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Só o seu mundo parou

Gisele Brito

Gisele Brito

Gisele Brito é jornalista, pesquisadora do LabCidade FAUUSP e co-editora do zapcast Pandemia Sem Neurose.

20/05/2020 04h00

Eu já tenho certeza: o mundo vai ficar infinitamente pior depois dessa quarentena. Isso porque a ilusão das elites e das classes médias só aumenta. Se andando pelas ruas as pessoas desses grupos sociais já se achavam no centro do mundo, trancadas em casa, fazendo pão, a coisa só vai piorar.

Ouço as conversas, vejo os vídeos e em quase todos há essas afirmações de que "o mundo parou" de que "agora que tá todo mundo em casa"... O mundo não parou. A Disney fechou. Mas um monte de gente segue se divertindo da mesma forma que se divertia antes da pandemia. Se o parque mais perto da sua casa fica a duas horas, você não sente falta de parque. Quem frequenta o bar do Raimundo não está sentindo falta de bar nenhum. Se você ganha R$ 1200 para trabalhar 40 horas, R$ 600 para ficar em casa dormindo é quase uma alforria.

A comida que chega na nossa casa não envolve só o trabalho do entregador. Um monte de gente segue trabalhando normalmente. Uma cadeia de tarefas imensa está impregnada em cada caixa de papelão que chega em nossas casas. A reciclagem de papelão também não parou e em alguns bairros deve ter aumentado porque nem todo mundo aprendeu a fazer quiche tão rápido.

O trabalho essencial de cada homem e mulher mal remunerado desse país está evidenciado mais do que nunca, mas pouco é dito sobre isso. Na cidade de São Paulo, o salário médio de uma arrumadeira de hotel, é de R$ 1.472,07 para uma jornada de trabalho de 44 horas semanais. A função está no hall de atividades essenciais do governo do Estado. Como uma atividade essencial pode receber tão pouco?

Pense em todas as coisas que tem diminuído as dores do seu isolamento, as comidas que compensam sua ansiedade, as bebidas que distraem sua solidão, o pacote 4G que alivia sua depressão, o plano de saúde que te garante teste, leito, atendimento domiciliar e pense quanto você gasta nelas.

Na base da pirâmide social é, em sua maioria, a população negra que segue embarcando em ônibus e metrôs para garantir que a vida não pare e que itens básicos e contas de consumo não deixem de ser pagas.

Mais do que pensar em como esse reforço da elaboração política do futuro baseada em seus próprios umbigos, essas ilusões sobre o mundo ter parado parece ter impacto nas formas como lidamos com os problemas agora, agora que as pessoas estão morrendo.

A decepção com a falta de engajamento na quarentena tem a ver com essa forma umbiguista de vermos as formas de viver a cidade, numa perspectiva marcadamente de classe, gênero e raça. O isolamento social baseado na família nuclear, nas condições de habitabilidade e sociabilidade das classes médias não funcionou e nem vai funcionar. Não se trata só da miséria que orientou movimentos sociais a distribuir alimento, se trata de uma forma de organizar a vida que é diferente e que é historicamente ignorada ou criminalizada.

Sendo ou não possível (e desejável) a realização das eleições municipais nesse ano, o debate sobre o futuro das cidades é certo.

É preciso tomar muito cuidado para que não se repita agora o que já foi feito inúmeras vezes na história das grandes cidades do Brasil: a mobilização de argumentos sanitários para se promover remoções em massa de imigrantes, negras, indígenas, migrantes. Ou para que a bancarização aparentemente inevitável do momento não potencialize formas de financerização de bens públicos. Ou, ainda, para que o direito à privacidade e a propriedade de dados pessoais seja garantido.

O futuro só será diferente se pensado a partir das filas para pegar o benefício da Caixa ("Você ainda está em análise").

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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