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Marchamos há 520 anos pela construção de um novo marco civilizatório

Em 2019, a Marcha das Mulheres Negras foi para as ruas de São Paulo - Reprodução/Facebook
Em 2019, a Marcha das Mulheres Negras foi para as ruas de São Paulo Imagem: Reprodução/Facebook

Juliane Arcanjo e Keit Lima

25/07/2020 04h00

Dia 25 de julho é o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha. No Brasil, por meio da Lei nº 12.987/2014, celebramos o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza de Benguela foi, no século 18, a líder do quilombo do Quariterê, no Mato Grosso. Sob sua liderança, negros e índios resistiram à escravidão por duas décadas. É um símbolo de coragem e resistência, apesar do esquecimento na história oficial.

Assim como Tereza, outras mulheres negras tiveram que desafiar o racismo, a escravidão e as muitas formas de violências e opressão. Dandara, Aqualtune, Luiza Mahin, Esperança Garcia representam a luta de todas que vieram antes de nós. Suas histórias dizem que nossa luta não começou agora, que os nossos passos vêm de longe e nunca pararam. Somos nós, mulheres negras, que sempre estivemos na linha de frente na luta pelos direitos civis e por uma sociedade mais justa, em que todos tenham seus direitos assegurados e garantidos.

Por isso, no 25 de julho celebramos nossa existência e força, mas também refletimos sobre nossas lutas, desafios e conquistas. Nesse dia saímos às ruas em marcha para denunciar o racismo do Estado brasileiro, mas também para reafirmar nossa potência transformadora e nossa infinitude enquanto mulheres que resistem.

Fazer parte da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, coletivo nascido em 2015, quando mais de 50 mil mulheres negras de todo o Brasil marcharam, em Brasília, contra o Racismo, a Violência do Estado e pelo Bem Viver, é estar em constante movimento e ser diariamente lembrada de que não marchamos só nesse dia, marchamos há 520 anos pela construção de um novo marco civilizatório, no qual mulheres e negros sejam reconhecidos como detentores de voz e direitos.

Em 2020, devido à pandemia, a 5ª Marcha das Mulheres Negras de São Paulo será virtual, mas não menos potente. Nosso mote "Nem cárcere, nem tiro, nem Covid: corpos negros vivos! Mulheres negras e indígenas! Por nós, por todas nós, pelo bem viver!" reflete e sintetiza o que temos dito (e gritado!) há muito tempo: o projeto político de nação é um projeto de extermínio dos pobres, pretos e periféricos.

O objetivo deles é nos deixar morrer, mas é preciso lembrá-los: atravessamos oceanos, construímos quilombos, inventamos culturas, produzimos saberes, subvertemos a miséria e estamos existindo e resistindo há cinco séculos.

Apesar da trincheira ser pela sobrevivência, não se engane, não estamos apenas na resistência. "Estamos juntas e unidas lutando por nós, por todas nós, pelo Bem Viver e contra o genocídio do povo preto, dos povos indígenas, de LGBTQIA+ e contra todas as formas de opressão", estamos como diz esse trecho do nosso manifesto de 2020: juntas propondo e construindo um novo modo de sociedade e sociabilidade.

Acreditamos em um projeto de mundo baseado no Bem Viver, filosofia indígena que propõe outra forma de organização social e práticas políticas. Não queremos reformar as práticas já impostas, queremos mostrar que é possível uma nova forma de coletividade em que todas as vidas são respeitadas e colocadas no centro do debate e das soluções.

A filosofia Sankofa nos guia: o pé sempre voltado para frente, mas continuamente aprendendo com a nossa ancestralidade. Eu sou por causa das minhas que vieram antes e pelas que estão caminhando comigo para abrir caminhos para as que vêm depois de mim.

Somos muitas e múltiplas. Movimento, Potência e Furor.

Nesse mês de celebração e também de reflexão, Carolina Maria de Jesus ecoa como nunca:

Se é que existe reencarnação eu quero voltar SEMPRE PRETA!!

Juliane é cientista social e estudante de direito, atualmente trabalha na Secretaria Municipal de Direitos Humanos de São Paulo. Membra da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.

Keit é mulher preta, gorda e periférica, tem como propósito de vida e luta a equidade racial, de gênero e classe. É ativista da Educafro, Marcha das Mulheres Negras de São Paulo e Grupo Mulheres do Brasil.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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