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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que falar sobre o machismo na ciência causa tanto incômodo?

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Ana Lúcia Tourinho

Ana Lúcia Tourinho

Ana Lúcia Tourinho é Mestre em Zoologia, Doutora em Ecologia, Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade Federal de Mato Grosso, câmpus Sinop, Fundadora da Organização de Investigação e Combate ao viés de gênero na Ciência, Support Women in Arachnology - SWA

22/09/2021 06h00

Apesar dos avanços sociais alcançados nas últimas décadas, sabemos que nossa sociedade em sua essência é machista. Manifestações machistas estruturam os discursos no dia a dia e é perceptível a organização de nossos sistemas em torno do patriarcado.

Não é diferente na ciência. Porém a misoginia na academia se camuflou, se enraizou bem fundo nos cérebros dos acadêmicos. E hoje se manifesta silenciosamente e até mesmo inconscientemente levando-nos a crer que ela não exista.

Na psicologia e na literatura especializada chamamos de viés de gênero. Nada mais é do que julgamentos escondidos, leituras rápidas que fazemos das pessoas a partir de percepções não racionais, que pesam em nossas escolhas e decisões e também não são justas.

Os vieses cognitivos são complexos, e é de seus aspectos profundos e inconscientes que surge o termo machismo estruturado. Tá tão estruturado que nem sempre é óbvio ou perceptível. E parece mesmo que nós gostamos de imaginar a ciência como um terreno isento, livre de misoginia e demais preconceitos. Talvez faça parte de uma confusão nossa relacionando a racionalidade do pensamento e método científico com o moral. Porém os julgamentos humanos não são completamente racionais, nossas decisões passam mais pelas emoções e impulsos do que pela razão.

Como funciona?

Sistemas acadêmicos não são imunes ao preconceito implícito dos acadêmicos, e esta é a forma mais frequente de manifestação da misoginia na ciência. É mais fácil identificar o machismo explícito, no qual mulheres são impedidas de exercer funções, recebem menos pelo mesmo trabalho realizado por colegas homens ou são avaliadas e tratadas de maneira diferenciada.

Mas, por exemplo, ao conseguir o meu primeiro estágio, ouvi que eu era uma boa escolha porque eu enfeitava o ambiente e o deixava perfumado. Também houve um colega, muitos anos mais tarde, que fez comentários sobre minha estadia pós doutoral em Harvard, especulando se não havia sido um ex-namorado famoso que me colocou lá dentro.

Posso garantir que feromônios e aparência não estão listados no currículo quilométrico que alimento toda semana na Plataforma Lattes (os currículos dos cientistas brasileiros são públicos e ficam hospedados nesta plataforma no site do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Todo cientista sabe que as métricas usadas para nos avaliar em disputas por financiamento e emprego são currículo e nossas publicações científicas, a maneira mais importante de mensurar a produção de cientistas é a quantidade de publicações científicas produzidas a cada ano em boas revistas e editoras.

O que vieses causam?

A pergunta mais importante é: o quanto esses estereótipos prejudicam nossas carreiras mesmo que sejamos muito produtivas? Hoje já sabemos que a resposta é: Muito.

Inúmeros estudos documentam os efeitos pervasivos dos vieses inconscientes nas carreiras das cientistas. Em 2020, apresentei junto com sete colegas de área resultados preliminares de nossa investigação sobre vieses na aracnologia, nossa área de estudo, batizamos essa organização de Support Women in Arachnology. Apesar da presença equivalente entre gêneros, apenas 1% dos trabalhos apresentados era exclusivamente assinado por mulheres, enquanto 26% tinham autoria apenas de homens. Na composição do corpo editorial de revistas científicas, 93% a 100% dos editores são homens, mesmo havendo muitas mulheres tão ou mais qualificadas para o cargo.

Alguns celebram que no Brasil as mulheres assinam 72% dos artigos científicos produzidos, dados de um levantamento de 2019, porém menos de 20% de nós assinam artigos nas áreas de zoologia e ecologia quando os autores principais são homens. Mostrando que a forma de avaliar o impacto do viés deve ser por subárea e não generalizada.

Um artigo de 2020 demonstrou que comitês de avaliação com fortes vieses implícitos são responsáveis por um decréscimo drástico na promoção de mulheres, e suas decisões favorecem desproporcionalmente os cientistas homens. Isto impede que mulheres atinjam postos sociais e econômicos mais altos na pirâmide científica e junto com assédios e abusos são responsáveis pela grande evasão feminina na ciência.

A boa notícia é que o mesmo estudo aponta a tomada de consciência de sua existência como uma potente ferramenta para combater o viés implícito. Os comitês que aceitam a existência do mesmo realizam seleções menos desproporcionais.

Ninguém quer ser identificado machista ou se acha um. Reconhecer-se engrenagem de um sistema misógino e injusto dói. Talvez isso explique as reações de desconforto, comportamento defensivo, negação e até mesmo certa agressividade de algumas pessoas quando este tema é tratado.

Mas as profissionais não são enfeites, sua capacidade e esforço não devem ser diminuídos em função de seu gênero. Seleções para estágio e trabalhos se baseiam em qualificações e aptidões para o cargo, uma trajetória de sucesso, repleta de conquistas científicas é suficiente para que elas sejam selecionadas e convidadas para trabalhar nas maiores instituições de excelência e elas merecem receber promoções.

Todos nós devemos ficar incomodados e reativos sim, mas com as injustiças, mesmo que elas sejam práticas inconscientes.

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