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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cartão-merenda: como comem as crianças periféricas há um ano sem aula?

Luciene Ferreira e o filha Rafaela, Paraisópolis, SP - Glória Maria/UOL
Luciene Ferreira e o filha Rafaela, Paraisópolis, SP Imagem: Glória Maria/UOL
Glória Maria

Glória Maria

Glória Maria, moradora de Paraisópolis, 21 anos, mãe da Manu, jornalista, produtora audiovisual e cultural na Batalha do Paraisópolis. Ela foi uma das especialistas em educação que ECOA convidou para ajudar a construir o Ciclo Temático de Educação. Todos os conteúdos são construídos com pessoas que trabalham com o tema.

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

21/02/2021 04h00

Algumas necessidades se repetem. Uma delas compartilhei com vocês em outra coluna sobre educação, onde escrevi o quanto a escola foi um espaço de acolhimento e de suprir necessidades básicas como a alimentação para mim. Mesmo depois de terminar o ensino médio, mantenho contato com esse espaço por ter uma filha de seis anos que estuda em escola municipal, e que usufruía de suas refeições. Com a vinda da pandemia de covid-19, a merenda fez falta para muitas famílias pobres, as crianças tiveram que ficar em casa e os pais tiveram que se virar para dar conta da alimentação. A fome que antes era suprida pela escola, se fez presente.

Na cidade de São Paulo, no início da quarentena, somente os estudantes que estavam ativos no programa Bolsa Família tinham direito ao cartão-merenda. Com o passar dos meses, a gestão municipal foi ampliando as entregas, até que em outubro de 2020 universalizaram o cartão. O valor do auxílio é de R$ 101 para as creches, R$ 63 para Escolas Municipais de Educação Infantil II (EMEII) e R$ 55 para Escolas Municipais de Ensino Fundamental (EMEF).

Luciene Ferreira, 38, diarista, mãe da Rafaela Ferreira*, 7, e minha vizinha de quebrada, tem sido uma das prejudicadas com o rompimento da merenda da filha. Luciene é mãe solo, assim como eu, e como mães solos carregamos nossos filhos sozinhas, acompanhadas apenas por uma política pública falha. Sua filha recebe o cartão-merenda, mas a mãe tem reclamado do atraso do benefício e da falha da comunicação da Prefeitura de São Paulo.

Conversamos sobre a importância dessa grana, e ela compartilhou uma das dúvidas que eu também tenho: "As aulas vão voltar, mas vai ser intercalado, então as crianças vão comer alguns dias na escola, mas mesmo assim vão continuar passando alguns dias em casa, será que o cartão vai permanecer?", pergunta Luciene, e eu respondo que não sei, e lembro da promessa que o Bruno Covas, prefeito de São Paulo fez, na sua campanha em 2020- da permanência do cartão em 2021.

Na nossa troca de conversa, Luciene fala que as diárias do trabalho doméstico caíram muito e que o auxílio emergencial que recebeu, utilizou para fazer o barraco de um cômodo onde mora.

Minha vizinha também reforçou o quanto o auxílio merenda, mesmo sendo pouco, ajuda a comprar, às vezes, uma caixa de leite fechada [geralmente com 12 unidades de um litro cada], onde gasta R$ 44, às vezes a mistura.

E, nisso, nos lembramos que o prefeito Bruno Covas já chegou em seu mandato aumentando o próprio salário que antes era de R $24.175,55 e passará a ser R$ 35.462,00, em 2022. Luciene questionou o quanto esse aumento de mais de 11 mil reais poderia ser direcionado à população pobre. Eu balancei a cabeça confirmando. O arroz está quase trinta conto, mano! É surreal como estamos jogados às beiras, em múltiplos ciclos de situações precárias.

Edlaine Silva, 29, dona de casa, e seu marido Antonio Santos, 53, são vizinhos da minha sogra. Frequentemente, Edlaine me vê passar pela viela de sua casa, cortando os caminhos de Paraisópolis. Os dois são pais de cinco crianças e com gestação que se encontra no oitavo mês. Edlaine cuida das crianças, enquanto o marido faz alguns bicos para levar o que comer pra sua família. Antônio perdeu muitos clientes com a pandemia, e para amenizar as necessidades da casa o casal, recebe doações da igreja, amigos, e família.

Com os filhos fora da escola, ela fez o cadastro do cartão-merenda mas só recebeu o auxílio de três das cinco crianças. "Tenho duas crianças que ainda não receberam, está sendo difícil ficar com eles em casa, no quesito alimentação pesa muito", comenta Antônio. Edlaine me disse algo que é frequente na vida da periferia: "Há um ano eu não sei o que é fazer uma compra, sempre compro picado, quando tem". Ela também reforça o miserável valor que a prefeitura disponibilizou para o cartão merenda, com a qual ela compra a mistura que dá para um dia de almoço e janta. Seus filhos mais novos que antes tinham cinco refeições, passaram a ter duas, almoço e janta, quando possível, um lanche.

Falhas e desorganização nas distribuições e datas do auxílio merenda

Edlaine - Glória Maria/UOL - Glória Maria/UOL
Edlaine e os filhos em Paraisópolis
Imagem: Glória Maria/UOL

Era uma tarde pandêmica, quando uma amiga da minha mãe me encaminhou prints e um áudio pedindo que eu fizesse uma matéria denunciando o atraso do cartão-merenda Conheci essa amiga, Socorro Santos, 38,quando estava fazendo a distribuição de 200 cestas básicas, no coletivo que participo - Batalha do Paraisópolis. Socorro carrega consigo 8 filhos. São as crianças mais velhas que desenrolam o alimento, indo buscar as doações que conseguem.

Por Socorro, pelas suas crias, por mim, pela minha filha, pelos filhos de Edlaine e de Luciene, exponho aqui esses problemas que estão tão presentes nos nossos dias. Por outro lado entrei em contato com a prefeitura de São Paulo e a resposta que tive é que o cartão é recorrente, e não há data certa para cair o benefício, o que atrapalha e causa atrasos e confusões na vida das nossas famílias que dependem dessa grana. A prefeitura informou que o cartão permanecerá, mas, ao mesmo tempo, não soube responder como ficaria com a volta às aulas e o cartão em todo esse ano de 2021.

Precisamos nos organizar para cobrar e coletivamente reforçar a alimentação das nossas crianças. As crianças estão em processo de formação da sua mente, do seu corpo e, se quisermos uma sociedade saudável, uma das coisas que temos que encarar é a responsa de cumprir e cuidar das nossas crianças, para que amanhã elas sejam adultos saudáveis.

Por isso, apoie, doe para coletivos, e organizações civis que estão atuando contra a fome e cobremos o poder público. Juntos nós conseguiremos romper o ciclo da fome. Só o coletivo rompe. Só nóis! Abaixo vão algumas sugestões de coletivos para quem quiser doar:

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