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O que a Covid-19 pode nos ensinar sobre a crise climática?

Ilustração 1 da coluna de Kinda Silva - Reprodução
Ilustração 1 da coluna de Kinda Silva Imagem: Reprodução
Kinda Silva

Kinda Silva

Kinda é filha das águas, vinda da Bahia e desaguou em São Paulo. Jovem negra, co coordena o Engajamundo, organização de juventudes que trabalha com participação política, mobilização e ativismo frente as pautas socioambientais. Dança nas horas vagas, às vezes com as mãos, outras com as palavras.

26/04/2020 04h00

Estamos programados a achar que as coisas sempre serão assim, até que nosso mundo caia. Seja por uma calamidade, seja por colocarmos outras lentes para enxergar ao redor.

Até 3 semanas atrás quem imaginou que estaríamos em nossas casas (quem tem o privilégio de poder) isolados e vivendo um mundo a partir das nossas janelas? A Covid-19 (e seu "corona vaires") chegou para colocar à prova essa crença, e entender que nossa realidade pode (e irá) virar de ponta cabeça de maneiras não usuais e mais frequentes. Se me perguntarem se estou falando de mudanças climáticas, sem dúvida... mas também de todos os impactos atrelados a essa crise climática, na qual também está incluso o aparecimento de novas doenças e a alta proliferação delas. A degradação do ambiente está em curso a uma velocidade digna das nossas vontades insaciáveis e comodismos. E que ninguém está preparado para abrir mão até ser obrigado a isso.

Questão mesmo é que a gripe dos viajados chegou mostrando muita coisa que podemos estender para usar de reflexões sobre a crise do clima. A primeira, sem dúvida, é que o brasileiro é um bicho único e que, se os memes não são uma boia, ao menos vamos afundar dando boas risadas. Mas a chegada mostrou, mais uma vez, que não estamos todos juntos nesse barco. Se em muitos lugares os primeiros casos foram de pessoas que haviam estado no exterior e que de prontidão estavam em isolamento social, seus funcionários precisaram continuar em serviço, ainda que se imagine a exposição a que eram submetidos para chegar ao trabalho e o acesso desigual aos serviços de saúde que teriam se precisarem tratar a doença. Se isso sempre foi abafado, agora está borbulhando — as discussões estão brotando de todos os lugares. E tudo bem até aqui se você não vem dessa realidade, mas a escolha agora é sua, se escuta ou se vai continuar priorizando seu lucro e bem-estar.

Ilustração: coluna Kinda Silva - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Disso chegamos a pensar: qual é o custo das vidas que levamos, para o ambiente e para outras pessoas? Por que se vivemos em um sistema que lucra com a exploração e não nos importamos em questionar isso, provavelmente estamos reforçando esse modelo de desenvolvimento. A globalização nos trará um mundo cada vez mais urbano, condensado e com recursos limitados. Teremos alterações nos níveis dos oceanos e com isso mais catástrofes nas cidades, impacto na produção agrícola e, portanto, no suprimento de alimentos, mudança no regime das chuvas, e assim mais inundações e deslizamentos, ou ainda períodos de seca e influência na oferta de água. Tudo será novo e os últimos anos têm nos provado que nem as ficções terão previsto a nova realidade. Mas, da mesma maneira, o potencial das soluções será imenso, com respostas inimagináveis e pulverizadas por aí! Com uma tecnologia muito mais acessível, poderemos em vez de temer, compreender as situações, nos embasar na ciência - e nos saberes ancestrais - para viver nesses tempos. E, se isso será desafiador, a quarentena também dá esperança que será tempo de criatividade, de rever nossa sociedade, objetivos e entender que cada um faz diferença nesse sistema.

Estaremos mais conscientes que somos capazes de fortalecer o mundo que queremos a partir do que consumimos. Sustentabilidade de famílias camponesas, autonomia de mulheres, o fortalecimento de culturas de resistência?

Precisaremos olhar o que podemos fazer agora para nos mover do que temos para o que queremos. E quanto mais rápido o fizermos, escolhendo colocar essas lentes e ver além, poderemos ter mais esperança de não chegar em mudanças irreversíveis como o IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) já apontou que pode ocorrer em 10 anos.

Teremos que voltar às bases e às nossas raízes, transformar teoria em prática, valorizar as antigas tecnologias para desenvolver novas. Acima de tudo relembrar o significado de comunidade e não desagarrar da arte, pois como diria Nina Oliveira, o isolamento (mas todas as soluções que vierem também) pode nos manter vivos, mas vai ser a arte que vai nos manter sãos. E quando tudo indicar que teremos que nos tornar mais frios e distantes, inventaremos novas maneiras de espalhar afeto e empatia. E não uma solidariedade seletiva, se não de nada valerá. Se não olharmos para quem nesses tempos está na rua não por opção, para quem está trabalhando não por egoísmo, teremos cada vez mais que lidar com os efeitos de uma desigualdade muito mais agravada.

Institucionalizar o cuidado fará parte da nossa mais coletiva estratégia de sobrevivência.

Ilustração: coluna Kinda Silva - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Por isso, desde já, nas nossas quarentenas, não esqueçamos de que o mundo não dorme tranquilo, mesmo que estejamos protegidos em casa e não vejamos. Ainda que dos prédios e casas, vamos precisar manter olhos abertos e, mesmo que por ora sem toque, os braços dispostos a agir. Tudo vai se reinventar. Agora e nas próximas décadas. E talvez se atentos, possamos pressionar para que, na reinvenção da roda, abramos espaços para novos modos de ver, nos manter, conviver e continuar experienciando esse mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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