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Tem cor a ciência?

Anna M. Canavarro Benite

Anna M. Canavarro Benite

Doutora e Mestre em Ciências e Licenciada em Química coordeno o Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão- LPEQI. Institui em 2009 o Coletivo CIATA- Grupo de Estudos sobre a Descolonização do Currículo de Ciências, Militante do Grupo de Mulheres Negras Dandaras no Cerrado. Atual secretária Executiva da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros/as Gestão 2108-2020.

26/08/2020 04h00

A ciência conhecida como moderna é reguladora do poder mundial. Nesse momento difícil em que vivemos o contexto de uma pandemia, é a ciência que promete ser o diferencial nas disputas de narrativas por nações de excelência em desenvolvimento. Mas o que é a ciência? A ciência é uma das maneiras de fazermos leitura sobre a realidade. Existem outros recortes possíveis de realidade? Sim, existem. O conhecimento tradicional, o conhecimento popular ou mesmo o conhecimento religioso. Não é possível apontar que recorte oferece melhores respostas. Pois, cada um destes só merece crítica dentro do próprio corpus de conhecimento que produz.
Fato é que vivemos sob a égide da sociedade tecnológica. Por sua vez, a tecnologia é fruto do desenvolvimento do conhecimento científico e, desta forma, o conhecimento científico, que é construído socialmente e desenvolve modelos para compreender como os fenômenos se complexificaram lentamente a partir de inúmeras transformações/mutações, segue sendo perspectiva hegemônica e convocada como "status" de verdade.

Mas quem produz ciência? Todos os povos que se organizaram em sociedades assim o fizeram por sua capacidade de transformar o meio em que vivem e o seu entorno. Ora, mas isso é conhecimento? Sim. A ciência moderna e recente bloqueia produções de seus predecessores e estabelece uma estrutura calcada na centralidade da produção de conhecimento que hierarquiza e imprime relação racista na construção de sua própria narrativa.

O que conhecemos como ciência atualmente foi assim estabelecido pela invenção da modernidade que é sinônimo de racismo e também de colonização e que se constitui como uma ferramenta de dominação assentada da ideia do pensamento que desqualifica os saberes não ocidentais. Esse contexto tem um reflexo: pergunte a uma criança da escola básica que cientista ela conhece. Tente você leitor/leitora buscar a representação imagética de cientista que vem à sua cabeça neste exato momento, ou tente citar autores/autoras que leu durante sua trajetória escolar. Ahhhh eu te conto, com toda certeza esta disputa imagética será vencida pelo sujeito universal: um homem branco em seu laboratório.

Desta forma, a ciência moderna se constitui como espaço de poder moderno/colonial/racista e a dominação epistêmica ainda é predominante nos povos e/ou nações colonizadas. E o currículo escolar que é a ferramenta de disseminação desta ciência nas instituições escolares é cúmplice desta ideologia. A escola reproduz as estruturas excludentes de poder e opressão historicamente herdadas, mantendo os grupos subalternos excluídos e silenciados.

Mas a ciência... Puxa, a ciência é terreno fértil. A matemática, a biologia, a física, a química, a sociologia são lugares de possibilidades, de re-estruturação do mundo, de dúvidas, de incertezas, de perguntas de paixões... A ciência é dinâmica e está em constante experimentação. É viva e o que pode ser consenso hoje amanhã já não mais, apenas verdades temporárias. E nós, as diversas pessoas que fazemos a ciência existir não somos instrumentos de trabalho tão somente. Somos história, temos cultura, temos marcas culturais que são impressas também no desenvolvimento das ciências. Por exemplo, a bateia trazida por nossos ancestrais africanos escravizados é até hoje instrumento da ação tecnológica de exploração na indústria de mineração. Importa lembrar que as Universidades de Timbuktu, Gao e Djanet floresceram ao mesmo tempo em que as universidades europeias.

Acontece que a ciência não tem gênero ou cor, ou pelo menos não deveria ter. Porém a versão de ciência ensinada nas instituições escolares é uma visão deformada que se remete ao sujeito universal e eu gostaria de tratar apenas de duas características desta deformação:

  1. a ciência como verdade autoriza a venda de cremes de hidratação com DNA do guaraná ou qualquer similiar, mesmo que DNA seja uma proteína e como tal perca sua função quando submetida a gradientes muito tênues de temperatura (armazenado em prateleiras de lojas). Essa é uma concepção elitista que se impõe como aceita e verdadeira.
  2. o conhecimento científico esta na origem de todos os descobrimentos tecnológicos e deve substituir as outras formas de saberes. Bem, querida/o leitora/o, essa é uma visão que desconsidera as histórias de produção das sociedades e por isso descontextualizada.

Segundo Adams III, existe uma rica história de conhecimento científico, de descobertas e invenções que antecedem o surgimento da civilização europeia: a descoberta do tempo, o controle do fogo, o desenvolvimento de ferramentas tecnológicas, a linguagem e a agricultura. Ensinar uma ciência de sujeitos universais trata a produção científica das mulheres cis/trans, negros/as, a partir de lugares de subalternidade. À mulher foi destinado o cuidado tal como habilidade inata e, por isso, as mesmas profissões que dizem respeito a formas do cuidar: a educação como missionária, a assistente social, etc. E não por acaso no mercado de trabalho que distribui renda, esta são as profissões mais desvalorizadas.

Outra implicação direta é que, apesar de os estudos de datação da espécie humana - estudos mitocondriais, que são marcadores femininos - indicarem Lucy, uma mulher africana exemplar do Australopithecus Afarensis, como a referência do ser humano mais antigo da nossa história, os livros didáticos ainda repetem modelos sistêmicos de macacos virando homens brancos.

Ilustrações mostrando evolução a partir do macaco - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Ilustrações mostrando evolução a partir do macaco
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Assim precisamos pensar: Tem cor a Ciência?????

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