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Nessas eleições, só vote em quem se alinha com combate à crise climática

Área recuperada com agrofloresta - forma de manter floresta em pé e reduzir impacto da crise climática -, em Jaguariúna (SP) - Flavio Moraes/UOL
Área recuperada com agrofloresta - forma de manter floresta em pé e reduzir impacto da crise climática -, em Jaguariúna (SP) Imagem: Flavio Moraes/UOL
Cassia Moraes

Cassia Moraes

Mestre em administração pública e desenvolvimento pela Universidade de Columbia, CEO do Youth Climate Leaders (YCL) e coordenadora de redes e captação no Centro Brasil no Clima.

08/08/2020 04h00

Enquanto o Brasil enfrenta um dos seus piores momentos econômicos, sendo também um dos países mais afetados pela pandemia do coronavírus, já começaram os preparativos para as eleições municipais de 2020. Temas como saúde pública e geração de empregos estão entre os mais comentados pelos pré-candidatos, mas um grupo de jovens se mobilizou para para lembrar que a crise climática não pode ficar de fora do debate.

Em seu best-seller "21 Lições para o Século 21" o escritor e historiador Yuval Harari seleciona a crise climática como uma das principais questões para as quais um candidato deve ter propostas concretas, e é categórico ao dizer que não devemos votar em alguém que não entenda essa questão, ou não seja capaz de formular uma visão de futuro relevante para a humanidade.

Nesse espírito, o Manifesto Jovens Políticos pelo Clima é uma iniciativa suprapartidária liderada pelas organizações Youth Climate Leaders (YCL) e O Futuro que Queremos, e pode ser assinado por pré-candidatos, organizações e cidadãos. O Manifesto propõe "uma reflexão e um chamado para ação frente à insustentabilidade do modelo de cidade que se tem produzido ao longo das últimas décadas no Brasil" por meio de 24 propostas para a abordagem do tema durante as eleições de 2020. Os compromissos defendidos são diversos, incluindo temas como agricultura urbana, plástico zero, política habitacional, incentivo à inovação e educação climática. Os organizadores do manifesto buscam reforçar o compromisso da juventude, sobretudo jovens candidatos, em desenvolver políticas públicas voltadas a tornar cada município brasileiro mais resiliente, justo e equitativo.

O Youth Climate Leaders, coautor do documento, é uma organização criada para treinar e conectar jovens com oportunidades profissionais na área de clima. Entretanto, a maioria das pessoas pensa em engenheiros, pesquisadores ou outras profissões mais convencionais quando ouve a expressão "Profissional do Clima". A iniciativa vem também para desmistificar a carreira na área, apoiando-se também em movimentos como o Acredito, que ganhou notoriedade mobilizando jovens pela política, elegendo sua principal liderança, Tábata Amaral, como deputada federal nas eleições passadas. Os idealizadores do Manifesto, inclusive, se conheceram no Curso YCL sobre liderança climática para o século 21. Desde o início, apoiamos o projeto porque acreditamos que a carreira política é uma das formas mais impactantes de enfrentar a crise climática.

Lembrando que Recife é a 16ª cidade mais vulnerável às mudanças climáticas no mundo, segundo estudo do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), o deputado federal Túlio Gadêlha (PDT) foi o primeiro pré candidato a prefeito a assinar o manifesto. Segundo o deputado, assumir o compromisso com a diversidade, a consciência coletiva e a governança climática é essencial para o Recife ter um ambiente saudável. A ideia é que o Manifesto crie uma "competição do bem" entre os pré candidatos, incentivando-os a assumirem compromissos mais ambiciosos no combate a crise climática.

Para Flávia Bellaguarda, co-fundadora do YCL é uma das idealizadoras do manifesto, este tem o intuito de suprir a ausência de conexão entre a pauta climática com a política, reforçando a necessidade de se construir uma sociedade melhor e mais resiliente. Por isso, incentivamos a importância de, nas eleições de novembro, votar apenas em candidatos que apresentem propostas objetivas sobre o enfrentamento a crise climática.

Durante o processo, João Pedro Rocha, membro do YCL e O Futuro que Queremos, ressaltou a importância de construir a iniciativa com um amplo conjunto de jovens, de norte a sul do país, para mostrar que a juventude política pode e deve também ser protagonista no movimento climático. A diversidade na elaboração do documento é refletida em suas propostas, que incluem desde políticas simples e adaptáveis a muitas realidades até construções mais complexas, que precisam ser aprofundadas coletivamente. O manifesto, então, não se esgota em si mesmo, sendo um começo para grandes mudanças nas nossas cidades.

Ao assinarem o documento, pré-candidatos do Brasil todo se comprometem a incluir as propostas do documento em seus planos de governo. Política de compostagem, educação alimentar, mobilidade urbana sustentável e acessível, agricultura urbana, conservação de ecossistemas e bioeconomia, saneamento básico e reaproveitamento de resíduos são algumas das pautas englobadas pelo projeto político.

A iniciativa dos jovens brasileiros reverbera iniciativas semelhantes que florescem pelo mundo todo, como o Sunrise Movement nos EUA, um dos principais apoiadores do Green New Deal nas eleições norte-americanas. Incentivado pela pressão de jovens eleitores engajados, o candidato democrata Joe Biden colocou a pauta climática em destaque nos seus discursos e plano de governo, na contramão do atual presidente Donald Trump, que requisitou a retirada dos EUA do Acordo de Paris logo após assumir a Presidência.

Em Portugal, o coletivo LIDERA, do qual o Youth Climate Leaders também faz parte, escreveu uma Carta Aberta ao governo português para reivindicar uma recuperação sustentável pós pandemia. A carta defende que "esta crise pandêmica é um alerta sem precedentes que pôs a nu a vulnerabilidade das nossas sociedades" e que "embora ainda estejamos no olho da tempestade, há uma outra profunda emergência a decorrer em paralelo: a crise climática". Dessa forma, os jovens portugueses reivindicam que em vez de recuar os objetivos verdes já estabelecidos, a recuperação da crise deve fomentar um "modelo econômico mais justo e inclusivo, que tenha como base o equilíbrio e respeito pelos limites do planeta".

Entre as políticas defendidas pela carta estão o alinhamento das políticas fiscais com o objetivo de efetivar a transição energética, de combustíveis fósseis para 100% energia renovável; favorecer o investimento e financiamento ao desenvolvimento e implementação de tecnologias limpas; e apostar nos serviços dos ecossistemas e na biodiversidade. Ao contrário do Brasil, onde o ministro Ricardo Salles incentivou "passar a boiada" e desregulamentar a legislação ambiental vigente durante a pandemia, o Ministro do Meio Ambiente português João Pedro Matos Fernandes recebeu o grupo em seu gabinete para debater as propostas apresentadas.

Seja no Brasil, EUA ou na Europa, uma coisa é certa: um número cada vez maior de eleitores, em sua maioria jovens, recusa-se a votar em candidatos que não se comprometam com o futuro do planeta. Se você faz parte deste grupo, envie o Manifesto Jovens Políticos pelo Clima para os seus candidatos e, nessas eleições, só vote em quem tiver propostas claras e ambiciosas para o tema. Ao contrário do Brasil, que segue como o "eterno país do futuro", a crise climática já é um problema do presente e, se não fizermos algo hoje para revertê-la, o futuro de milhões de brasileiros e brasileiras será ainda pior do que a realidade já difícil que vivemos.

O manifesto Jovens Políticos pelo Clima pode ser acessado pelo site: https://www.jovenspoliticospeloclima.com.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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