PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Opinião


O amanhã mora na margem

Carol Delgado
Imagem: Carol Delgado
Carol Delgado

Carol Delgado

Antropóloga, compartilhadora e articuladora de tecnologias sociais e diálogos coletivos em busca de um mundo mais plural. Trabalha há mais de vinte anos construindo impacto social e é fundadora do Puxadinho, um lab de criação, experimentação, impusionamento e aplicação de outras narrativas para um mundo em transição.

03/05/2020 04h00

A frase nesta obra é do poeta, escritor, dramaturgo, professor de estética, história da arte e cultura amazônica João de Jesus Paes Loureiro, homenageado da última edição do Arte Pará —- no primeiro ano em que o evento foi composto apenas por artistas e curadores paraenses. E desde nosso primeiro encontro no inverno amazônico até esses incontáveis dias de quarentena, ela não me sai da cabeça.

Primeiro porque acredito que este é o espaço de ação para quem tem disposição e disponibilidade de se colocar a serviço da construção de outros futuros possíveis: mãos calejadas e escuta ativa.

Segundo porque o fato de não sermos completamente apaixonados pela obra de Paes Loureiro — e tantos outros impulsionadores de conhecimento fora do "centro" do país e do mundo, comprova que chegamos aos 520 anos construindo um repertório intelectual, imaginativo e visual que nada tem a ver com nossas raízes.

Ou seja, mesmo que estejamos ávidos por "quando tudo isso acabar" não haverá nada de novo se não nos tornarmos radicalmente indignados frente aos apagamentos — concretos e sensíveis — que nos constituem enquanto nação e são legitimados cotidianamente em nome da abstração maior chamada "mercado".

Porque, olha, se o fato de boa parte da população não poder cumprir determinações básicas como: lavar as mãos, evitar aglomerações e ficar em casa, não revirou nosso estômago até se tornar uma vontade maior que nós mesmos de refigurar a raiz de todas as relações que solidificamos dentro desse conceito limitadíssimo de humanidade, podemos dizer que nada mais o fará, né?

A verdade é que o vírus não vai nos salvar de nós mesmos. Não vai dar cabo das desierarquizações e ações reparatórias que postergamos há cinco séculos.

Para que outras possibilidades surjam desse panorama é preciso compromisso em deslocar o consumo como pedra fundamental das relações entre os seres. Banir o extrativismo predatório como modo de vida — ou "lifestyle", se você preferir. Tirar a natureza da lente de recurso inesgotável a nosso eterno (eu ouvi chip da imortalidade?) favor. Acabar de vez com a ideia de que é possível consumir outras histórias de vida e pagando o "preço justo", sua parte está feita.

As histórias que estão nos possibilitando atravessar esse tempo com esperanças de que poderemos tentar de novo não vão sair do "icloud for business" das startups.

Descolonização, ancestralidade, reparação, regeneração, resistência, resiliência, conexão, pluralidade, comunidade não são base de roteiro de comercial de TV. São tecnologias justas de existir num espaço comum e já passou da hora de nos colocarmos em posição de escuta aprendiz da vida no coletivo.

Tenhamos a coragem do desconforto. Peguemos o arado. Executemos a tarefa. O protagonismo fica com quem lhe tem por direito. A maioria do mundo. As margens.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Opinião