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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dia Mundial Sem Carro: por que ainda precisamos falar sobre isso?

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Aline Cavalcante

Aline Cavalcante

Aline é ciclista urbana, comunicadora, pesquisadora nas áreas de planejamento territorial e mudanças climáticas e mãe. Constrói o projeto Clima e Mobilidade Ativa (@climaemobilidade) e faz parte da Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (@ciclocidade) e da União de Ciclistas do Brasil (UCB)

22/09/2021 06h00

Todo 22 de setembro amanheço com uma sensação estranha de que essa data perdeu o sentido e a energia provocadora que havia há alguns anos quando cicloativistas de todas as partes do mundo se reuniam e reivindicavam menos congestionamentos, menos poluição e menos mortes no trânsito. O Dia Mundial Sem Carro (World Car Free Day), celebrado nesta data, nasceu no começo dos anos 90 na França — em 2000, o movimento já tinha se espalhado por mais 700 cidades européias e começou a ganhar o mundo — com o intuito de provocar o debate a partir de uma demanda global e quase inalcançável: por cidades sem carros!

O dia que era de luta foi crescendo ano a ano e ganhou aqui no Brasil contornos da "Semana da Mobilidade" cujo foco se tornou, além de conscientizar a população sobre a violência do trânsito, promover os benefícios de outros jeitos de se deslocar, como andar a pé, de bicicleta, de carona e de transporte público. Passando a sugerir que as pessoas pudessem ficar, pelo menos, um dia sem usar o carro e demonstrando ganhos individuais, mas sobretudo coletivos.

"As cidades estão colapsando", "precisamos de alternativas", "mais amor, menos motor", "mais adrenalina, menos gasolina". Repetimos isso durante décadas a fio, enquanto promovíamos bicicletadas, caminhadas, panfletagens pelas ruas de São Paulo e ocupações criativas do espaço público, como as vagas vivas, ‘andomóvel’, desafio intermodal, entre outras milhares de atividades. O movimento social chamou bastante atenção por todo o país. A mídia cobriu, políticos se comprometeram, pesquisadores estudaram (e estudam) o fenômeno. Mas hoje, sinto dizer, parece que a luta virou instrumento do sistema, uma narrativa vazia e que foi incorporada por governos e empresas como se fosse um jargão publicitário, uma celebração da barbárie, uma festa mórbida sobre o túmulo dos milhares de mortos e feridos no trânsito, deixando passar batido o principal ponto dessa data: CARROS SÃO UM PROBLEMA E VIDAS PERMANECEM SENDO DISSOLVIDAS NO ASFALTO!

Não pretendo com esse desabafo trazer novamente os dados, evidências e os números dessa tragédia anunciada que se realiza diária e cotidianamente nas ruas, avenidas e rodovias das cidades brasileiras, todos vocês estão cansados de saber do que se trata, é só ligar a televisão.

O carro em si, enquanto objeto símbolo do desenvolvimento, foi e é um erro do começo ao fim. Sua promessa de dar mais liberdade e prazer para as pessoas é uma falácia comprovada, uma mentira contada exaustivamente e que além de entupir as cidades, destruir bairros, enterrar rios e comprometer a renda das famílias, tornou as ruas - que deveriam ser públicas, acessíveis e seguras - espaços hostis, de medo e violência. O carro é ineficiente e prejudicial. Morrem milhares de pessoas todos os anos, outras tantas ficam "inválidas", com sequelas e traumas por causa dessas máquinas de moer gente espalhadas nas ruas e a impunidade ofertada aos seus condutores. Antes da pandemia, o trânsito já era a principal causa das internações em UTI e uma das principais causas de mortes de crianças e jovens no Brasil com recorte nítido de raça e classe social. Ou seja — como diz a pesquisadora Rafaela Albegaria —, se é recorrente, não é acidente, é projeto!

Os pesados investimentos públicos e privados para ampliar espaço para o automóvel e viabilizar esta chacina poderiam e deveriam estar sendo direcionados unidirecionalmente para resolver de fato a (i)mobilidade urbana (e também a saúde pública né). Sinto dizer, leitores, mas nenhuma cidade no mundo resolveu seus problemas de congestionamento e contaminação do ar priorizando os carros. Nenhuma.

Em 2015 ‘estreei’ no cinema (risos) participando como protagonista do filme "Bikes vs Cars" — direção Fredrik Gertten, WG Films — que esteve na época disponível no Netflix. Fui a personagem que representou São Paulo e o Brasil registrando o início da construção da política cicloviária na capital paulista e, graças a isso, me conectei com muitas pessoas ao redor do mundo e conheci diversas realidades. A experiência do cicloativismo já estava num processo de amadurecimento profundo em mim quando passei a cruzar a questão da bicicleta com a luta de classes, o racismo, o machismo e as múltiplas violências e desigualdades de acesso ao transporte, moradia e ao direito a (transformar a) cidade que se sobrepunham na minha frente, mas foi também com a experiência e projeção do filme que minha cabeça explodiu de vez.

Ficou nítido que falar em "cidades para pessoas", transição energética, transformação urbana ou alternativas sustentáveis para a mobilidade significa, na verdade, encarar grandes leões do capitalismo que têm por trás todo um sistema perverso de marketing e propaganda, de controle dos corpos (principalmente negros e periféricos), de manutenção e dependência financeira a uma cadeia produtiva extremamente predatória e de exploração infinita da natureza que impedem qualquer avanço no sentido de reduzir, mitigar e até mesmo explicar os problemas causados por eles.

Enquanto isso, estamos diante de um colapso sem precedentes e vivendo a maior crise socioambiental e climática das nossas vidas e me choca que ainda não conseguimos sequer problematizar as promessas que ouvimos por aí de "carros acessíveis para todos" como algo a ser alcançado para a felicidade geral da nação. Você já imaginou o cenário onde todos possuem carros? Ou mesmo fazendo um paralelo interessante onde — ao invés de desestimular e criar alternativas — todas as pessoas pudessem fazer churrasco e comer carne todos os dias? O desmatamento e a queima de combustíveis fósseis são nada menos que os maiores responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa do Brasil. Então, apesar de compreender fielmente a importância hoje da carne na alimentação do brasileiro e do carro na mobilidade, é uma insanidade que ainda aceitamos esse discurso sem criticidade, sem um horizonte e compromisso de transformação profundas dessas bases que só estimulam o consumo desenfreado, insustentável e enche os bolsos dos setores mais predatórios do planeta. Isso nunca deu certo, e não tem nenhuma chance de dar agora.

O debate e a disputa pelo futuro estão colocados e, como dizem por aí, "a bola tá quicando". É necessário imaginar, disputar e construir novos interesses em outras demandas.

Reflitam comigo. Por que é aceitável prometer carro pra todo mundo e dar benefícios fiscais eternos para as montadoras, mas é impensável ter ônibus totalmente gratuitos para a população? E tirar espaço do carro para aumentar os corredores exclusivos, ampliar calçadas, ciclovias e ciclofaixas?! Nem pensar. Ai de quem falar em taxar carros de luxo para ajudar a subsidiar a transição para um transporte coletivo limpo e zero carbono. Ou ainda pobre do prefeito que endurecer a fiscalização de trânsito e reduzir as velocidades máximas das vias para que mais nenhuma criança morra atropelada a caminho da escola.

Na outra ponta, será que é muito difícil imaginar que, ao invés de uma empresa de extração de petróleo e gás (atividade altamente poluidora) pudéssemos investir e migrar para ter empresas públicas de energia eólica e solar compondo uma matriz diversa e complementar de fontes de energia? Ou investimento massivo em transporte (de pessoas e cargas) sobre trilhos no país inteiro? Me parece que isso seria absolutamente importante para enfrentar os desafios que nos esperam daqui a pouco com a crise elétrica e do combustível que - como sabemos - são cíclicas e tendem a piorar ano a ano.

Neste Dia Mundial Sem Carro desejo uma conexão profunda da mobilidade urbana com uma agenda concreta de desenvolvimento humano e sustentável, com um horizonte real de transição justa, onde novos empregos são gerados e os trabalhadores do setor dos "fósseis" possam ser qualificados e absorvidos em atividades mais estratégicas, limpas e promissoras para a soberania nacional.

O DMSC ainda é um momento provocador e é preciso voltar a disputar essa narrativa com mais força em direção ao direito a uma chance de futuro, pois não temos mais tempo para promessas que olham a vida através do retrovisor do carro parado.

Dedico este texto a Marina Harkot, cientista social, ciclista urbana, pesquisadora e amiga assassinada brutalmente por um motorista bêbado enquanto voltava pedalando para casa. Dedico também a todas as vítimas da violência no trânsito. Não será em vão.

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