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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Guia alimentar: um passo para a sustentabilidade

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Imagem: a_namenko/iStock
Josefa Garzillo

Josefa Garzillo

Josefa recebeu o seu nome em homenagem à sua avó, a mesma avó que lhe ensinou a cozinhar. Se cada um de nós é - ou deveria ser - uma voz da Terra, Josefa quer escrever sobre assuntos que nos façam relembrar das nossas conexões com o planeta a partir de temas do cotidiano, como a alimentação, por exemplo. Ela trabalha com meio ambiente há vinte anos. Graduada e mestre em medicina veterinária, especialista em gerenciamento ambiental e doutora em saúde global e sustentabilidade pela USP, atualmente é pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens-USP) e pesquisadora convidada da Ca?tedra Josue? de Castro de Sistemas Alimentares Sauda?veis e Sustenta?veis da USP.

21/07/2021 06h00

No ensaio "A ética da Terra", da primeira metade do século 20, o conservacionista americano Aldo Leopold explicou que a agricultura científica-industrial se encontrava em franco desenvolvimento quando a ecologia surgiu. Por isso, era mesmo de se esperar uma incorporação mais lenta dos conceitos ecológicos na agricultura. Segundo Leopold, os agricultores de então seguiam apenas as práticas que tinham por resultado um ganho econômico para si mesmos, imediato e visível, ignorando o que seria vantajoso para as comunidades humanas e não humanas no longo prazo.

De modo geral, a agricultura abraçou um sistema típico da indústria: lógica de produção linear, em larga escala e com baixa variedade de produtos. Na prática, esse pensamento se traduz na derrubada de matas nativas para abrir fronteiras agrícolas, introdução de maquinários pesados movidos a combustíveis fósseis e intensificação da produção por área.

Basicamente, uma única espécie é cultivada em latifúndios, como ocorre nas lavouras de soja. Este processo veio — e vem — destruindo progressivamente os sistemas ecológicos, abalando suas estruturas e funcionamento, além de dizimar espécies e provocar mudanças climáticas significativas.

Quase um século depois dos escritos de Leopold, a agricultura industrial não teve grandes mudanças, mas diversos setores passaram a adotar uma visão mais sistêmica sobre o mundo. Assim, as práticas ecológicas cresceram — e foram acompanhadas da conscientização sobre a importância de se manter um meio ambiente não tóxico e preservado. Seguindo o espírito do tempo, o Guia Alimentar para a População Brasileira integrou os temas ambientais nas suas recomendações alimentares.

Lançado em 2014 pelo Ministério da Saúde, o documento foi construído de forma científica e democrática. O trabalho de cientistas e técnicos de diversas áreas do conhecimento, somado a consultas públicas, fez com que a sustentabilidade fosse considerada no Guia, colocando o Brasil na vanguarda: depois de nós, vários países publicaram guias semelhantes, como Uruguai, Suécia e, mais recentemente, a Bélgica.

Mudar a estratégia de agricultura para formas ecológicas permite a preservação de recursos naturais — o que é necessário para a própria produção dos alimentos e, consequentemente, fortalece a segurança alimentar da população. Por essa razão, a entrada dos temas ambientais no Guia Alimentar foi importante e pertinente.

Em seu texto, o documento prioriza as escolhas alimentares ligadas à agricultura ecológica e ao bem-estar animal, e faz um contraponto com os impactos ambientais diretos das monoculturas e seus produtos. Isso inclui o uso de agrotóxicos, as emissões de gases do efeito estufa, a perda de florestas e da biodiversidade, o uso excessivo de embalagens e o transporte a longas distâncias, entre outras consequências.

É verdade que o sistema agroalimentar industrial tem produzido uma quantidade enorme de alimentos para a sociedade, mas a agricultura ecológica do século 21 — quando tiver os mesmos estímulos políticos e econômicos recebidos pela agricultura industrial — será capaz de alimentar a população em quantidade suficiente e com qualidade nutricional superior, sem degradar o meio ambiente.

Neste sentido, o reconhecimento pelo nosso Guia Alimentar de que é necessário alimentar a população brasileira por meio de sistemas produtivos que cuidem do meio ambiente é um sinal muito positivo.

As evidências científicas dos graves impactos ambientais causados pela produção e consumo de alimentos são muitas. A pressão da agricultura sobre os sistemas da Terra é contínua e sistemática, causando mudanças na paisagem, na variação climática, nas secas prolongadas, no assoreamento dos rios. Tudo isso agrava os problemas sociais que, no Brasil, não são poucos. A monotonia alimentar, a desnutrição e a fome convivem com a ansiedade provocada pelas crises e tragédias ambientais. É necessário um compromisso de todos os elos da cadeia produtiva de alimentos com as questões planetárias para que se mantenha a capacidade da Terra de regenerar a vida — a vida de todos nós.

Quando olhamos para a dimensão dos problemas ambientais, especialmente a crise climática e a extinção massiva de espécies, parece difícil pensar que a beleza deixe de ser eliminada da face da Terra por simples mudanças no cardápio. Entretanto, as escolhas alimentares representam um compromisso com a condição do planeta. Se em algum momento sentimos que não conseguiremos fazer essa travessia sozinhos, podemos olhar à nossa volta e ver quantas iniciativas já foram fortalecidas no Brasil, nos Estados Unidos, em várias partes do mundo, particularmente a agricultura ecológica e a agricultura urbana. Que o guia brasileiro tenha mais leitores, e que continue a inspirar a boa relação das pessoas com a natureza.

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