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O isolamento expõe as feridas da solidão na maternidade

Vaneza Oliveira

Vaneza Oliveira

Atriz e diretora de 31 anos. Nasceu em Eunápolis, município da Bahia. Aos seis anos, mudou-se para São Paulo, onde vive atualmente, e aos 17 se tornou mãe-solo. Começou a estudar teatro em 2013 e fez sua estreia como atriz na série 3%, da Netflix, com a personagem Joana. Como diretora teve sua estreia em 2019 no curta metragem "Mãe não chora?. Sua carreira e pesquisa artística são comprometidos em contar histórias por meio de seu próprio corpo, de sua fala e vivências como mulher, mãe, negra, feminista , antirracista.

12/07/2020 04h00

Em tempos de medo da morte, será que estamos disponíveis para olhar quem gera a vida? A mãe. A maternidade traz responsabilidades que muitas vezes não são divididas. Essa tarefa nunca foi fácil de exercer em uma sociedade que culturalizou a responsabilidade da criação somente à mulher.

A educação, a alimentação, a limpeza da casa garantindo uma estrutura saudável. Nós, mães, muitas vezes não damos conta de todas as responsabilidades e nos sentimos incapazes. E no fluxo de tarefas não temos tempo de conseguir se perguntar se é humanamente possível carregarmos tanta coisa sozinhas.

A quarentena poderia ser um ótimo momento para trazer a público o conceito de maternagem, que é um entendimento que todos participam da construção de uma estrutura segura para a criança. A maternagem e a paternagem dividem as responsabilidades do que é necessário para a criação e ajudam a desmistificar o conceito de "instinto feminino", que é utilizado para justificar uma ausência paterna e naturaliza a sobrecarga na mãe.

"É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.", como diz o provérbio africano.

E claro que em famílias periféricas o conceito é colocado na prática, porém é feito como modo de sobrevivência para que a mulher consiga trabalhar e colaborar financeiramente com o sustento do lar. Culturalmente não nos responsabilizamos pelas crianças que vivem no nosso entorno.

As cargas são altas, e para nós, mães solo, ela vem em uma porcentagem sem divisão. Somos mais de 11 milhões de mulheres que, além de ter que dar conta de tudo que é necessário para os nossos filhos, temos que ainda ver as pessoas utilizarem o preconceituoso termo "mãe solteira"'. Esse termo enraizado, onde a criança e a mãe só mereciam respeito quando estavam em um matrimônio.

Mas as relações podem durar um dia, meses, anos e podem gerar frutos, os dois assumem essa responsabilidade no ato, porém só a mulheres são cobradas. E o termo mãe solo expo? a ausência paterna e a condição em que vivemos.

O termo ainda está na boca do povo e, infelizmente, na narrativa de pessoas que se propõem a contar nossas histórias, dificultando o avanço dessa discussão. Mais ainda no desejo de nos manter em movimento, nós mães solo, vamos procurando espaços de apoio, como por exemplo, a página no Instagram Mãe Polvo, um espaço para que possamos contar nossas histórias.

Digo que como mãe isolada, a distância da rede de apoio nos coloca ainda mais "solo". Começa a fazer parte da rotina de obrigações na casa a preocupação quanto a um futuro incerto. Se antes eu tinha uma rede com amigos, família, e momentos de respiro para conseguir exercer minha maternidade de forma saudável, com essa quarentena e as relações distanciadas, tudo se tornou ainda mais pesado.

Foi enraizado na maternidade de mães pretas uma força, uma movimentação com a vida sem espaço para choro: não tenho tempo pra chorar, preciso fazer o arroz; não tenho tempo para chorar, preciso ver como vou conseguir pagar o aluguel.

E assim você vai segurando a lágrima enquanto refoga o alho, enquanto lava o banheiro, até que um dia você não consegue mais levantar. Com dor no corpo, e um choro que parece que não vai mais parar, e de repente vem a vergonha de não ser aquela mulher forte que você queria ser para a sua filha.

E o que poderia ser um momento de uma fragilidade humana, torna-se um momento em que você se sente covarde por não conseguir olhar nos olhos do seu filho e dizer: hoje eu não consigo.

Ficar isolada nos obriga a olhar para nós mesmas, para os nossos medos, e ter que mostrá-los aos nossos filhos. O medo de talvez não conseguir manter a estrutura do lar, não conseguir ajudá-los nos estudos te faz sentir que falhou com o principal compromisso da maternidade: proteger.

Nós, mães pretas, temos dois corpos a serem feridos pelo racismo. O nosso e o do nosso filho, e colocamos toda a nossa energia para protegê-los do mundo e também das nossas próprias feridas, mas nesse isolamento essas feridas estão expostas. E, infelizmente, acaba que os momentos de tristeza se sobressaem aos momentos de alegria assistindo desenho no café da manhã.

Ser mãe e artista não é fácil, mas tenho a oportunidade de expor de alguma forma as agonias com meu trabalho, colaborar transformando as histórias da página Mãe Polvo em vídeos para os quais empresto a minha voz e meu corpo para contar histórias dessas mulheres e, de alguma forma, diminuir seu peso.

Os pesos e os medos contidos nesse texto não são exclusivos da maternidade, mais é só maternidade que trás ela em dobro, e agora que estamos em casa olhando para todas as demasiadas obrigações que temos que dar conta, e do quanto viver em coletivo é algo que nos faz falta. Como ainda acreditar que a maternidade é um problema só da Mãe?

Como ainda manter um discurso de cada um por si em um momento em que percebemos que uma pessoa é capaz de iniciar um efeito cascata que pode atingir o mundo inteiro. Olhar para a Mãe e olhar para filho e, assim, para o cidadão do futuro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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