PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Opinião


Opinião

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Precisamos do ativismo que assume riscos

Ativismo - jacoblund/Getty Images/iStockphoto
Ativismo Imagem: jacoblund/Getty Images/iStockphoto
Pedro Telles

Pedro Telles

Pedro Telles é diretor da Quid, conselheiro do Advocacy Hub e senior fellow em Equidade Social e Econômica na London School of Economics and Political Science (LSE)

16/06/2021 06h00

Ao invés de deixar o medo nos silenciar, devemos seguir o exemplo daqueles que estão encarando o autoritarismo de frente

Dedico grande parte da minha vida a atividades que se encaixam, de uma forma ou de outra, no que é conhecido como "ativismo".

Já passei por organizações como Greenpeace, Oxfam, Instituto Alana e Fundo Brasil de Direitos Humanos. Ajudei a construir iniciativas como a Bancada Ativista, o Advocacy Hub, o Engajamundo. Ao lado de muita gente, pressionei governos e empresas a fazer melhor em diversas pautas e contextos. Falhei o bastante para saber como pode ser difícil, fui bem-sucedido o bastante para ter certeza de que vale a pena.

Nunca senti mais necessidade de assumirmos riscos do que estou sentindo hoje.

Nos últimos meses, foram várias as ocasiões em que vi organizações, movimentos e coletivos pensando duas vezes antes de agir. Antes de lançar uma nova campanha, fazer um novo esforço de mobilização, organizar uma ação direta. Em muitos casos, o resultado foi a desistência.

Isso não acontece por acaso. Estamos lidando com um governo autoritário, apoiado por milícias e cidadãos armados, que vem aparelhando forças policiais e o sistema judiciário para que sirvam aos seus interesses, e que não hesita em comprar apoio da pior parte do nosso sistema político via corrupção. Nesse contexto, é natural que análises de risco nos levem a pensar duas vezes, e por vezes a desistir. Tanto nosso medo, quanto nossos advogados, apontam nessa direção.

Mas é exatamente isso que querem os autoritários e extremistas que hoje enfrentamos. Querem nos fazer desistir. É assim que o autoritarismo funciona, silenciando não apenas pela força bruta, como também pelo temor e pelo constrangimento. E nosso silêncio é um gosto que não podemos lhes dar.

A chance de hoje sermos atacados é, sem dúvidas, muito maior do que foi diante de todos os outros governos desde a redemocratização. Mas o custo de cedermos cresceu em proporção ainda maior. Quanto menos firmes formos hoje na luta por direitos e pela democracia, menos espaço teremos para fazer isso já no dia de amanhã, porque estamos lidando com gente que trabalha ininterruptamente para que o espaço cívico deixe de existir por completo. Nem mesmo a certeza de eleições democráticas temos mais (ou você tem?), que dirá a certeza de que o dia de amanhã será um dia mais favorável a nós.

Frente a esse cenário, grupos com dois perfis têm encarado o desafio de frente e assumido riscos cada vez maiores: aqueles menos institucionalizados, e aqueles historicamente mais privados de direitos. Justamente quem tem mais a perder, e quem já sentiu na pele o que é perder mais. Povos indígenas, que há mais de 500 anos têm suas casas incendiadas, continuam na linha de frente da resistência e literalmente lutam pelas suas vidas com mais força a cada dia. O movimento negro lidera a retomada das ruas nos centros urbanos. Lideranças LGBTQIA+ recebem crescentes ameaças, mas ampliam sua voz ao invés de se calar.

Esses grupos estão fazendo muito, mas precisamos fazer mais - especialmente aqueles de nós que têm mais recursos e estrutura. Não é hora de deixar de criticar o governo por medo de receber em troca um processo judicial abusivo. Nem de desistir de uma campanha ou ação pela possibilidade de retaliação. Muito menos de temer o risco de ser visto como parcial ou partidário por repudiar o autoritarismo. Estamos falando, afinal, de centenas de milhares de mortes, da volta da fome, de uma democracia que está por um fio, entre tantos outros horrores.

É hora de fazer o oposto: fortalecer as críticas conforme a situação do país piora, reforçar campanhas e ações nas redes e nas ruas, ter posicionamento firme contra atores autoritários mesmo que o preço disso seja alguma antipatia de quem ainda tolera os intolerantes.

Isso não significa agir de maneira inconsequente. É possível adotar medidas sérias de segurança física, digital e jurídica, construir planos cuidadosos com boas salvaguardas, garantir que todas as pessoas envolvidas em atividades de enfrentamento mais direto saibam dos riscos e escolham tomá-los conscientemente. É possível inclusive pensar duas vezes e desistir, sim, caso de fato não haja como seguir adiante com um mínimo de confiança. Mas a análise de risco não pode ignorar o maior dos riscos: aquele de sermos silenciados em definitivo justamente por não agir antes que seja tarde demais.

Se existe um momento em que precisamos estar dispostos a arriscar mais, esse momento é agora.

Já começamos a virar o jogo, mas precisamos redobrar esforços. Porque os autoritários e extremistas não vão parar se não forem parados por nós.

Opinião