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Restituição da humanidade de vidas pretas precisa começar no ventre da mãe

Thaís Ferreira

Thaís Ferreira

Preta, mulher, mãe e ativista. Cria da periferia do Rio de Janeiro, líder comunitária há 14 anos. Especialista em saúde da mulher e primeira infância. É parte do Coletivo MASSA, colaboradora do Odarah Cultura e Missão. Co-idealizadora do movimento Segura a Curva das Mães.

10/05/2020 04h00

A minha história com a maternidade começa com o parto que me trouxe à vida. Minha mãe conta que eu nasci um dia depois do recomendado pelo médico — e sob ameaça. Foi uma cesárea agendada por que, segundo o médico, minha mãe era uma "negra muito estreita" e não teria "passagem".

Em uma daquelas atitudes que só vão fazer sentido anos depois, minha mãe decidiu ir para uma festa em outro município no tal dia agendado, caiu uma chuva e não conseguiu voltar. Já no hospital e no dia seguinte, o médico disse que, se a criança nascesse morta, ele colocaria minha mãe na prisão. Segundo o diagnóstico dele, eu já estava em sofrimento fetal e nasci roxa, quase morta. Quando cheguei no colo de minha mãe, já estava vermelha e muito viva. Fotos podem comprovar.

Anos depois, já bem apropriada da minha negritude, com informações sobre saúde sexual e reprodutiva da mulher, sobretudo da mulher negra e as sobreposições de desigualdades que nos atravessam, fui conversar com a minha mãe para resgatar essa história. Entendemos ali, então, as violências pelas quais ela passou para me trazer à vida.

Descobrimos que a violência obstétrica foi algo comum às mulheres da nossa família. Revisitamos episódios dolorosos pelos quais nossos corpos tiveram de resistir, da violência psicológica no momento de parir até um caso de histerectomia (a retirada total do útero) não autorizada.

Hoje, em plena pandemia e longe do ventre que me gerou, percebo que esse foi um momento muito importante para que eu pudesse superar esse trauma de linhagem e lidar melhor com a maternidade quando chegasse o meu momento de me tornar mãe.

Mas, confesso que após aquele resgate de memórias tão sofridas, eu pensei que a única forma de me proteger daquilo seria nunca parir.

No entanto, a vida acontece e a maternidade se materializou em meu ventre pela primeira vez no ano de 2011. Minha personalidade neurótica beirando ao TOC me dizia a todo momento que eu tinha de estar muito preparada, me proteger e assim foi: busquei muita informação com especialistas, grupos, nos livros, vídeos, na espiritualidade — e nessa jornada, ter meu companheiro, um homem negro buscando ressignificar a paternidade na sua vida, foi fundamental. E auto determinei, assim, que eu merecia me tornar mãe e que meu corpo deveria ser respeitado em todas as fases da maternidade.

E a vida aconteceu de novo, trazendo à tona tudo o que não podemos controlar. Meu primeiro filho nasceu morto. Encontrei a morte dentro de mim, sozinha em um hospital particular bem famoso no Rio de Janeiro. Após a notícia, uma recepcionista me informou que não tinha vaga para um caso como o meu e que a única coisa possível de ser feita era chamar um médico para me indicar uma medicação abortiva, e então ir para casa aguardar entrar em trabalho de parto para expulsar o feto. Disse, também, que só de olhar para mim achava que o processo seria fácil.

Vi, literalmente, uma nuvem pesada e cheia de crenças limitantes se formar acima da minha cabeça, mas consegui me impor, manter meu sol aceso e recusar aquela alternativa. Liguei para a minha médica de referência que me explicou dos riscos para o meu corpo naquele contexto. E, com o meu consentimento, fui submetida a uma cesárea de emergência em outro hospital particular onde havia vaga naquele dia.

Foi tudo muito rápido. Eu estava sozinha, novamente, para resolver as burocracias de internação e tudo mais — minha mãe estava em casa, doente, e o Douglas, meu companheiro, a caminho saindo do trabalho. Minha madrinha e uma prima chegaram, ainda em choque, e eu tive de me concentrar em mim e no que eu poderia fazer para entender como prosseguir. Entrei no centro cirúrgico, recebi anestesia geral e não pude nem ver o rosto do meu primeiro filho. Quando recobrei a consciência, estava sozinha sem saber o que havia acontecido e nem o que me esperava depois.

Já no quarto, entrou um enfermeiro que mexeu no meu corpo sem pedir permissão e, ao me ver cheia de sangue, perguntou: "Garota, você não sabe se limpar? Por que está toda suja?". Ele puxou a sonda com violência e, ao sentir aquele ardor, em um impulso perguntei: "Você leu meu prontuário?". Ele saiu sem pedir desculpas. Minutos depois, uma enfermeira veio e me informou que eu não estava na maternidade, e não haviam colocado no prontuário que eu tinha acabado de sair de uma cesárea.

Sabe quando você tem a sensação de que vários livros caem na sua cabeça para te dar um "se liga"?

Ali eu lembrei do que eu nunca deveria ter esquecido: a minha existência ali era só corpo, e um corpo como o meu é número e pode suportar tudo. E sim, essas violências estruturais e institucionais estão postas para adoecer, violentar e matar vidas pretas como a minha. Inclusive no momento do nascimento. Inclusive no momento da morte.

Ter essa consciência nítida e fria naquele momento foi o que me salvou, trouxe a lucidez que eu precisava para entender que sucumbir a essa existência desumanizada e violada era o caminho esperado. A partir dali, decidi ressignificar o que deveria ser luto em luta, e a maternidade virou mais do que causa, virou missão. Missão de cura interna e coletiva.

Sete meses depois, engravidei novamente. Já me sentia potente de novo, e usei o período para destravar todos os medos. A neurose continuava ali — eu sempre dizia que, para uma mulher como eu, estar grávida não significava ter a certeza de que vai ter um filho nos braços, assim como foi a realidade de muitas das minhas ancestrais. Afinal, todas as questões, incluindo de saúde, podem se tornar ferramentas do racismo para retirar nossa possibilidade de sermos mães e maternar. Mas acreditei no meu axé e segui.

Dessa vez, fui presenteada pela espiritualidade com um lindo parto natural, digno, respeitoso e cercado de muita energia boa. Senti que tudo naquele dia vibrou para que meu corpo e meu filho pudessem fazer seu melhor trabalho na travessia do portal que é parir. Pude, para além de mim, exemplificar para uma equipe majoritariamente branca de um hospital do SUS o quanto faz bem para todo mundo quando uma mulher pobre, preta e periférica traz uma vida ao mundo tendo a sua humanidade garantida.

Athos nasceu como um encanto e, quando eu estava achando que havia conseguido ressignificar tudo, lá veio ele... Sim, o racismo estrutural, por meio de um jovem médico branco que estava alegre com tudo aquilo e resolveu me "elogiar" dizendo: "Ano que vem você volta, é uma boa parideira!"

Os livros caíram novamente. E eu resolvi arremessá-los no doutor, explicando o quanto aquela expressão era violenta e carregada de racismo. Ele se desculpou, eu não aceitei as desculpas e me senti bem com isso. Era 2013, e no fim de 2016 ele me mandou uma mensagem pelo Facebook na qual dizia que estava lendo "Mulheres, Raça e Classe", de Angela Davis, e se desculpou novamente. Acho que queria biscoito... Novamente, não cedi: "Estuda mais que tá pouco."

Em 2016, engravidei pela terceira vez e, nessa época, já estava muito presente no ativismo marginal para facilitar o acesso a educação em saúde para mulheres mães como eu, suas crianças e suas famílias e redes de apoio. João veio com muita força e é filho desse movimento todo. Juntos vivemos uma experiência que poderia ter sido mais uma vez marcada pela violência, mas já estávamos com uma visão estratégica e conseguimos virar o jogo.

Minhas gravidezes, após o óbito fetal tardio, foram consideradas de risco. No entanto, eu ouso dizer que, para uma mulher negra, toda gravidez é de risco, considerando as vulnerabilidades às quais estamos expostas.

Por isso, na ocasião, acabei indo para o hospital sem querer, um dia antes do nascimento do João. Eu estava com leves contrações apenas, mas como minha rotina de trabalho era pesada e a família estava preocupada, resolvi ir até lá para tranquilizar meu povo.

Já no hospital, com 5 cm de dilatação e entendendo bem o funcionamento do meu corpo em um trabalho de parto, resolvi dar suporte para outras mulheres e organizei rapidamente uma roda de doulagem coletiva com as 8 gestantes presentes. Todas aderiram, conversamos, nos apoiamos e decidimos começar alguns exercícios de facilitação — para o desespero da médica de plantão, que estava a fim de "fazer cesáreas e no máximo 2 PNs (partos normais)".

Nós, gestantes (todas pretas), estávamos bem e felizes com o movimento. E os trabalhos foram evoluindo e atrapalhando os planos da doutora. Rolaram 5 partos naturais na virada da noite e eu comemorei. Resolvi me concentrar em mim, as contrações haviam perdido ritmo e achamos que seria melhor eu dormir e guardar energia para o dia seguinte. Assim fiz e tentei descansar como possível.

No dia seguinte, minha evolução ainda estava estacionada e a médica "mandou" induzir o parto. Eu não aceitei a indução, pois tinha um plano, o bebê estava bem e não tinham nem 24 horas de trabalho de parto. Argumentei bem, venci e foi motivo suficiente para ela tentar, minutos depois, me violentar com o poder que ela tinha em mãos e julgava ser absoluto.

Pedi um banho quente, fiz algumas posições facilitadoras e, menos de uma hora depois, solicitei o toque pois já sabia que estava bem dilatada e era chegado o momento. Atestaram a dilatação total e fomos para a sala de parto. Chegando lá, a médica, mexendo no celular, apenas levantou os olhos e disse: "Você não acha que sabe tudo? Agora faz o que tem de fazer", e continuou em seu iPhone.

Naquele momento, eu me apropriei do meu corpo com toda a convicção que vinha construindo ao longo daqueles anos, entendendo que eu era dona de mim, que meu filho queria vir e estava pronto, que eu era capaz o suficiente para trazê-lo, que meu companheiro estava ali para fazer isso comigo e, principalmente, que nós estávamos enfrentando de frente o monstro que criaram para nos desumanizar. Acredito que o Douglas tenha sentido e entendido isso tudo com o olhar, pois quando eu falei "vamos", ele não vacilou e nós três juntos, coordenando esforços, trouxemos mais uma vida preta para este mundo. Re-existimos!

Tem um fato interessante. Meus dois filhos vivos nasceram no Hospital do Servidores do Estado do Rio de Janeiro, que fica no Cais do Valongo, o espaço físico mais importante sobre a chegada de africanos escravizados no Brasil. E eu não acredito em coincidências. Estima-se que um milhão de pessoas pretas chegaram naquele porto para serem escravizadas aqui. E, para mim, tem muito significado ter morrido, renascido e trazido vida nesse território tão marcante para a nossa história, e que hoje chamamos de Pequena África.

Lutar pela restituição da humanidade de vidas pretas desde o ventre é uma das formas que eu uso para honrar os legados de luta que me foram deixados. E ainda que para me tornar mãe eu não tenha escapado do racismo, percebi que temos a capacidade de criar novas narrativas para seguir em busca da autonomia dos nossos corpos desde o nascimento até a maturidade.

E reforço que a luta pela justiça reprodutiva e o enfrentamento das violências, hierarquias e opressões que atravessam as mães pretas deve ser uma luta coletiva, encampada por todas e todos que buscam o combate irrestrito ao racismo. Possibilitar que pessoas pretas tenham o direito de nascer de forma respeitosa é o primeiro passo para que sua dignidade seja tão humana quanto a de qualquer pessoa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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