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6 coisas que aprendi mentorando e acelerando negócios de mulheres

Itala Herta

Itala Herta

Consultora e empreendedora social graduada em Comunicação Social com ênfase em Relações Públicas pela UNIFACS/LAUREATE. Atua há mais de 10 anos com projetos interculturais de inovação social, economia criativa, sustentabilidade & responsabilidade social em instituições públicas e privadas do Brasil. Fundadora da Diversa (@diverssa) e cofundafora da aceleradora baiana Vale do Dendê (@valedodende), a primeira aceleradora de negócios focada em diversidade do Nordeste. Com sua curadoria e pesquisa, fomenta conteúdos a partir das lentes de gênero, raça e sexualidades.

04/09/2020 04h00

Todas as vezes que sou motivada a falar da minha trajetória como empreendedora ao longo desses mais de dez anos de carreira, sinto que há sempre uma grande curiosidade em saber como essa habilidade e chamado se manifestou na minha vida. E é muito comum perceber olhares e ouvir os mais diversos comentários quando respondo que a minha grande escola de empreendedorismo passou bem distante das salas de instituições com as suas curtas siglas bem conhecidas entre os rankings das escolas de negócios do Brasil. Sempre respondo sorrindo que o maior laboratório e experiência rica que tive de educação empreendedora na prática, aconteceu entre meus pais e tias, dentro da nossa casa com os contextos do bairro em que cresci, mas em especial com a minha mãe.

Trago esse relato sem me preocupar com os julgamentos, por reconhecer cada vez mais como um ativo e vantagem competitiva essas memórias e saberes praticados por muitas mulheres da minha família na rotina desde infância, por conta de um contexto no qual empreender era uma necessidade e não uma oportunidade. Tudo isso junto a pesquisas, estudos e outra experiências profissionais ancoram nos últimos cinco anos as minhas realizações ao facilitar encontros, apoiar e estruturar iniciativas voltadas para mulheres e jovens com histórias parecidas ou mais vulneráveis que a minha em alguns lugares do Brasil, mais intensamente em Salvador (BA).

Entre as iniciativas, está a Vale do Dendê, primeira aceleradora do Nordeste focada em apoiar negócios no segmento de Economia Criativa de Salvador, especialmente para os empreendedores e empreendedoras baseados nas periferias, ao lado do publicitário Paulo Rogério, o jornalista Rosenildo Ferreira e escritor e professor Helio Santos.

Cofundadores Vale do Dendê - Divulgação - Divulgação
Cofundadores Vale do Dendê
Imagem: Divulgação

Desde o lançamento da aceleradora em 2017, diversos programas já beneficiaram mais de 90 empresas que atuam com Economia Criativa e desenvolvimento de produtos e soluções tecnológicas de baixo custo e elevado impacto socioeconômico.

Com o passar do tempo e crescimento rápido do hub de inovação da Vale do Dendê na Bahia, tive a oportunidade de liderar, pensar e gerir junto aos cofundadores, times e consultores da organização os processos, metodologias e cocriações com foco em empreendedorismo & inovação para um público bem diverso, sobretudo de mulheres negras.

Programa de Aceleração de Negócios da Alimentação - Assaí em 2019 - Divulgação - Divulgação
Programa de Aceleração de Negócios da Alimentação - Assaí em 2019
Imagem: Divulgação

Toda essa jornada, com seus testes, erros e acertos, trouxe muitos insights, aprendizados e reflexões sobre os desafios e oportunidades de empreender enquanto mulher negra e nordestina no Brasil, além de análises mais profundas dos modelos e formatos de apoio para mulheres que já empreendem ou desejam empreender no país.

Em outubro de 2019 essas provocações se intensificaram depois de participar como convidada pelo State Department - Programa IVLP durante um mês em cinco cidades dos EUA com lideranças femininas de diferente territórios do país com o objetivo de trocar boas práticas e conhecer modelos e iniciativas globais com foco em economia digital e empoderamento feminino. Lembro de muitas descobertas marcantes, por já existirem há muito tempo principalmente e sobretudo pelo incentivos públicos e privados (mesmo que ainda desproporcionais ao incentivos para negócios liderados por homens). Pudemos visitar e trocar com o Center for Women & Enterprise, um centro de empreendedorismo feminino criado em 1995 por duas mulheres em Boston e depois emancipado para Vermont com o objetivo de apoiar por meio de microcréditos mulheres empreendedoras em condições de vulnerabilidade social. Outra iniciativa inspiradora foi a African Women Business Alliance, organização liderada por uma jovem africana que vive em Seattle e apoia por meio de créditos, investimentos e treinamentos extensos mulheres africanas em diáspora nos EUA que já empreendem ou desejam empreender.

Foto de uma das visitas das iniciativas lideradas por mulheres empreendedoras durante intercâmbio profissional nos EUA em outubro de 2019 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Foto de uma das visitas das iniciativas lideradas por mulheres empreendedoras durante intercâmbio profissional nos EUA em outubro de 2019
Imagem: Arquivo pessoal

Por isso, gostaria de aqui compartilhar algumas reflexões, boas práticas e aprendizados observados para construir e despertar caminhos a partir de quem somos como mulheres, nos empoderando economicamente para empreender projetos, carreiras e comunicar de forma assertiva ideias ou negócios. Eu acredito que a diversidade feminina é um universo de aprendizados e saberes poderoso capaz de construir visões de futuro a partir do bem comum. E foi isso que me motivou a criar a Diver.SSA, uma iniciativa especializada em acolhimento estratégico para mulheres, focada em fomentar o empreendedorismo feminino de impacto social no Norte/Nordeste. Toda a sua abordagem e metodologia de trabalho consideram os mais diversos perfis femininos, mulheridades, contextos interculturais e vulnerabilidades sociais.

Jornada Com Mulheres Para Mulheres - Diver.SSA - Michelle Vivas  - Michelle Vivas
Jornada Com Mulheres Para Mulheres - Diver.SSA
Imagem: Michelle Vivas

1 - Existe uma conta entre o empreendedorismo e as mulheres no Brasil que não fecha

Donas de negócios movimentam cerca de R$ 830 milhões por ano na economia do Brasil, mas mesmo assim, ainda não são ouvidas e nem tratadas como prioridade nos programas de apoio e incentivo fiscais nacionais para atração de empreendimentos, industriais ou novos mercados que elas mesmas lideram. Além disso, sempre foi difícil contar com lideranças políticas engajadas no assunto capazes de consolidar no Brasil uma agenda de políticas públicas para o empreendedorismo a partir da lente de gênero, raça e sexualidades.

2 - A maioria das mulheres abrem negócios por necessidades e o que isso tem a ver com inovação e criatividade?

Sabemos que a vulnerabilidade impulsiona criatividade e inovação, mas é importante aqui dizer que vulnerabilidade nada tem a ver com fraquezas e, sim, com incertezas, emoções e sensações. É óbvio imaginar que muitas soluções pensadas ou escaladas para resolver problemas e dar contas de necessidades reais partem do exercício de buscar saídas e oportunidades de mudança diante daquilo que nos afeta e fere — é assim que manifestamos da maneira mais genuína nossos talentos, habilidades, opiniões e pontos de vista.

O número de mulheres que abrem empresas motivadas por uma necessidade é maior do que os homens. Entre os novos empresários, 48% delas o fazem porque precisam, já entre os homens esse número cai para 37% (GEM, 2016).Mesmo sendo esse um número expressivo para perfis de micronegócios ou informalidade, é seguro falar que há um campo abundante ainda não aprofundado com soluções invisíveis protagonizadas por mulheres. Outros relatos globais também confirmam que em países que se autodeclaram como desenvolvidos, mulheres que empreendem introduzem com mais rapidez e adaptação processos de inovação (novos produtos e serviços) nas suas gestões ou iniciativas.

3 - Ainda é difícil criar espaços solidários e seguros para mulheres dentro dos ecossistemas nacionais de inovação & empreendedorismo

Mulheres precisam, além de ambientes mais inclusivos, formas seguras e mais acolhedores para compartilhar suas especificidades e contribuição intelectual sem medo dos julgamentos. O que se reconhece é que ecossistemas de empreendedorismos, tecnologias e inovação são poucos diversos ainda no Brasil, mesmo sendo negros e mulheres a maioria dos empreendedores do país. Tudo isso colabora para a manutenção de padrões aplicados em ambientes de negócios tradicionais dentro das bolhas de startups e seus mais diversos desdobramentos de convivência. Há uma cilada de raciocínio, na minha opinião, que maquia as relações capazes de lidar com a diferença entre ser "simpático a uma causa" e "empático a uma diferença" são coisas totalmente distintas.

Quando somos simpáticos a uma causa constatamos que um problema e até desconforto existe, mas não fazemos nada para mudá-lo na prática. Apenas reconhecemos que ele existe e ponto. A diferença entre ser empático é grande, pois a pessoa empática além de se conectar com mais profundidade com o desconforto ou a dor do próximo, essa põe-se em estado de prontidão para agir, mudar aquela condição mesmo saindo da sua zona de conforto.

Ainda precisamos quebrar muitos silêncios e estabelecer alianças mais consistentes diante dos compromissos com as agendas de diversidades, mesmo em lugares que aparentam já estarem "prontos" para conviverem com pessoas diferentes.

4 - Temos muitos tabus ainda para quebrar sobre tipos de dinheiro, abundância e prosperidade

Mulher e dinheiro foram duas coisas ainda bastante demonizadas na história da sociedade, e tudo isso só tem, na minha opinião, a seguinte explicação: sistemas foram estruturados para controlar subjetivamente a nossa possibilidade de conquistar mais rápido autonomia financeira. Existem muitas crenças limitantes bem sofisticadas reproduzidas nos padrões de comportamento da mulher que empreende x dinheiro, e isso ainda necessita de muita atenção e desbloqueios. Parece que a gente foi criada para ter medo dele ou para acreditar que não precisamos e merecemos. Outra crença é, se fazemos muito com pouco, porque precisamos assumir riscos financeiros para profissionalizar os nossos negócios mais rápido?

Mesmo a taxa de inadimplência entre mulheres tomadoras de crédito sendo inferior à dos homens, temos ainda valores baixos e médios, com pouca recorrência as tomadas de empréstimos bancários. E mais! Somos uma população de mulheres desbancarizadas, dos 45 milhões de pessoas que afirmam não ter conta em banco no Brasil, 59% são mulheres segundo pesquisa do Instituto Locomotiva e Gazeta do Povo. Esses dados reforçam as baixas exposições às decisões financeiras, em paralelo com seus desafios de acesso e utilização de recursos disponíveis

5 - Mulheres precisam mais do que treinamento para manter os seus negócios vivos

Mulheres dedicam em média 21,3 horas semanais a tarefas domésticas enquanto homens dedicam 10,9 horas para atividades do mesmo tipo. (PNAD Contínua, 2018). Isso impacta diretamente nas nossas possibilidades de dedicação e crescimento das nossas carreiras e negócios, mas mesmo assim somos as mais escolarizadas e especializadas para o mercado de trabalho, porém a nossa remuneração nunca corresponde aos desafios e investimento que fazemos de tempo e dinheiro durante a nossa preparação.

Segundo estudo publicado pela organização Think Olga, embora as mulheres na América Latina e Caribe empreendam muito (e na maioria das vezes por necessidade), elas têm dificuldade em obter financiamento e apoio adequados para seus negócios. A falta de acesso a investimentos é percebida como o principal motivo para o fracasso das empresas lideradas por mulheres e a região possui a segunda maior taxa de fracasso de empresas criadas por mulheres em todo o mundo.

É preciso repensar as métricas de capital de risco disponível para se investir em novos negócios a partir das lentes de equidade de gênero, raça com interseccionalidades e apostar em um capital chamado "confiança".

6 - Quer se inspirar em bons exemplos de alta performance? Comece perguntando às mulheres negras, de preferência mães solos que empreendem e não a homens brancos privilegiados

As únicas histórias de performances empreendedora de "superação" que não são consideradas potentes o suficiente para serem revertidas com confiança em investimento pelos apoiadores do empreendedorismo brasileiro, são as das mulheres. Os pitchs podem até ser os mais bem preparados e fundamentados, as ideias também podem ter maior consistência e senso de oportunidade, mas se elas forem defendidas por uma mulher, sobretudo uma mulher negra, essa corre grande risco de ser julgada como uma liderança suscetível à instabilidade emocional ou dificuldade de agir sob pressão diante de possibilidades de crescimentos rápidos e controle de grandes times.

Em sociedades em que as mulheres têm boas capacidades empresariais, a probabilidade de melhorar a percepção empreendedora das mesmas aumenta. Contudo, menos mulheres (47.7%) que homens (62.1%) acreditam ter a capacidade de iniciar e gerir negócios.

Há muitos vieses capazes de diminuir a aposta entre o potencial de um negócio liderado por uma mulher e a disponibilidade de um homem com alto poder de decisão em exercitar empatia ao ser convocado para ouvir sobre a sua ideia. Por isso torna-se indispensável ter uma rede de apoio para empreender e mitigar os prejuízos mentais sofridos na jornada empreendedora da mulher.

Fontes: https://connectamericas.com/pt/content/o-que-sabemos-sobre-mulheres-na-economia-de-hoje; https://thinkolga.squarespace.com/economia-trabalho; https://www.andeglobal.org/page/BRZGenderLens

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