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"Quase desisti da escola porque estamos abandonados pelo governo do Estado, que não investe em uma educação de qualidade" - Arquivo pessoal
"Quase desisti da escola porque estamos abandonados pelo governo do Estado, que não investe em uma educação de qualidade" Imagem: Arquivo pessoal
Glória Maria

Glória Maria

Glória Maria, moradora de Paraisópolis, 21 anos, mãe da Manu, jornalista, produtora audiovisual e cultural na Batalha do Paraisópolis. Ela foi uma das especialistas em educação que ECOA convidou para ajudar a construir o Ciclo Temático de Educação. Todos os conteúdos são construídos com pessoas que trabalham com o tema.

13/12/2020 04h00

Uma lembrança que trago da escola. Era uma manhã, eu tinha passado mais uma noite em claro. Na madrugada meu pai tinha chegado bêbado, eu sentia medo. Estava saturada de passar por aquilo desde que minha mãe me gerou, estava cansada de ver minha mãe rezando, acreditando que um dia ele iria mudar. Meu corpo e minha mente estavam indo à falência.

Na manhã seguinte fui para escola, e tive uma aula muito especial e de acolhimento. Era de literatura que minha professora, Luciana Santone, tinha preparado para trazer diversidade. Ali eu conheci a Jhenyffer Nascimento, mulher negra, feminista, poeta. Li seu poema "O Grito" em voz alta para toda a sala. Minha voz tremia, era um choro, era uma dor que eu acabava de compartilhar naquele momento.

Sou Glória Maria, moradora de Paraisópolis e faz 4 anos que terminei o ensino médio. A escola sempre teve um espaço muito importante no meu desenvolvimento, no meu entender como alguém com responsabilidades sociais. Ao mesmo tempo, passei por muitas dificuldades para não entrar na estatística de evasão escolar. O Censo Escolar de 2018 mostra que cerca de 2 milhões de crianças e adolescentes estão fora da escola.

Em 2015 comecei meu ensino médio na Escola Estadual Etelvina Goes de Marcucci, uma das duas escolas que atendem o ensino médio aqui de Paraisópolis, periferia da zona sul de São Paulo. Naquela época, eu passava por uma situação de violência doméstica e a escola acabou sendo um refúgio. Aquele espaço era importante para eu me sentir melhor e segura.

Participei das ocupações das escolas estaduais e foi um período de muito aprendizado coletivo. Ao chegar no último ano tive uma imensa dificuldade de continuar na escola. Minha sensação era a de que havia aprendido muito mais na militância do que dentro da sala de aula. Nas ocupações os alunos que organizaram as aulas, as assembleias. Tínhamos uma autonomia de construir o espaço de aprendizagem. Já no período fora das ocupações, eu não sentia que a escola não me preparava para prestar vestibular.

Aos 17 anos, e com minha filha que na época, estava com 3, resolvi sair de casa por conta da violência. E nisso comecei o corre para conseguir conciliar trabalho com estudo. Via que muitos amigos acabavam desistindo de estudar, porque precisavam trabalhar para ajudar a família, às vezes eram a única renda de casa. O modelo de ensino nunca atraiu muito os alunos.

Por ser algo chato, pouco dinâmico, descolado da realidade e com uma ideia voltada somente ao mercado de trabalho, via que o método da escola desmerecia nossas habilidades e experiências de vida. Havia muitos artistas nas salas de aulas, músicos, dançarinos, poetas e a escola rejeitava este tipo de conhecimento.

A estética da escola é outro ponto que assusta os alunos. Me assustava ver aquele ambiente cinza, com grades, quase uma cadeia. Você senta, obedece e tem uma autoridade que vai te ensinar. Pelas graças das deusas conheci alguns professores que ainda hoje são meus amigos e que faziam o corre de transformar a sala de aula para algo melhor, com rodas de conversas e criando formas de nos colocarmos em uma posição de igualdade.

Outra demanda que a escola dá conta de suprir é a alimentação da galera. Quando eu saí de casa ganhava R$ 900, sendo que R$ 500 ia pro aluguel, R$ 100 para a van que levava minha filha e R$ 70 para a mina que cuidava dela. Eu passava por necessidades, fazia mó jet para trampar em Paraisópolis, e depois colar na Armênia para fazer meu curso de jornalismo. Após isso corria à noite para pegar o busão e ir pra escola, onde eu tinha minha única refeição do dia. A merenda escolar é a única refeição de muitas crianças e jovens periféricos.

Lembro que segurei as pontas para ficar na escola até o fim, mas quase desisti. Quase desisti porque estamos abandonados pelo governo do Estado, que não investe em uma educação de qualidade. Por um Estado que não assegura o direito do jovem estudar e ter uma política para não precisar abandonar os estudos porque precisa sustentar a família, por um Estado que não pensa que somos diversos e que existem milhares de maneiras de aprender. Abandonados por uma gestão que não pensa políticas públicas para as crianças, adolescentes e jovens.

Hoje eu participo de um coletivo de Hip Hop chamado A Batalha do Paraisópolis. O rap tem me ensinado muito mais que a escola. É como aquela música do Criolo: "Eu sei que o rap faz muito mais que sua religião, o presídio e o cacetete em vão". Tenho aprendido e trabalhado com literatura marginal, aprendido através da nossa vivência.

A escola precisa ser construída por todos. Políticas públicas devem ser criadas para auxiliar nossa educação que também vai para fora. Não tem como você aprender com um ensino sucateado, que paga mal os professores, que rouba merenda das crianças, que nos ignora como seres pensantes e com sentimentos.

A escola tem que ser um espaço afetivo, que olha de dentro para fora, e que nos protege das violências. Meu sonho é que nossas crianças e jovens tenham o prazer de ir às escolas e que lá elas aprendam que podemos ser o que quisermos, aflorando nossas habilidades e os trampos que curtimos fazer.

Deixo aqui meu agradecimento, porque foi graças aos meus professores que tive um despertar para entender a situação que eu passava e que eu não era a única a passar por essas violências, pois é um problema social. A escola foi onde eu pude ser abraçada, mas ela ainda precisa de muito para acolher os alunos, e suas vivências.

Hoje eu tenho a certeza que o único caminho que temos a trilhar é por uma boa educação, e que ela seja acessível para todos.

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