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Pestes estão caindo sobre nossas cabeças, mas sabemos de onde elas vêm

Gilles Sabrie/NYT
Imagem: Gilles Sabrie/NYT
Dener Giovanini

Dener Giovanini

http://www.renctas.org.br

É jornalista, ambientalista e Coordenador-geral da RENCTAS ? Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres.

28/05/2020 04h00

As feridas do planeta Terra estão infeccionando e criando o ambiente propício para que a raça humana evolua para um fatal diagnóstico de septicemia. Há quinze anos, escrevi sobre como as pragas da modernidade nasciam nas chagas abertas da natureza e multiplicavam-se nos rasgos que fazemos em nossas florestas.

Albert Camus, em seu "A Peste", de 1947, já havia dito que "todos sabem que as pestes tendem a se repetir no mundo; mas de certa forma é difícil acreditar naquelas que nos caem sobre a cabeça vindas não se sabe de onde." Suas palavras fazem ainda mais sentido hoje, quando o mundo se depara com uma preocupante realidade: as pestes estão se repetindo com uma frequência assustadora. Mas sabemos bem de onde vêm.

As pestes existem desde sempre. E desde sempre a massa microbiana do planeta vem sendo constantemente submetida às consequências das ações humanas, como o início das aglomerações urbanas na antiguidade, a expansão dos desmatamentos no período colonial ou as atuais mudanças climáticas.

A cada nova interferência do ser humano no frágil equilíbrio dos sistemas biológicos invisíveis, como os dos vírus e das bactérias, uma nova peste surge ou ressurge, são as chamadas doenças emergentes ou reemergentes. As emergentes são aquelas que eram desconhecidas da ciência, como a que atualmente é causada pelo vírus da Covid-19. Já as reemergentes são aquelas que já eram conhecidas, mas que por alguma razão saem de seu comportamento padrão e voltam a se disseminar, como atualmente está ocorrendo com o sarampo no Brasil.

Em comum, a maior parte das pestes, sejam as antigas, como a bubônica e a tifo, ou contemporâneas como a Aids e a gripe aviária, tem em seu nascedouro uma indevida e errônea interação entre o ser humano e animais silvestres ou domésticos. De acordo com estudos da Organização Mundial para a Saúde Animal (OIE) cerca de 60% das doenças infeciosas que afligem a raça humana têm origem animal, são as chamadas zoonoses. Essas doenças são provocadas por patógenos como vírus, bactérias e protozoários.

Cientistas afirmam que é impossível calcular a quantidade de espécies de micro-organismos que existem no mundo, mas em um aspecto a ciência é categórica: a maior parte deles habita as florestas tropicais do planeta e, em sua grande maioria, ainda são desconhecidos da medicina.

Diversos fatores proporcionam esse indesejável encontro do ser humano com os agentes causadores de pestes: o desmatamento das florestas para a criação de gado ou plantações de monoculturas, as alterações ambientais causadas pelas mudanças climáticas e, principalmente, o comércio ilegal de animais silvestres.

Toda vez que retiramos um animal selvagem da natureza e o levamos para o nosso convívio, armamos uma "bomba biológica" que, explodindo, poderá causar uma grande tragédia na saúde pública. Os animais silvestres são o reservatório de inúmeros micro-organismos. Em seu meio natural e em condições de equilíbrio biológico, os animais convivem muito bem com os seus parasitas. Porém, ao serem submetidos ao estresse da captura ou do transporte - que na maior parte das vezes envolvem severos maus-tratos - a imunidade natural desses animais diminui e os deixa vulneráveis para que os patógenos que neles habitam se manifestem e passem a ser transmitidos. A partir desse momento, nada e ninguém poderá impedir a transmissão de doenças e, eventualmente, o surgimento de uma nova peste.

Mesmo os países mais desenvolvidos, que possuem sofisticados sistemas de controle sanitário, não estão imunes aos efeitos dessa bomba biológica simplesmente porque o tráfico de animais é uma atividade ilegal, que não se submete a nenhum tipo de controle. Uma ave ou um macaco capturado ilegalmente na Amazônia brasileira e levados clandestinamente para a Suíça, Estados Unidos ou França é o suficiente para causar um estrago incalculável nos sistemas de saúde desses países e, ocasionalmente, se tornar uma nova pandemia. Ter conhecimento sobre esse mecanismo é fundamental para compreendermos que os desastres globais de saúde pública são, antes de tudo, uma consequência das tragédias ambientais que sistematicamente estamos provocando.

Esse cenário torna-se mais assustador ao constatarmos que não existe nenhuma perspectiva de melhora a curto ou a médio prazo na propagação dos danos ambientais. O tráfico de animais silvestres no Brasil, por exemplo, não sofreu nenhum impacto com a disseminação do novo coronavírus. O comércio ilegal virtual, realizado por meio das redes sociais continua acelerado, conforma demonstram monitoramentos realizados pela Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas). Recentemente inclusive, a Renctas finalizou um estudo onde, durante cinco meses, foram registradas e analisadas trocas de mensagens em grupos de WhatsApp no Brasil. Esse trabalho resultou na identificação de 3,5 milhões de mensagens envolvendo o tráfico de diversas espécies silvestres brasileiras. Todo esse material foi encaminhado para a Polícia Federal e o Ministério Público Federal.

Enquanto a raça humana persistir nos atuais modelos de desenvolvimento econômico, baseados no crescimento a qualquer custo, o futuro das próximas gerações continuará sob forte ameaça. Não se trata aqui da defesa de teses alarmistas, mas sim da constatação da obviedade dos tempos que vivemos: as pestes estão caindo sobre as nossas cabeças e Camus tinha absoluta razão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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