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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Temos fome e queremos continuar vives

Júlio César de Melo Pinto estampa o cartaz de "O Caso do Homem Errado", filme de Camila de Moraes - Reprodução
Júlio César de Melo Pinto estampa o cartaz de "O Caso do Homem Errado", filme de Camila de Moraes Imagem: Reprodução
Camila de Moraes

Camila de Moraes

Camila de Moraes é jornalista e graduanda no curso B.I. de Artes com concentração em audiovisual pela Universidade Federal da Bahia. Na área do cinema dirigiu o documentário de longa-metragem "O Caso do Homem Errado" que aborda a questão do genocídio da juventude negra no Brasil. A cineasta se tornou a segunda mulher negra a entrar em circuito comercial com um longa-metragem após 34 anos de silenciamento no Brasil. A primeira mulher negra foi Adélia Sampaio, em 1984, com o longa-metragem de ficção "Amor Maldito". Aclamado, o longa "O Caso do Homem Errado" esteve na seleta lista de pré-selecionados pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil e concorrer ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2019. Idealizadora e Curadora do Festival Cinema Negro em Ação. Atualmente desenvolve o projeto de uma série de ficção chamada "Nós Somos Pares" que aborda a vida de seis mulheres negras e suas relações de amizade e amores. Camila de Moraes também dirigiu o curta-metragem :A Escrita do Seu Corpo", que trata sobre a questão de identidade racial e de gênero por meio da poesia. Produziu e co-roterizou o documentário "Mãe de Gay" vencedor de dois Galgos de Ouro no Festival Universitário de Gramado. Fez produção do curta- metragem de ficção "Marcelina - com os olhos que a terra há de comer", de Alison Almeida, e assistência de produção do documentário "Poesia Azeviche", de Ailton Pinheiro. Camila de Moraes é gaúcha, mas reside em Salvador há onze anos

12/05/2021 06h00

Por meio do fazer artístico da produção de documentários, gostaria sempre de proporcionar ao espectador uma reflexão profunda da vida sob a ótica do afeto. Porém, o meu pertencimento, enquanto mulher negra brasileira, não me deixa um dia sequer fechar os olhos para a nossa dura realidade. O que me faz fazer coro ao discurso dos movimentos sociais, "quem tem fome quer comida, não a morte!". Como nos ensinam os versos do poeta, pintor, ator, cineasta Solano Trindade "se tem gente com fome, dá de comer", tal conceito também sintetiza a campanha humanitária da Coalizão Negra por Direitos.

Afinal, quem tem fome quer comida, quer comer, quer viver. Fico consternada em saber que, em pleno 2021, viver com dignidade no Brasil não é um direito para todes. Nessa conjuntura de fome, desemprego, miséria e pandemia, diariamente somos notificados sobre as nossas mortes, sejam elas físicas ou simbólicas , psicológicas e/ou emocionais. Também sabemos que a cada 23 minutos uma pessoa negra é executada no país, mas esses dados não podem se tornar apenas estatísticas frias, pois cada número desses representa um indivíduo com nome e sobrenome, famílias dilaceradas, sociedade destruída, um mundo em colapso que pede socorro e permanece gritando: "parem de nos matar".

Diante disso, é essencial que o poder público atue para o enfrentamento da violência que amplia ainda mais o processo de extermínio da população negra. Meu coração fica apertado e aquele sentimento de não poder respirar faz com que as lágrimas caíam copiosamente em meu rosto ao saber dos assassinatos de Bruno Barros, Yan Barros (2021), Beto Freitas (2020), Júlio César de Melo Pinto (1987), e infelizmente tantos outros nomes e sobrenomes que tornariam esse artigo interminável. Esses assassinatos representam o ato final de barbárie explícita e racismo sistêmico que se abate sobre a população negra brasileira. Porém, buscando forças nos nossos e nos aliados que aqui permanecem, seguimos em frente, pois práticas autoritárias e assassinas não conseguirão nos calar.

Como a socióloga e ativista Vilma Reis nos lembra, "se a gente continua tropeçando nos ossos de nossos ancestrais é porque o fruto da injustiça persiste".

O mundo tornou-se o meu quintal de atuação e, para que ele seja um lugar possível para o nosso bem viver, é necessário continuar lutando e isto também significa permanecer ativa no audiovisual, pois sabemos a importância do registro de nossas memórias, o contar as nossas histórias com a nossa voz, com a nossa narrativa e na busca constante de podermos trazer reflexões por meio do afeto.

E diante dessa militância, sendo mulher negra brasileira, acredito em um mundo mais igualitário, onde as pessoas possam desenvolver todas as suas potencialidades e viver com dignidade onde sua origem não seja motivo de eliminação sumária, pois ao contrário que muitos pensam, nós temos orgulho de nossa ancestralidade, como bem nos ensina o poeta e professor Oliveira Silveira:

Encontrei minhas origens, na cor de minha pele, nos lanhos de minha alma, em mim, em minha gente escura, em meus heróis altivos, encontrei, encontrei-as, enfim me encontrei.

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