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Bolsonaro e Al Gore: Visões opostas sobre o futuro da Amazônia

Alfredo Sirkis compartilhou foto com Al Gore durante a COP24 em 2018 na Polônia - Arquivo pessoal
Alfredo Sirkis compartilhou foto com Al Gore durante a COP24 em 2018 na Polônia Imagem: Arquivo pessoal
Cassia Moraes

É mestre em Administração Pública e Desenvolvimento pela Universidade de Columbia, CEO do Youth Climate Leaders (YCL) e Coordenadora de Redes e Captação no Centro Brasil no Clima.

05/09/2020 04h00

Nas últimas semanas, muitas pessoas compartilharam o trecho da conversa entre Jair Bolsonaro e Al Gore durante o Fórum Econômico Mundial de 2019, em Davos, na Suíça, que viralizou nas redes sociais devido ao lançamento do documentário "O Fórum". Em mais um episódio de vergonha alheia, podemos testemunhar todo o trato diplomático do presidente e sua comitiva.

Em poucos minutos de conversa, Al Gore aborda Bolsonaro e, para quebrar o gelo, menciona que é grande amigo do Alfredo Sirkis, ex-deputado federal e Coordenador Executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, morto em um acidente de carro em julho deste ano. Sem graça, Jair responde que tinha sido inimigo do Sirkis na luta armada. Essa parte do vídeo, inclusive, foi compartilhada pelo próprio Al Gore durante treinamento em julho feito por sua ONG, o Climate Reality Project. Vale ressaltar que a afirmação é tecnicamente errada, já que o presidente só entrou para o exército anos depois de Sirkis ter ido para o exílio. Mas, enfim, esse não é o foco desse texto...

Ao lado do presidente, é possível identificar também o ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo que, com suas teorias da conspiração e pouco apreço pela ciência, já afirmou que a "ideologia da mudança climática" é criação da esquerda. Na mesma ocasião, relacionou a preservação da Amazônia ao "globalismo", teoria da conspiração que na área das relações internacionais seria o equivalente à teoria dos "deuses astronautas" para a história e arqueologia. Interessante ressaltar que o discurso do Ernesto é muito semelhante ao que dizia Aldo Rebelo, comunista declarado e ministro de Dilma. A história se repetindo em farsa, como já disse um famoso sociólogo alemão que eu não lembro o nome...

Na segunda parte da conversa, talvez mais constrangedora, Al Gore tenta mudar de assunto e menciona sua preocupação com a Amazônia, e Jair fala sem titubear que quer "explorar os recursos da Amazônia com os EUA". Atônito, Al Gore responde "Não entendi o que você quer dizer" e encerra o papo, digno de uma novela mal escrita.

Tirando o folclore da conversa, é importante ressaltar que Al Gore e Jair Bolsonaro exemplificam visões de mundo opostas e irreconciliáveis sobre temas como desenvolvimento e mudanças climáticas. De um lado, o presidente brasileiro minimiza o impacto da crise climática e desmatamento da Amazônia, postura que fez com que o Parlamento Europeu considerasse a possibilidade inédita de alertar o Tribunal Penal Internacional, em Haia, para um possível crime contra a humanidade na Amazônia brasileira.

No expoente oposto, o ex-vice presidente dos EUA, foi recipiente do Prêmio Nobel devido ao seu trabalho para conscientizar a humanidade sobre a ameaça da mudança do clima, e atualmente coordena o Climate Reality, organização que treina anualmente milhares de líderes climáticos. Para defender sua visão de mundo, Jair e apoiadores se apegam à falácia de que é preciso "explorar" a Amazônia para gerar empregos. A verdade, entretanto, é outra, já que as principais ações responsáveis pelo desmatamento na região, como queimadas e pecuária extensiva, não só não geram empregos, como também prejudicam o ganha-pão de agricultores sérios e honestos, que são afetados pelos impactos dessas atividades. Por outro lado, usar os recursos da floresta de forma responsável, bem como outras políticas para a transição para uma economia de baixo ou zero carbono, trazem uma oportunidade sem precedentes de desenvolver o Brasil em patamares sustentáveis e duradouros.

O estudo "Uma Nova Economia para uma Nova Era: Elementos para a construção de uma economia mais eficiente e resiliente para o Brasil" mostra que implementar medidas de baixo carbono resultaria num aumento acumulado adicional do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de R$ 2,8 trilhões até 2030, enquanto a retomada verde da economia geraria 2 milhões de empregos a mais do que o "business as usual" em 2030, sobretudo nos setores de serviço e da economia.

O setor da agricultura, por sua vez, se beneficiaria também pela especialização e empregos de maior qualificação. Ou seja, ao contrário do que dizem Aldo Rebelo e Ernesto Araújo, o tema não é nem de esquerda, nem de direita. Por esse motivo, em julho deste ano, ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central de governos distintos assinaram uma carta conjunta para defender que a retomada econômica também leve em conta os riscos das mudanças climáticas.

Nesse espírito, o Youth Climate Leaders (Líderes Climáticos da Juventude) acaba de lançar o Dia do Profissional do Clima, evento global para celebrar todas as pessoas que trabalham diariamente para combater a crise climática, divulgando suas iniciativas e inspirando mais jovens a dedicarem suas vidas e carreiras à promoção de um mundo mais justo e sustentável. É também uma forma poderosa de transformar e conscientizar funcionários e comunidades das organizações parceiras, mostrando que todo profissional pode ser parte da solução.

Com o apoio da nossa rede, vamos organizar uma transmissão online gratuita de 24h de programação sobre carreiras climáticas, incluindo Palco Principal e eventos paralelos. Espera-se mobilizar mais de 20.000 pessoas, 100 organizações empregadoras e divulgar mais de 500 vagas de trabalho, catalisando ação climática e combatendo o desemprego por meio da apresentação e oferta concreta de oportunidades profissionais na área de clima.

Se o ex-vice presidente dos EUA quiser se juntar ao evento, inclusive, prometemos uma recepção melhor do que a que lhe foi dada em Davos.

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