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Sobre peixes, páginas policiais e atenção

"Escrever um poema é como apanhar um peixe com as mãos", escreveu Adília Lopes - Arquivo pessoal
"Escrever um poema é como apanhar um peixe com as mãos", escreveu Adília Lopes Imagem: Arquivo pessoal
André Gravatá

André Gravatá

André Gravatá é poeta e educador. Autor do livro O jogo de ler o mundo e Inadiável, organizador do Cartas a jovens educadores/as e coautor do Volta ao mundo em 13 escolas. É um dos criadores do jornal das miudezas e da Virada Educação.

12/12/2020 04h00

Dona Josefa e seu José são meus pais e hoje em dia criam brinquedos que resgatam suas raízes baianas. A arte dos dois começou depois de uma espinhosa fase de doenças: minha mãe com câncer no intestino, meu pai com câncer no rim e aneurismas nas pernas, ambos no mesmo período internados num hospital público em São Paulo. A história é longa, um dia me dedico a contá-la mais em detalhes, o ponto aqui é que os brinquedos se tornaram uma prática de resgate da saúde, de afirmação da boniteza ainda possível mesmo que a vida ainda continue atravessada pela dor. Alguns meses atrás, contei para meus pais que um verso de uma poeta portuguesa Adília Lopes não saía da minha cabeça: "Escrever um poema é como apanhar um peixe com as mãos". Para a Adília, a arte poética tem relação com estar atento: perceber o encontro com a vida que está sempre em movimento.

Daí perguntei se meus pais topariam criar um peixe de madeira, para que eu pudesse ter por perto, para me lembrar do verso da Adília e como uma companhia nas minhas oficinas de poesia. Meu plano era sacar um peixe de repente na hora de dizer o verso da poeta.

Meus pais criaram mais de um peixe - é impressionante como são férteis em inventar. Confesso que um dos peixes, esculpido e pintado pela minha mãe, se tornou o meu xodó - é único que nasceu com letras nas escamas. E o mais impressionante é que, na semana em que eu estava conversando com eles sobre os peixes, decidi abrir aleatoriamente o livro I Ching, que é um oráculo da sabedoria ancestral chinesa, e meu dedo caiu bem numa página que contava de uma tradição de monges budistas e taoístas que batiam peixes de madeira ritmicamente enquanto recitavam palavras sagradas. Dizia assim: "Como os peixes nunca fecham os olhos, essas formas de madeira lembram os monges da necessidade de permanecerem atentos". (Uma breve pausa para você imaginar minha expressão de espanto ao abrir o livro bem nesse trecho.)

Num mundo em que nos ensinam a desatenção, perceber a realidade com atenção é um compromisso ético e poético ao mesmo tempo. A desatenção está na raiz da indiferença. A desatenção é galho e o tronco da ignorância. Olhei para o peixe de madeira nas minhas mãos e me deparei com um símbolo da necessidade de me manter atento.

Tem um provérbio que pesquei no livro Memórias de Porco-espinho, do autor franco-congolês Alain Mabanckou, que entra no terreno da atenção e vai direto ao ponto: "Quando o sábio mostra a lua, o imbecil olha sempre para o dedo". Ou seja, discernir o que é a lua e o que é o dedo não é tão óbvio assim. Sabemos que num mundo em que existe quem defenda que a Terra é plana não é tão explícita a diferença entre a lua e o dedo. E há também aquelas pessoas que se dizem sábias, afirmam que estão apontando para a lua, mas na verdade estão é tentando afundar nossos olhos na lama.

No ensino fundamental, tive aulas com um professor que repetia para os alunos: "Um dia vou ver vocês nas páginas dos jornais! Mas nas páginas policiais!". Esse professor estava tentando afundar nossos olhos na lama e sem nenhum pudor em fazer isso. A realidade que ele desenhava para nós era uma tragédia, estreita, sem possibilidade de mudança nem de descoberta. (Ainda bem que existiam outras professoras e professores que criaram um contraponto às páginas policiais, devo a essas pessoas a minha memória da potência da escola pública.)

Admiro muito um autor malinês, pesquisador das tradições africanas, chamado Amadou Hampâté Bâ, que narra para nós a realidade como uma vastidão a ser escutada. No seu livro "Amkoullel, o menino fula", Amadou nos convida: "Esteja à escuta, dizia-se na velha África, tudo fala, tudo é palavra, tudo procura nos comunicar um conhecimento". Como tudo fala, toda a natureza tem voz também e o chamado de Amadou é profundo: escutar o mundo é criar intimidade com o que nos cerca. "Desde a infância, éramos treinados a observar, olhar e escutar com tanta atenção, que todo conhecimento se inscrevia em nossa memória como em cera virgem", conta Amadou, apontando uma outra maneira de educar, atenta ao ato de criar intimidade com quem veio antes de nós, com cada sonho, cada palavra, com nosso corpo e nosso território.

Não deixar que distraiam nossos sentidos dessa prioridade é um compromisso ético. Assim como não deixar que afundem nossos olhos e ouvidos na lama é um compromisso com a vida. E isso exige de nós um exercício constante.

É por isso que os monges de milhares de anos atrás repetiam o ritual com os peixes de madeira de olhos abertos: permanecer atento exige prática.

Por isso agradeço os mestres e mestras que aguçam nossos sentidos, que nos lembram da diferença brutal entre a lua e o dedo. Agradeço especialmente ao generoso mestre Ricardo Aleixo, com quem dialoguei ao longo de todo este ano e com quem aprendo que poesia é presença.

E o peixe de madeira criado por meus pais continua aqui por perto, puxando minha orelha em dias de desatenção.

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