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A gente é o passado que não passa

Foto de Itala Herta segurando ilustração de Leandro Estevam - Arquivo pessoal
Foto de Itala Herta segurando ilustração de Leandro Estevam Imagem: Arquivo pessoal
Itala Herta

Itala Herta

Consultora e empreendedora social graduada em Comunicação Social com ênfase em Relações Públicas pela UNIFACS/LAUREATE. Atua há mais de 10 anos com projetos interculturais de inovação social, economia criativa, sustentabilidade & responsabilidade social em instituições públicas e privadas do Brasil. Fundadora da Diversa (@diverssa) e cofundafora da aceleradora baiana Vale do Dendê (@valedodende), a primeira aceleradora de negócios focada em diversidade do Nordeste. Com sua curadoria e pesquisa, fomenta conteúdos a partir das lentes de gênero, raça e sexualidades.

05/08/2020 04h00

Certa vez ouvi uma reflexão sobre o livro "Necropolítica", do filósofo africano Achille Mbembe, que trazia um olhar sobre o pensamento de futuro não como resultado apenas das histórias de desenvolvimento e progresso, mas sim como uma saída para as histórias de dor e violências que o falso desenvolvimento nos obrigou a viver. A questão na mesa era se continuaríamos repetindo padrões nocivos afetivos e estruturais já ditos pelas nossas atitudes como insustentáveis - afinal, foram esses padrões que congelaram nossos corpos junto a opressões desse TEMPO - HOJE - AMANHÃ. Pois há um passado que não passa no Brasil, o passado da escravidão. E como disse uma vez o dramaturgo e filósofo José Fernando Peixoto de Azevedo, "O passado não passa porque talvez a ideia de futuro que nos moveu até agora seja algo a se reinventar".

Os últimos meses trouxeram para o centro de muitas discussões a palavra futuro e seus ressignificados. Mas esse período também me trouxe uma saudade do futuro. Escrevo e revisito o tempo e a expectativa que ele me trouxe durante a virada de 2019, ao projetar com minha equipe e colegas de trabalho uma campanha que tornaria público um novo projeto em que a narrativa essencial é provocar reflexões e a produção de conteúdo sobre o "olhar de futuro" a partir de diferentes personagens nos seus inúmeros contextos, lutas e papéis. Lembro-me da questão que argumentava a ideia, ela dizia: "Como conectar-se ao futuro sem perder a nossa identidade?"

Era importante para nós, naquele momento, provocar e amplificar vozes que refletiam sobre um pensamento mais diverso e justo de futuro para as próximas décadas. Afinal, chegar a 2020 era também nos permitir seduzir ou contagiar com a inexplicável sensação de um novo começo de era. Falava-se e muito de renovação, reconstrução, fenômenos e previsões tecnológicas para se encarar uma próxima década, mesmo sendo ela uma mera convenção.

Voltando para o hoje, após acompanhar os dados absurdos e alarmantes sobre as vítimas dessa crise sanitária mundial, falamos de futuro e a primeira palavra que nos vem à cabeça é "incerteza". Importa para mim aqui considerar que a construção de futuro depende também de uma memória, não só dos cenários que pertencemos nesse tempo-agora. Sim, o futuro tem memória, e é ela que nos faz viver a experiência do tempo.

Ilustração do artista Leandro Estevam  - @leandro.estevam_ - @leandro.estevam_
Ilustração do artista Leandro Estevam
Imagem: @leandro.estevam_

Para muitos anciãos/anciães que preservam os seus ricos saberes a partir de uma cosmovisão ancestral, esse passado - presente - futuro é um caminho único, capaz de nos traduzir códigos, cuidados e forças fundamentais de resistência quando andamos em conexão direta com a natureza e atentos aos nossos passos. Isso significa também que apesar da riqueza e abundância, viver para muitos no Brasil pode ser uma experiência de dor, precariedades, sofrimento e negação.

Se fôssemos aqui descrever períodos e perfis dos corpos que "colecionam" memórias de crises e recessões econômicas, pandemias ou incertezas diante das construções excludentes, negacionistas de futuros possíveis no Brasil, com certeza esse retrato seria negro, feminino, transgênero e favelado.

Nosso país repete perversidades em diferentes modos, tempos e simbologias por meio de suas histórias em décadas de sufocamentos da população negra e pobre. Ora mantendo estruturas hegemônicas de poder, força e vigilância, ora negando valores e contextos históricos importantes de luta, revoluções e inconformidade das margens. E quando um acontecimento descortina as margens criadas e mantidas por décadas sem qualquer assistência básica de vida, é um sinal quase apocalíptico de que fomos convocados a nos constranger publicamente a não nos eximir das responsabilidades e da necessidade de mover-se interna e politicamente em prol de um bem comum, a partir da regeneração de nossa humanidade.

Trago essa reflexão para pensarmos juntos se é possível pensarmos em futuro ou em uma novidade de normas sem considerar um passado-presente de abismos sociais e tantas emergências. Por isso, desloquei aqui o meu olhar sobre o futuro para o lugar da [re]construção, por entender que essa talvez seja uma forma mais propositiva de mitigar o contexto pelo qual estamos passando, nesse tempo sem previsão de acabar marcado pela falta de comoção nacional.

Mas quero também reforçar que não se trata de um lugar "ingênuo" ou romântico para uma reflexão tão profunda. Pelo contrário, a meu ver, o lugar da reinvenção que acontece justamente nesse modo de operação no qual vivemos e depende diretamente das populações invisibilizadas, de seus cuidados, criatividades e inteligências. Depende das estratégias de sobrevivências dos nossos corpos, capazes de fissurar quaisquer centralidades com sua potência, mesmo sendo tão marginalizados e facilmente dispensáveis.

Há de ser urgente e por direito também reverenciar a memória, a contribuição intelectual e a força de trabalho das caras pretas capazes de inovar mesmo quando tudo lhes foi negado por muitos anos. Caras essas que, mesmo assim, pensam em soluções e saídas com novas abordagens para os problemas mais antigos — aqueles que nem mesmo fomos nós quem criamos na história da humanidade.

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