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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sob Bolsonaro, Brasil transforma em fardo a dádiva da natureza

Gado em área queimada da Amazônia -
Gado em área queimada da Amazônia

André Aroeira e Natalie Unterstell

17/06/2020 04h00

Ter a mais pujante biodiversidade do mundo no próprio quintal é sonho de qualquer país no século 21. O avanço tecnológico traz consigo as infinitas possibilidades do usufruto dos serviços ambientais e da prospecção de tecnologias, fármacos e moléculas abrigados nas florestas.

Um programa de investimentos inteligente para a Amazônia, com atração de grandes cabeças, o uso dos conhecimentos tradicionais e a fartura de insumos, poderia catapultar o Brasil à vanguarda da inovação tecnológica, industrializar a região mais pobre do país e gerar produtos exclusivos e de alto valor agregado. Protegendo e valorizando a floresta e seus povos.

Como se fosse pouco, é ainda um ativo estratégico para atração de investimentos e acúmulo de "soft power" - a capacidade de exercer influência sem utilizar dinheiro, coerção ou poderio bélico. Já há alguns anos, a emergência climática saiu do consenso dos periódicos científicos para um consenso crescente na opinião pública e entre gestores públicos, fazendo irromper o valor e a importância dos ativos naturais.

Mas o Brasil ainda não parece entender o que tem nas mãos. Ao promover a sua destruição, perde oportunidades e parte da própria identidade. Só pela última medição oficial do INPE, perdeu uma área equivalente a meio Estado de Israel sem conhecer bem o que tinha dentro. No lugar, colocou a mais tacanha e improdutiva pecuária que conhecemos. Cabe se perguntar: o que Israel escolheria fazer com tanta floresta?

Por aqui, a equação de ganha-ganha torna-se perde-perde enquanto exercemos, de maneira intransigente, uma soberania pautada no direito à autodestruição.

Perdemos ao pôr em marcha na Amazônia uma estratégia com governança limitada, recursos insuficientes e que, sem surpresa, colhe resultados ruins. O midiático Conselho da Amazônia parece fadado a promover desfiles militares estéreis na região, enquanto a floresta vira cinzas em um ritmo que não havíamos testemunhado neste século.

Também perdemos enquanto abundam os vexames internacionais, como a pecha de chantagista da diplomacia brasileira na COP do Clima, as capas de revista que trazem a devastação em curso na Amazônia e a péssima repercussão dos ataques oficiais a figuras fleumáticas como Greta Thunberg, Papa Francisco e Leonardo DiCaprio.

Rompem-se laços históricos e também oportunidades promissoras de cooperação internacional: o Fundo Amazônia está paralisado há 1 ano e fundos nacionais de promoção a atividades sustentáveis, como o de Compensação Federal e o de Conversão de Multas, foram capturados pelo ministro Ricardo Salles. O que ele planeja fazer com esses bilhões de reais o tempo dirá; antes ia para o meio ambiente. O "soft power" some no ar tal como fumaça de queimada.

O Brasil já oferece a seus competidores o argumento perfeito para as sanções protecionistas estrangeiras. Se em 2019 foram feitos apenas anúncios de desconforto por países e investidores internacionais, em 2020 o Parlamento Europeu passou a estudar em específico os riscos ambientais, econômicos e comerciais de estabelecer uma cooperação com o país no marco do Acordo do bloco com o Mercosul.

Em março, o embaixador alemão no Brasil já avisara que a paralisação do Fundo Amazônia e o aumento do desmatamento seriam "um torpedo no acordo comercial com a UE". No último 4 de junho, o acordo de livre comércio foi rejeitado pelo parlamento holandês. O risco é que a oposição ao Brasil ganhe mais força e se manifeste nos demais parlamentos que precisarão ratificá-lo, corroendo mais de vinte anos de negociações comerciais. Na mesma data, o Comitê de Assuntos Tributários ("Ways and Means") da Câmara dos Deputados americana se opôs publicamente a qualquer acordo comercial com o Brasil sob o argumento de que o governo Bolsonaro não teria condições de atender diretrizes ambientais estabelecidas no acordo comercial EUA-México-Canadá.

Também em março, outro bastidor elucidativo: um negociador da Convenção para a Diversidade Biológica, o mais importante acordo global sobre biodiversidade, opinou que o Brasil parecia mais dedicado a evitar condicionantes ambientais do que traçar estratégias efetivas para proteger algo que ele tem muito mais que todo o mundo.

Quando o temor de sanções é maior do que a capacidade e a intenção de usufruir de um potencial tão único, a grande dádiva da natureza se transforma em fardo a ser carregado para cada negócio e encontro multilateral. Oxalá o Brasil consiga voltar a ter orgulho de ser um país tropical e bonito por natureza, antes que seja tarde demais.

André é biólogo e mestre em ecologia, conservação e manejo da vida silvestre pela UFMG. Natalie é mestre em administração pública pela Universidade de Harvard.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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