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Invisibilidade, substantivo feminino

Luisa Oliveira

Luisa Oliveira

É relações públicas por profissão e ativista por inquietação, especialmente nas pautas de gênero e sexualidade. Acredita na radical ideia de que o afeto é revolucionário. Trabalhou como relações institucionais em organizações do terceiro setor em São Paulo e no Maranhão. Atuou no governo, na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, fortalecendo políticas públicas culturais. Acredita na transformação social a partir de uma política participativa, acessível, inclusiva e socialmente justa.

29/08/2020 04h00

Um prefácio de constante aprendizado: Peço a gentileza de ler esse texto se atentando aos conceitos de gênero e sexualidade, mas lembre-se que não é possível falar desses conceitos sem compreender as conexões com as pautas de raça e classe que, por sua vez, não podem deixar de contemplar as questões urgentes de clima e meio ambiente. Um constante exercício, do macro ao micro e do micro ao macro.

O mês de agosto é o mês da visibilidade lésbica. Com duas datas de destaque, dia 19 de agosto em que se celebra o dia do orgulho lésbico, e o dia 29 de agosto dia da visibilidade lésbica.

Entre as tantas explicações para o conceito de lesbianidade que envolve a ilha de lesbos, uma poetisa, afeto e resistência, eu carrego comigo a definição popular de que lésbicas são mulheres que amam e priorizam outras mulheres. E isso, companheiras, é um ato revolucionário.

Mas nesse texto eu gostaria de dar luz à palavra (in)visibilidade, que no stricto sensus nada mais é que um parâmetro da meteorologia para se referir a algo (ou alguém) que é ou pode ser visível, ser percebido pela vista.

Como nem tudo são flores, vou tratar da antagônica ideia que o mês de agosto representa: a invisibilidade. Afinal, durante os outros 11 meses do ano, a sensação é de que as pautas das mulheres lésbicas passam despercebidas na sociedade, inclusive pelos ativistas das pautas LGBTQIA+. Nesses 30 dias de protagonismo da letra "L" do movimento LGBTQIA+, vi poucos gays, bissexuais ou os que outrora foram chamados de "simpatizantes", falando ou dando espaço às lésbicas. Arrisco dizer que esta invisibilidade é sintomática. E os homens, contemplados pela letra G deste movimento precisam, conscientemente, ceder espaço e protagonismo às mulheres LBTs nesse contexto.

A reprodução de um sistema falido e violento, que rejeita e silencia mulheres, um sistema patriarcal que cisma em dar luz à masculinidade e subjugar o feminino e tudo que a isso está relacionado, precisa ser reconhecido e combatido.

Partindo da máxima de que vivemos em uma sociedade que educou (e em partes, infelizmente, ainda educa) homens para pertencerem aos espaços públicos, enquanto mulheres devem se contentar com o espaço privado temos, constantemente a reprodução desses padrões. E a militância tem a responsabilidade, enquanto coletividade política, de reconhecer e refletir sobre as interseccionalidades que as questões da invisibilidade lésbica, do protagonismo dos homens gays e do feminismo e as demais opressões têm. Tudo isso está mais interconectado do que a vista alcança.

Tento num exercício quase fracassado de síntese explicar essa percepção. Mulheres não foram socializadas para falarem em público, ou para ocuparem espaços de poder e tomada de decisão, seja nas empresas, no terceiro setor, nas relações afetivas ou na política. Em contrapartida, esses espaços são confortáveis para os homens. E é nesse momento, homens, que a inflexão a respeito dos seus privilégios e confortos, independente da orientação sexual, são essenciais para que a busca pela justiça social não seja apenas uma corrida em círculo, uma retroalimentação contemporânea de opressões e violências de gênero. É preciso que este compromisso também seja de vocês.

Até aí estamos observando essas questões a partir das lentes do gênero. Quando adiciono a lente da sexualidade, parto para uma camada mais profunda e que difere entre mulheres heterossexuais e mulheres lésbicas. Se difere, pois a sociedade legitima, na camada anterior, relações e situações que mais se aproximam do "padrão" de perpetuar homens brancos, ricos e heterossexuais da centralidade de toda e qualquer relação.

Mulheres lésbicas, não só dão a outra mulher, como também assumem o protagonismo em suas relações, rompendo totalmente com o estereótipo "padrão" central da sociedade. Consequentemente, são rejeitadas e invisibilizadas por esta mesma sociedade. Por isso, mulheres amarem e priorizarem mulheres é ato de resistência às opressões de gênero. Assim como a homossexualidade, que também possui profundas intersecções com as opressões de gênero, mas isso fica para outro texto.

Por fim, para quem lê esse texto faço três pedidos sinceros. O primeiro, de refletir a todo momento, quem e porquê você está invisibilizando. O segundo, de se comprometer e reconhecer que a autocrítica deve ser constante para que essas opressões não sejam reproduzidas, mesmo dentro dos ambientes que julgamos diversos e inclusivos. Por último mas não menos importante, priorizar o protagonismo de mulheres, em especial, as lésbicas nas construções.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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