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No olho da rua: a cidade para além do sonho

Marcio Black

Marcio Black

É cientista político, produtor cultural e coordenador do programa de Democracia e Cidadania Ativa da Fundação Tide Setubal.

26/07/2020 04h00

"As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio
condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas (?).
De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete muralhas,
mas a resposta que dá às nossas perguntas políticas" [Italo Calvino]

São vinte anos de produção de algumas centenas de eventos, ações e festas de rua na cidade de São Paulo. Da coordenação de eventos como a Mobilização Mundial pelo Clima, Carnaval de Rua e Virada Cultural até festas sem autorização sobre o Minhocão, na Praça Roosevelt, Viaduto Sta. Ifigênia, Bar do Gê, Bar do Netão, Rua Augusta, entre outros. Eventos e ações completamente diferentes, mas com um sentido em comum: a possibilidade de existir e experimentar plenamente as ruas de São Paulo.

Uma história com início em uma época na qual o acesso aos produtos culturais era feito estritamente por meio de clubes, teatros, casas de show, ou seja, experimentava a cidade quem tivesse condições de pagar. E, consequentemente, eram aplicados os recortes que consideravam sua origem social, racial e gênero. Uma cidade fechada, paga, segregada.

Por outro lado, tínhamos as ruas da cidade. Lugares nos quais sua raça, classe social, roupas, ou o que seja, não importavam, pois na rua você ganha reputação pelo que você faz. Não quero dizer com isso que não existam disputas, pelo contrário, as ruas sempre foram lugar de disputa intensa. Disputas que envolvem moradores, pessoas em situação de rua, ambulantes, polícia, comerciantes, incorporadoras? As disputas nunca cessam e a forma como nos relacionamos com elas são fundamentais para evidenciar qual é a nossa perspectiva de cidade, de democracia. E por isso a manutenção da vida (sem exageros) se expressa nas ruas enquanto projeto político, cultural e econômico.

Em vinte anos, a cidade mudou muito. Mas as ruas seguem como espaço de experimentação da diferença, não importando qual. Por isso a pergunta: se a vida pulsa nas ruas (nas periferias e no centro) como seguir em tempos de isolamento social?

Se consideramos que as ruas são um espaço de disputa, como disse acima, essa disputa também passa pelo simbólico. E é esse momento que vivemos hoje. A disputa pelas ruas como conceito. E isso nos coloca numa situação delicada, sensível. Uma vez que a "Definição" nesse momento possa nos transformar em agentes da privatização das ruas. Corremos o risco de nos transformarmos naquilo que imaginamos combater.

Os percursos privados de existência em São Paulo sempre foram majoritariamente para classe média, masculina e branca. Enquanto nas quebradas, a saída sempre foi realizar eventos públicos/gratuitos (as ruas - espaço público - são uma extensão das moradias - espaço privado - e por isso não são antagônicos, como no centro). A ida para as ruas também é uma questão existencial, pois como homem negro que veio da quebrada essa foi a estratégia que encontrei para dar vazão a minha identidade.

E por isso precisamos ter em mente, que nunca podemos deixar de considerar as forças em luta na disputa pela rua, sejam simbólicas ou materiais, que não podemos ceder ao sermos confrontados por essas disputas ou por essas questões. O isolamento social, o recuo estratégico para o privado, nos concede tempo para levantarmos questões referentes à cidade que queremos. Como podemos aprofundar as discussões em torno da ocupação do espaço público para o período de reabertura? Quais são os mecanismos de controle que obstaculizam o protagonismo de negros? Quais são os dispositivos, posicionamentos, que obstaculizam o reconhecimento do protagonismo das mulheres? Quais são as violências essas pessoas sofrem nos percursos públicos e que precisam cessar?

Precisamos afirmar que as ruas são nossas ao mesmo tempo em que pensamos juntos em políticas sociais para os seus mais distintos usos, levando em consideração todas as pessoas que habitam e existem nelas. Por uma cidade aberta, livre, inclusiva. Pelo direito à cidade, ou seja, ao que é nosso!

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