publicações que encontrei foram poucas e eram muito raras. Maioria escrita por pessoas brancas. Contei histórias de povos ameríndios, e havia muita romantização na figura do indígena, além de um constante embranquecimento dessas pessoas. Esse incômodo foi se transformando, e hoje é muito mais corriqueiro, encontrarmos textos e contos escritos por pessoas negras e das primeiras etnias que povoaram o espaço que chamamos de país. Mesmo com essa "volta do mundo" ainda se produz livros que romantizam o sofrimento, que espezinham a luta histórica de muitos povos e que dão para nossas crianças um referencial empobrecido, distorcido, e execravelmente repudiável.

Mainha me dizia que "tem coisa que é melhor nem falar o nome" mas vão de "clássicos" a "contemporâneos" os que se enquadram na descrição acima. Por essas e outras vou escrever, mais e mais. Talvez eu nem seja publicado e lembrado como um escritor, bem sei. Talvez só eu e meia dúzia gostem do que escrevo, para mim está bom demais, mas se você chegou até esse ponto de leitura, conclamo sua pessoa a prestar atenção em algumas editoras negras que temos e vamos fortalecer essas iniciativas.

A página @literaturanegrafeminina chamou as pessoas que a seguem e organizou carinhosamente algumas dessas editoras:

Quilombhoje @quilombhoje_

Mjiba @literaturanegrafeminina

Kitembo @kitembo_literatura

MAZZA @mazzaedicoes

OGUNS TOQUES @editoraogums

MALÊ @editoramale

ORALITURAS @oralituraseditora

Reaja @reajaouseramorta

Nandyala @nandyalalivrariaeditora

Dandara @dandaraeditora

Ananse @editorananse

Ciclo Contínuo @ciclocontinuoeditorial

Padê @pade.editorial

Aziza @azizaeditora

Segundo Selo @editorasegundoselo

Erêginga Educação @ereginga.educacao

Kuanza Produções @kuanzaproducoes

Filhos da África @editorafilhosdaafrica

Elo da Corrente @sarauelodacorrente2007

Me Parió Revolução @me.pario

São só vinte aqui e há mais, umas que nem conheço e outras que admiro muito, como o selo @blackitude do Mestre Nelson Maca e a @editoraaldeiadepalavras da Sábia Cristiane Sobral, esta última pela qual lancei meus primeiros contos na coletânea ÁGUAS D’ILÊ . A página que citei acima também organiza lista de Livrarias Negras e Perfis Literários Negros, acho que vale a pena conferir e seguir e comprar e ler e escrever. Precisamos contar nossas histórias, nos caminhos da Escrevivência de Conceição Evaristo, nas encruzilhadas da Oralitura de Leda Maria Martins com o Pretoguês de Lélia Gonzales, através da oralidade e da escrita, práticas que há milênios são criadas e recriadas por nossos antepassados. Sempre prontes para re-existir.

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