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Em tempo de coronavírus, arrisque-se!

Tiana Lins

Tiana Lins

Tiana Lins é baiana, comunicóloga e atuante no campo do desenvolvimento social desde o final da década de 90.

29/03/2020 04h00

Difícil não escrever sobre a pandemia do coronavírus e seus impactos. E também é difícil escrever sobre isto. Como mulher, mãe, nordestina e atuante no campo do desenvolvimento social, minha sensibilidade, ansiedade e sentimento de impotência estão exacerbados. O que um texto pode contribuir num momento como este? Tenho sérias dúvidas...

Tudo mudou e está em mudança. Rápida. Nunca se passou pela minha cabeça que ficar longe de alguém poderia ser uma expressão de amor.

As relações de poder, dependência e convivência também estão se alterando. Se fosse necessário bloquear de fato as entradas e saídas da cidade economicamente mais importante do Brasil, esta mesma cidade não teria comida para seus habitantes.

Diante desta realidade que me invade em etapas (se fosse de vez eu não aguentaria), eu só consigo pensar que é o momento de arriscarmos! Radicalmente!

Não falo de nos arriscarmos em relação aos cuidados básicos necessários orientados pela Organização Mundial de Saúde (importante ressaltar isto diante de posicionamentos irresponsáveis de muitos neste país).

Falo de arriscar a nos libertarmos dos planos, estratégias, posicionamentos que tínhamos há um mês atrás; e, a partir de necessidades sociais urgentes, criar algo novo e de maneira nova. Algo novo no sentido de ser radicalmente orientado para as necessidades dos mais vulneráveis socialmente. De maneira nova por ser orientado pela empatia e compaixão e realizado de maneira colaborativa.

Na minha última coluna para Ecoa, escrevi: "às vezes acho que inovar mesmo na filantropia brasileira é simplesmente investir no que é necessário. Não onde se deseja." É disto que estou tratando. Investimentos filantrópicas diversos, ações assistenciais voluntárias e públicas precisam caminhar na contramão da quarentena.

A pandemia está realçando a desigualdade social, a violência contra a mulher, a falta de proteção às crianças, a desvalorização dos idosos, o precário sistema de saneamento básico e saúde.

Os casos de violência doméstica aumentaram na China (informações da ONG Weiping) e já demonstram crescimento no Brasil. Já falta comida nas casas de famílias das periferias.

As medidas de isolamento social são fundamentais para desacelerar o crescimento da pandemia. Mas também precisamos garantir condições de sobrevivência às pessoas. Como não podemos contar neste momento com boas e abrangentes políticas públicas neste país (mas precisamos continuar tentando!), torna-se necessário pensar criativamente a partir do que cada um tem a oferecer: empresas, fundações, coletivos, condomínios, escolas, famílias, bairros, igrejas e comunidades.

Já existem iniciativas corajosas virando realidade. No mapeamento colaborativo criado pela ponteAponte você pode conhecer algumas delas: fundos para doações, campanhas de arredação, outros mapeamentos (inclusive há um aqui em Ecoa), petições. E mais importante, arriscar-se a pensar do zero o que você tem e pode oferecer neste momento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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