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Você pode ficar em isolamento social?

A resposta para a pergunta acima permite inferir sobre a condição financeira e a classe social - Getty Images
A resposta para a pergunta acima permite inferir sobre a condição financeira e a classe social Imagem: Getty Images
Joyce Prado

Joyce Prado

Formada em Rádio e TV e especialista em Roteiro Audiovisual, desenvolve projetos em cinema documental e ficcional. Integra a Associação de Profissionais do Audiovisual Negro e é sócia-fundadora da Oxalá Produções com realizações focadas na cultura afrobrasileira e diaspórica.

21/04/2020 04h00

Há uma memória recente que nos orienta a como nos comportar, organizar e viver de modo geral. Nas últimas semanas, tal memória segue como um referencial para nossas ações em nível individual e social, mesmo quando elas já não são mais adaptáveis ao novo contexto cotidiano causado pela pandemia da Covid-19.

Em consequência à fragilidade do nosso referencial, ficamos desnorteados, ansiosos ou, constantemente, tentamos prever o futuro. Não estou dizendo que nossos conhecimentos sobre como nos comportar e agir socialmente de nada mais valem... eles só parecem não serem o bastante.

Não é o bastante nossa profissão e nosso papel sócio-econômico, estas características que se tornaram a nossa principal identidade perante as demais pessoas, não é mais o bastante. Nesse antigamente, tão recente de semanas atrás, quando conhecíamos alguém logo questionávamos: qual sua idade, nome, bairro/zona e, principalmente, qual a sua profissão. Agora, a primeira coisa que nos parece vir à mente é: Você pode ficar em isolamento social?

Independente da resposta ser positiva ou negativa, ela permite inferir a condição financeira e a classe social. Sendo exceção os profissionais de saúde e de serviços essenciais à população. Podemos continuar perguntando: sua residência tem saneamento básico? E água potável saindo pela torneira?

Essas respostas falam muito sobre nossas condições econômicas e acessos a direitos básicos como cidadãs e cidadãos. Indo além, diz muito sobre nosso grupo étnico-racial, nosso gênero e nosso território. No Brasil, 48% da população não possui coleta de esgoto e
35 milhões de brasileiros não têm acesso a água tratada, segundo dados de 2017 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. A infraestrutura está concentrada no Sudeste, com 78,54% da população atendida por sistema de coleta de esgoto. A situação mais crítica é da região Norte, com apenas 10,24% da população atendida. No Centro-Oeste são 53,88%; na região Sul, 43,93%; e no Nordeste, 26,87%.

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Imagem: Reprodução

Dentre tantas incertezas, há a certeza de que as pessoas mais vulneráveis no contexto da pandemia seguem sendo as mesmas do período de pré-pandemia. Elas já eram vulneráveis a esse sistema econômico atual e às políticas de Estado. Em 2003, o filósofo camaronês Achille Mbembe nos apresentou o ensaio intitulado: 'Necropolítica', onde ele nos diz:

"Este ensaio pressupõe que a expressão máxima da soberania reside, em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. (...) Ser soberano é exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implantação e manifestação de poder."

Achile, em entrevista recente, se manifestou sobre a pandemia:

Essa é a lógica do sacrifício que sempre esteve no coração do neoliberalismo, que deveríamos chamar de necroliberalismo. Esse sistema sempre operou com um aparato de cálculo. A ideia de que alguém vale mais do que o outro. Quem não tem valor pode ser descartado. A questão é o que fazer com aqueles que decidimos não ter valor. Essa pergunta, é claro, sempre afeta as mesmas raças, as mesmas classes sociais e os mesmos gêneros.

Percebo nas redes sociais uma esperança de que todo este contexto seja o prenúncio de uma Nova Ordem Mundial e um possível Novo Pacto Civilizatório - tão esmiuçado e debatido por Sueli Carneiro; sou o lado da desesperança, que enquanto mulher negra vejo a pouca presença de pessoas de comunidades racializadas dentro de espaços de poder político e econômico, cujas decisões interfiram na Ordem Mundial vigente e poderiam sinalizar mudanças da mesma.

A nova ordem continua sendo ditada pelas ausências, pela soberania acima da cidadania, pela desumanização de muitos e excesso de humanização de poucos. Será que seguiremos construindo perspectivas de futuro dentre as mesmas pessoas que negam o futuro a tantas?

Minha memória me traz anseios sobre o que, na verdade, tem se apresentado como uma das maneiras mais potentes de vermos e sentirmos a necropolítica e o necroliberalismo, notícias recentes sinalizam a maior taxa de mortalidade da população negra nos Estados Unidos e Brasil, já se noticiam casos de xenofobia e violência contra a população migrante na Europa e Ásia, o controle armado e toques de recolher já são práticas em algumas favelas e países, tudo isso após poucas semanas desde do anúncio da pandemia e as orientações da Organização Mundial da Saúde.

Há, à nossa frente, ainda muitos meses e anos lidando com a pandemia e seu legado. Infelizmente, as minhas memórias ao olhar para o hoje se relacionam com os momentos mais autoritários, violentos e desiguais dos diferentes Estados soberanos pelo globo...e seguem sendo memórias de desesperança.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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