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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Revisando a Amazônia

MANAUS AM 13-09 2011-  Sobrevoo  nos arquipélogos de Anavilhanas e Mariauá. Paisagem no Parque Nacional de Anavilhanas. (Foto Alberto Cesar Araujo/Foto Amazonas) - Alberto Cesar Araujo/Foto Amazon
MANAUS AM 13-09 2011- Sobrevoo nos arquipélogos de Anavilhanas e Mariauá. Paisagem no Parque Nacional de Anavilhanas. (Foto Alberto Cesar Araujo/Foto Amazonas) Imagem: Alberto Cesar Araujo/Foto Amazon
Elaize Farias

Elaize Farias

É cofundadora da agência de jornalismo independente e investigativo Amazônia Real, com sede em Manaus. Especializou-se na produção de reportagens socioambientais na Amazônia com enfoque em povos indígenas e povos tradicionais, direitos territoriais, direitos humanos, crise climática, impactos de grandes obras na natureza e nas populações amazônicas, entre outros assuntos. É amazonense, natural da cidade de Parintins, na região do baixo rio Amazonas. De origem Sateré-Mawé, defende a filosofia indígena dos valores do Bem-Viver como modelo ético para mudanças de paradigmas e para a sobrevivência da natureza e da humanidade.

26/05/2021 06h00

No imaginário ocidental a Amazônia é um tesouro a ser descoberto, dominado e explorado. A floresta está aqui apenas para servir, de preferência devastada. Suas populações humanas são atrasadas e precisam da ajuda da "civilização". São mais de cinco séculos desta mesma retórica que construiu as bases da dominação colonial, desde os primeiros viajantes e cronistas que chegaram com suas ideias pré-concebidas de forte influência fantástica e mirabolante sobre a região e os povos que aqui viviam.

Eles vieram atraídos pela novidade, aventura e interesse científico. Muitos se aproveitaram e se apropriaram do conhecimento dos indígenas com os quais fizeram contato e, ao mesmo tempo, desqualificavam este mesmo conhecimento, chamando-os de selvagem e inferior, em uma atitude etnocêntrica que nos parece tão familiar até nos dias de hoje.

Independentemente das suas observações virem carregadas de lacunas, preconceito e eurocentrismo vigente, estes intelectuais europeus primitivos deixaram obras valiosas e fundamentais para conhecermos nosso passado e compreendermos o que se passa no presente.

La Condamine (1701-1774) foi um dos pioneiros em expedições científicas, chegando aqui com uma equipe de notáveis das mais diferentes áreas. Não posso deixar de mencionar que ele também deu uma das representações mais negativas das populações nativas (entre elas os Omágua), descrevendo-as em 'estágio selvagem'.

Buffon (1707-1888) se notabilizou como o cronista que atribuiu ao clima uma suposta inferioridade das populações nativas. Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), autor da monumental "Viagem Filosófica", é provavelmente o cronista de maior projeção deste período e autor de um dos principais estudos sobre as ciências naturais da região Norte do Brasil. Destaco que estes parágrafos são sucintos e não refletem com justiça a grandiosidade e importância destes autores.

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Capa do livro "Tesouro descoberto no Máximo Rio Amazonas" do Padre João Daniel
Imagem: Reprodução

No momento, sou leitora recente do padre jesuíta João Daniel (1722-1776), em seu "Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas" (Contraponto Editora). São dois volumes que totalizam mais de mil páginas. João Daniel escreveu esse monumento no cárcere, quando voltou para a Europa. Ele morreu na prisão, no conflito entre a Companhia de Jesus e o Marquês de Pombal. Das obras que li, "Tesouro..." é possivelmente a mais cativante.
A imensa obra de João Daniel descreve plantas, roçados, espécies de árvores e frutos (ele se deliciava); fala de tecnologia de navegação e arquitetura. Relata o contexto social e o cotidiano. É um documento amplo da sociedade e da história amazônica em todos os aspectos. De sólida formação, o jesuíta foi um humanista. Dedicou-se a conhecer com profundidade como os indígenas manejavam a floresta. Destacou a importância de adaptar a arquitetura à matéria-prima nativa e ao clima local. Descreveu minuciosamente os tipos de farinha: "chama-se farinha de água por se deitar de molho, e sai alguma tão bem fabricada, que na mesma cor amarela está convidando a se comer".

O magistral "A Invenção da Amazônia", da professora e escritora amazonense Neide Gondim, conceitua com precisão essa visão fantástica, paradisíaca e monstruosa que tanto atraía a opinião pública da época (da chegada do europeu invasor). "A Amazônia não foi descoberta; sequer foi construída. Na realidade, a invenção da Amazônia se dá a partir da construção da Índia, fabricada pela historiografia greco-romana, pelo relato dos peregrinos, missionários, viajantes, comerciantes", descreve Neide Gondim.

Ainda hoje se concebe uma ideia fantástica sobre a Amazônia. Está no cinema, nas novelas e, me perdoem os colegas, no jornalismo. Muitos ainda cultivam a imagem de uma Amazônia única, homogênea. Outros veem a região apenas como uma rica floresta pronta ser aproveitada. Olham a Amazônia a partir de suas próprias perspectivas, desconhecem as condições de vida destes povos; é inquietante como essa tendência permanece cristalizada em muitos de nós em pleno século 21. Conhecer como fomos vistos e julgados no passado é fundamental e necessário para construirmos um novo senso histórico sobre a Amazônia e as populações que aqui vivem. Um novo padrão civilizatório.

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