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Eleição: A quem interessa o ambiente polarizado?

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Imagem: Getty Images
Rafael Poço

Rafael Poço

É advogado, diretor do Instituto Galo da Manhã e cofundador do Despolarize

02/10/2020 04h00

O período eleitoral é o momento em que os ânimos políticos ficam mais exaltados. O ambiente contaminado por polarização e desinformação prejudica o bom debate e fica difícil conversar, compartilhar perspectivas e haver abertura para mudança de opinião.

Não é possível entender o atual contexto político, incluindo os retrocessos democráticos, sem considerar como polarização, fake news e discursos de ódio se retroalimentam, nutrindo estereótipos que promovem hostilidade, diminuem a confiança no diálogo e em soluções negociadas para problemas coletivos.

A diminuição da convivência entre pessoas com perspectivas diferentes cria entre elas um vazio que é preenchido, de forma maliciosa e profissional, por notícias que desinformam, distorcem a compreensão da realidade e fazem adversários serem percebidos como "ameaça".

A percepção de ameaça aciona no cérebro humano mecanismos de defesa e ataque que bloqueiam a disposição para colaborar e aceitar novas informações, e diminuem a capacidade de analisar e refletir. Estudos sugerem que ela pode favorecer o autoritarismo.

Sem vínculos interpessoais, a inclinação para acreditar no que confirma a ameaça imaginada e a generalização com base no pior dos grupos opostos impõe um alinhamento radical dentro dos próprios campos políticos. Pela unidade frente ao perigo projetado, ocultam-se nuances internas e a pluralidade. Quem destoa ou desliza é castigado com humilhação ou ostracismo (cancelamento).

Temos então um contexto em que a valorização do encontro de ideias é substituída por silenciamento e guerras de narrativas fabricadas para expressar superioridade moral e reduzir oponentes a perigosos mal-intencionados, empobrecendo o debate.

Criam-se tabus e proibições que beneficiam quem não deseja mudanças e impedem avanços em agendas que requerem debate informado, construção de sentido público e percepção compartilhada da realidade, como é o caso da agenda de direitos humanos.

Democratas precisam buscar alternativas para se comunicar sem apelar a medos primitivos nem serem percebidos como ameaça por pessoas já exaustas de discursos que as depreciam ou que pareçam associados - muitas vezes com justa causa - a uma defesa da política tradicional.

O comportamento do campo democrático nas eleições municipais definirá se após o resultado das urnas restará um ambiente democrático restaurado e um tecido social mais resiliente à polarização e autoritarismo, mesmo com profundas diferenças.

A solução não virá de manifestos políticos, mas do restabelecimento de pontes visando reduzir desconfiança e recriar senso de comunidade entre cidadãos e cidadãs de diferentes campos que não se identificam com discursos de ódio ou retrocessos democráticos.

Não é algo simples quando as circunstâncias parecem jogar contra. Mas a boa notícia é que este é um esforço que depende mais de mudanças de comportamento do que de avanços institucionais.

A convivência e o diálogo são os melhores antídotos para a intolerância. A quem interessa o ambiente polarizado?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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