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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O futebol como meio de campo para uma comunicação popular

Lu Castro

Lu Castro

Lu Castro é jornalista e pesquisadora das mulheres no esporte, graduanda em Geografia, colaboradora do Portal Ludopédio e parceira do Museu do Futebol e do Sesc SP na realização de eventos e projetos.

28/03/2021 06h00

É notório que a comunicação e os meios de comunicar nem sempre atingem todas as camadas da população. Democratizar, neste aspecto, diz respeito também ao acesso das camadas mais vulneráveis à informação, às histórias, aos fatos, ao vocabulário acessível e que seja compreendido por uma massa que invariavelmente se encontra à margem da educação básica.

Abro este texto abordando o comunicar como chave mestra de minha atuação para falar um pouco sobre "o porquê e para quem escrevo". Antes é preciso situar o leitor no ano de 2021. No dia 14 de abril, temos uma das efemérides vergonhosas da nossa história: os 80 anos da Lei 3.199/41, que proibia às mulheres a prática de alguns esportes, entre eles, o futebol.

No início do século 20, o futebol era A novidade no país. As mulheres não estavam alheias a essa novidade e eram constantemente retratadas nas arquibancadas dos estádios que começavam a surgir.

Em sua tese de mestrado, a pesquisadora Aira Bonfim jogou luz no período que compreende os anos de 1915 a 1940, trazendo relatos de jogos entre mulheres no Rio de Janeiro. Evidente que esta movimentação não acontecia apenas por lá, porém encontrar outros registros nos periódicos da época, é tarefa árdua.

O fato de estarem envolvidas com o futebol começou a incomodar alguns homens, afinal, à mulher cabia a tarefa elementar de ser o suporte para o sucesso de seu marido. Ademais, "abandonar" a docilidade feminina para se meter em chuteiras, era um acinte à ordem patriarcal vigente.

Num arroubo de desespero, um doutor de nome José Fuzeira, enviou ao então presidente Getúlio Vargas, uma longa carta, apontando a ousadia das mulheres em abandonar seus afazeres para se aventurarem no campo estritamente masculino. Um dos argumentos era a possibilidade de prejudicar sua função primordial: ser mãe.

Neste rastro - e não somente nele, mas fundamentalmente por ele, produzimos, eu e Darcio Ricca, o livro "Futebol Feminista - Ensaios - A mulher em campo é um ato político", lançado recentemente.

Muitas questões rondaram minha mente durante a produção do livro. A mais crucial, absolutamente, tratava do público alvo. Em tempos em que falar com a bolha se torna não só enfadonho como contraproducente, buscar a atenção de pessoas pouco ou nada familiarizadas com os temas feminismo e futebol de mulheres foi, sobretudo, um desafio.

Como despertar o interesse a partir do título? Como abordar os dois temas e faze-los conversar de modo claro, fluido e interessante para os que chegam, para a base e para os que abraçam o estigma de determinadas palavras desconhecendo completamente a história?

Ora, se o tema é futebol, nada melhor que a transmissão de uma partida, como se clássico fosse, como cenário. Não há, sobre a superfície deste planeta, esporte que seja mais popular que o futebol e, portanto, de fácil compreensão.

E nele nos apoiamos para além do mote do livro. O futebol foi o expediente usado para contar a história de mulheres como Nísia Silveira, Lélia Gonzales, Simone de Beauvoir, Angela Davis entre outras responsáveis por conquistas importantes ao longo dos séculos. Devidamente escaladas, ajudam a contar os marcos do futebol de mulheres no Brasil.

Trazer histórias perdidas no tempo e nas notas dos jornais, foi a base de um minuto a minuto cheio de jargões futebolísticos. Traduzir os lances de desobediência em narração foi uma espécie de exercício de transmutação: transformar o absurdo do cerceamento dos corpos femininos em lances bonitos, de pura ginga, de jogo jogado à vera. Aquele futebol arte que perdemos para o pragmatismo, lembram?

É imprescindível que transformemos os academicismos em literatura descomplicada. À academia o que é da academia. Ao consumo popular o que traduzimos da produção acadêmica porquanto sua forma de gerar pesquisas e resultados dessas pesquisas, ainda habita o universo elitista.

A essa altura do jogo, em que estamos, no universo do futebol de mulheres, com o placar um pouco menos desconfortável, a proposta tática é justamente sair da retranca e chamar o adversário pro tête-à-tête, pro drible. E mostrar que nessa vida só há jogo se houver adversário.

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