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Quando o amor é um trauma

Sofia Favero - Reprodução/Arquivo pessoal
Sofia Favero Imagem: Reprodução/Arquivo pessoal
Sofia Favero

Sofia Favero

Sofia é psicóloga, escritora e Integrante da Associação e Movimento Sergipano de Transexuais e Travestis.

18/11/2020 04h00

Parece ser alguma época festiva. Estou caminhando pelo mercado. Uma série de pessoas indo e vindo. Apressadas, parecem bastante ocupadas com a possibilidade de comprar, conversar, interagir. Observo-as passando por mim. Olho para cima, uma por uma. Alguns casais, que passeiam de mãos dadas, chamam a minha atenção. Sorriem entre si. Homens e mulheres que deixam à mostra que possuem um vínculo afetivo. E eu, criança, deixo-os partir, pensando: o que há nesse gesto pequeno? Por que ele me despertou curiosidade, mas ao mesmo tempo, paradoxalmente, fez tão pouco sentido?

O não reconhecimento social de casais que escapem dessa união, homem e mulher, é uma discussão que vai muito além de qualquer jargão relacionado a representatividade - palavra maldita que nos dias atuais tem sido cada vez mais esvaziada. Por certo, acredito que os elos constituídos entre pessoas diferentes, LGBTQIA+, gênero-diversas, dentre tantas outras, é algo que ainda não demos conta de codificar. É devido a isso que penso ser necessário termos discussões mais honestas sobre o tema, que não sejam reduzidas a perspectivas puramente imagéticas. O não reconhecimento de vínculos que escapam da relação heterossexual extrapola a representação, ele produz um não-lugar para o afeto.

A falta de referências, de ferramentas culturais que permitam o desvio, faz com que ainda busquemos uma certa ordem para o desejo. Assim, o amor, mesmo quando escapa, ainda está respondendo à heterossexualidade que o regula. Essa é uma afirmação que talvez faça mais sentido quando observamos que na cultura brasileira existe um "folklore" normativo bastante específico às pessoas que "amam diferente" - falo, aqui, das categorias homossexualidade ou lesbianidade na velhice, pejorativamente referidas como "bicha velha" ou "sapatão solitária". Ambas falam sobre um fantasma que busca coordenar o gênero e a sexualidade de pessoas LGBTQIA+, sob a seguinte ótica: caso permaneçam investindo em uma vida desviada, que viola o pacto civilizatório da família heterossexual, poderão acabar "assim" no futuro.

Soma-se a isso a existência de uma multiplicidade de filmes, telenovelas e produções midiáticas que retratam casais diferentes de maneira trágica, disfuncional, inviável. Ou, por outro lado, a inexistência de personagens, histórias e redes saudáveis em torno dessas mesmas figuras. É como se existisse um pacto silencioso, segundo o qual tais vidas devessem ser sempre retratadas como inviáveis, obstruídas, por onde não se pode amar. Ao mesmo tempo, tais valores se relacionam profundamente com aquilo que a cultura brasileira, em contato também com escalas globais, entende por amor. O que é, para nós, isso que se dá em ato? Quais são as práticas que o compõem? Mas, mais importante, por que nos sentimos convocadas a responder a ele?

Vemos e convivemos com casais heterossexuais. Somos, com maior ou menor probabilidade, prole dessa categoria social - agora em declínio, prestes a enfrentar a própria ruína. Temos, pouco a pouco, mas ainda assim insurgentemente, retribuído o olhar a essas pessoas. Se nos dizem que somos nós, os estranhos, que iremos perder tudo e padecer no limbo dos afetos, dizemos, em contrapartida, que eles não estão muito longe disso. Casais que são vangloriados através de campanhas publicitárias devido a seus longos anos de duração. Décadas juntos. A que custo? Mulheres silenciadas? Homens ausentes? Que as pessoas guiem seus vínculos da maneira que julgam adequadas não é exatamente o problema. O ponto é quando seus "modos singulares" de existir passam a se estender como "modos adequados" aos demais.

A partir disso é que o jeito de se tornar sujeito é "amando" como nos disseram para amar, seguindo diretrizes e etiquetas que foram elaboradas a um tipo único de envolvimento: o heterossexual. O resultado, todavia, é mortífero. Se a maneira certa de amar é pela heterossexualidade (constituindo família, funções maternas e paternas, criando filhos ou filhas), logo, alguns não só não amarão dessa forma, como não serão amados da mesma maneira. Dessa forma, pessoas LGBTQIA+ passam a ser circunscritas como menos legítimas, menos importantes, menos sujeitas. Parodiando a expressão clássica do pensamento cartesiano: amo, logo existo. Dai em diante é como se a possibilidade de ter a existência reconhecida estivesse tributária ao amor de alguém, desde que esse "afeto" estivesse dado em termos que viemos discutindo aqui.

Portanto, nosso desafio é o de reescrever o amor na cultura. Questionar o porquê de um "poder" de amar ter se tornado em um "dever" de amar? Como se falassem que alguns amam como podem, mas outros amam direito, adequadamente - embora toda essa discussão esteja além da ação de estar com alguém do dito sexo oposto. O amor, visto de maneira mais complexa, seria o passe para um futuro. Ele não se trataria somente de algo presentificado, tendo em vista a capacidade que tem de se colocar como um presságio do amanhã. Caso ame e seja amado conforme aquilo que entedemos por amor, terás grandes chances de não se tornar nem essa "bicha velha" nem essa "sapatão solitária", que tanto são empurradas a lugares de estigma e marginalização.

O ponto é que apesar de estarmos falando em amores impossíveis, talvez fosse mais adequado reconhecer que estamos o tempo todo falando de amor impossibilitados. E que, às vezes, o amor pode mesmo ser um trauma. Seu caráter traumático reside no fato de que o seu não reconhecimento na cultura, ou seja, o não reconhecimento de amores diversos, é algo que cria uma situação de desamparo. Situação que, todavia, não nos convoca a querer eliminar o trágico da existência humana, como se estar afetado por alguém fosse de alguma forma uma oposição a estar desamparado. Pelo contrário, falar sobre trauma é refletir como essa categoria "amor" ainda é algo que persegue um sujeito universal, com um modo de existir conforme uma generalidade.

Devemos, assim, refletir como as experiências de vida subalternas, sejam elas de pessoas negras, LGBTQIA+, com deficiência, etc., situam os limites dos vínculos sociais. Até onde podemos ir com esse "amor" quando ele causa uma ferida civilizatória, política e geográfica tão intensa em determinadas vidas? Não para dizer que ele deva ser democratizado, mas, sim, subvertido em sua lógica mais profunda. Um breve olhar aos nossos conhecidos, vizinhos e familiares para que seja possível vermos o óbvio: essa ideia de família feliz, unida e saudável (sustentada pela heterossexualidade) cria relações bidimensionais bastante cruéis, seja através da subordinação feminina ou a partir da própria subordinação infantil (da criança ao adulto). Quando se defende "esse" amor como ideal de todos, não se defende uma abstração coletiva, mas uma prática normativa violenta.

Com alguma sorte, recorreremos a outros recursos. Mais criativos, quem sabe, para pensar que as acusações de uma instituição como "a" família podem estar mascarando a própria solidão dessa família. "Os diferentes estarão sós um dia" - é a mensagem que aquele mercado parecia querer me dizer, quando criança. Hoje, penso em fazer uma torção nessa sentença, para colocá-la assim: por que vocês acham que a gente não consegue criar uma ideia de velhice, afeto e amizade para além dessa que inventaram para nós? Qual é a razão para pensarem que um enquadramento tão limitante poderia ser o guia de nossos desejos? Podemos, nós, que não cessamos de morrer a morte do amor, fabricar uma alquimia inédita? Igualmente trágica, talvez, confesso, mas minimamente honesta, menos sufocante.

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