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Autoritarismo disfarçado de neutralidade

Júlia Fernandes de Carvalho

Júlia Fernandes de Carvalho

Júlia desenvolve jogos sobre o sistema político brasileiro, na Fast Food da Política, para que mais pessoas possam escrever as regras

01/07/2020 11h09

Brasil, depois de tudo que passamos, será que ainda acreditamos que política e futebol não se discutem? A despeito de um cenário de pandemia, tudo indica que teremos eleições esse ano. A "saúde democrática" também precisa ser cuidada, e por isso a importância da renovação de cargos. Renovar o quê? Vamos eleger propostas ou pessoas com palavras de ordem?

Eleições. Bom, eu e você sabemos como fica nossa relação com quem conhecemos quando começam as campanhas eleitorais. É quase como se o DNA da política se reduzisse a uma partida de queimada. O time de futebol cuja camisa a torcida veste, toma lado e entoa o grito de guerra. A própria lógica do jogo já organiza essa divisão, no fervo a entrega é total, quase a sensação de quem gritar mais alto vence.

É assim que temos conversado com quem pensa diferente de nós.

Quando a política no mundo mais parece com o carrinho de bate-bate dentro do parque de diversões, onde quanto mais te machuco, mais me sinto perto da vitória e você da exaustão, podemos refletir o quanto essa brincadeira tem sido venenosa para a democracia. Em teoria de jogos chamamos de estética da submissão quando um jogo de passatempo é tão poderoso que, mesmo não sendo tão bom e causando um mal considerável, continua-se jogando, pois o jogador se encontra viciado.

Trabalho com jogos que explicam leis, políticas públicas e memória política. Apesar de ter vários posicionamentos como qualquer outra pessoa, com o passar dos anos fiquei curiosa para compreender porque se defende com tanta fúria o que não se conhece.

Em 2015, ao inserir alguns desses jogos no meio das manifestações pró-impeachment, descobri que a torcida se organizava para tirar uma presidência sem nem mesmo saber quem assumiria a braçadeira do capitão do time no dia seguinte. No jogo, só era possível terminar o quebra-cabeça proposto completando quem seria o novo presidente conforme a linha sucessória prevista em lei. Ao descobrir que não era o Tiririca, o Aécio Neves, o Russomano, ou os tantos outros preteridos, e sim o vice, frustração. Algumas pessoas ficaram bastante surpresas e outras chegaram a abandonar a ideia da manifestação. Se sentiram enganadas, será?

De 2015 a 2018, nosso congresso fez vigorar a lei (nº 13.165) que determinava que pelo menos 85% e no máximo 95% do fundo eleitoral seria destinado às candidaturas masculinas. Quase como se os candidatos homens ganhassem um carro zero inteiro, e as mulheres ficassem com o espelho que vem no quebra-sol. E aí, sendo ou não a favor do feminismo, continua não fazendo sentido dar um espelhinho para as mulheres e um carro zero bala para os homens.

No Brasil, só a partir de 2009 (Lei nº 12.034, art 11º, § 1º, IX) se tornou obrigatório que um candidato à presidência apresentasse propostas para concorrer à liderança do país. Antes disso, era como se eu me oferecesse para pilotar um avião sem revelar o destino para os passageiros. Você entraria nesse avião?

Todos esses efeitos, e muitos outros mais antigos, escorrem como tinta da parede mal pintada manchando o chão que ainda é a base do nosso presente e futuro. Não são regras acidentais. São regras marcadas, construídas e projetadas com velocidade ou atrasadas intencionalmente. Temos leis tardias e importantes, mas temos também leis antiéticas, desonestas, que garantem que as fatias do bolo continuem sendo dadas apenas para um único estudante da sala. A crença de que a política só dá errado por conta dos personagens que a compõem é uma estratégia para reforçar a estética de submissão, controle. Essa grande superfície de atrito, onde a única oferta diária para ser consumida nos jornais, é um tíquete para o show de carrinho bate-bate.

Saber como o sistema político funciona, é como cuidar da casa. Não basta pintar as paredes, cuidar dos móveis e limpar. Se você comprar uma casa que parece bonita, mas os canos, fiação e fundação estão prejudicados, você está fazendo um mal negócio.

Digo que estamos fazendo um negócio tão péssimo que corremos o risco do preço continuar sendo a vida dos brasileiros e brasileiras. O encanamento estourado tem causado muita infiltração e a gente aqui, achando que para melhorar o ambiente basta trocar a cor da sala que incomoda porque é vermelha, ou verde e amarela. O teto pode desabar e a gente acha que a prioridade é a tinta na parede. Precisamos lembrar que teto só é teto, se proteger da chuva todos os membros da casa. Na nossa democracia, até agora, estão dizendo que mesmo que você não tenha acesso a nenhuma ferramenta para consertar a sua goteira, se você não tampá-la a culpa é toda sua. Mesmo que outros tenham lojas de ferramentas, 5 casas e você, nenhuma. Em casa sem goteira, não existe neutralidade.

Aprendi que só é possível fazer reformas na casa, ou mesmo distribuí-las, sabendo muito bem como a estrutura maior funciona. Como? Desconfiando especialmente daquilo que parece muito natural ou mesmo se apresenta enquanto neutro. A palavra normal vem de norma. Um possível sinônimo para lei é também algo que caracteriza uma regra, uma imposição. E, curiosamente, também enquanto discurso, a normalidade tem sido perversamente utilizada como estratégia para ideologizar o outro e se neutralizar. Quando apenas quem discorda é ideológico e quem afirma é neutro, significa que o nosso ponto de vista é autoritário, porque já nasce em caráter hegemônico, já nasce como regra.

Quando formos escolher quem irá governar as cidades esse ano, é importante lembrar que existe um projeto mais profundo que tem sabotado as fundações da nossa casa e ameaça desmoroná-la ao instaurar o ódio automático e as mortes que já não podemos contar, como prato feito do dia, como normalidade. Podemos renovar quantas vezes quisermos, mas se no fim do dia achamos que a goteira do outro é responsabilidade exclusiva dele, e não um problema que também é nosso, vamos renovar sempre para o passado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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