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Eu gostaria de dizer que está tudo bem

Luciano Frontelle

Luciano Frontelle

É ativista, autor de piadas ruins e diretor executivo da Plant-for-the-Planet Brasil. Co-fundador do coletivo Clímax Brasil, se diverte com o desafio de tirar as mudanças climáticas do armário desde 2013. Em 2016, esse trabalho foi reconhecido pela revista Época como uma das iniciativas lideradas por jovens que estavam mudando o Brasil.

28/03/2020 04h00

Semana que vem precisarei ir ao banco com a minha mãe. Ela é aposentada, e estou acostumado a ir com ela para ajudar a fazer as compras do começo do mês e pagar algumas contas ali mesmo pelo centro da cidade. Não estaremos sozinhos, centenas de outras pessoas passarão por aquela mesma agência para que possam receber suas aposentadorias, a maioria delas com mais de 60 anos.

Eu gostaria que a fila e o tempo para fazer tudo isso fossem minhas únicas preocupações, que de lá, pudéssemos parar num restaurante para almoçar juntos e aproveitar o dia. Talvez reclamar um pouco do calor que está fazendo e de como o sol está forte, como de costume, mas ao final ficarmos felizes com uma comida boa e alguns boletos pagos.

Infelizmente esse não será o cenário.

Onde eu moro, Sorocaba, foi decretado estado de calamidade e muitas medidas já foram colocadas em prática a fim de evitar que o vírus se espalhe. O comércio e os serviços públicos não essenciais estão fechados e restaurantes só podem trabalhar com delivery, mas padarias, farmácias e supermercados seguem funcionando, ainda que com as devidas precauções sanitárias e, em alguns casos, com horários reduzidos.

Algumas pessoas que eu conheço ainda pegam o transporte público para trabalhar, outras puderam seguir trabalhando de casa, mas em ambos os casos prevalece o medo de acabar contraindo o vírus e passar para alguém que possa sofrer muito mais.

As pessoas estão preocupadas, mas acredito que nenhum de nós gostaria.

E olha, já tem tanta coisa para se preocupar, sabe? A gente se acostuma a ter de tomar cuidado com o que come, a se preocupar se estamos nos exercitando, se vai sobrar dinheiro para algo além das contas... se é que vamos ter dinheiro para pagar as contas.

Nesse sentido, alguns estados brasileiros estão até pondo em prática medidas que isentam os mais vulneráveis de pagarem contas de água e o próprio governo federal resolveu adiantar a parcela do 13º para aposentados, bem como outras medidas que tentam reduzir a carga de preocupações financeiras pelos próximos 90 dias.

No entanto, mesmo com essas medidas, muita gente ainda vai passar mais aperto do que está acostumada. E olha só: em 2020 ainda temos milhões de pessoas que frequentemente ainda passam por muito mais que um "aperto". Pensando nisso, surgiram algumas iniciativas que, além de propor ações que devam ser implementadas pelo governo, também estão fazendo suas próprias campanhas para ajudar as famílias mais afetadas — veja aqui também a campanha promovida pela CUFA ( Central Única das Favelas) e o mapeamento de iniciativas no Rio de Janeiro.

Eu gostaria de poder concordar com o presidente e dizer que está tudo bem, que basta isolar algumas pessoas e tudo vai passar. Na real, acredito que é o que todos gostaríamos, que pudéssemos viver a vida normalmente e a tudo aquilo que já estávamos acostumados. Gostaria de que as escolas voltassem a ter aulas, assim a organização que eu trabalho poderia retornar com suas atividades. Gostaria de estar com amigos e amigas, e quem sabe até em um encontro, se eu tivesse sorte nisso (mas esse já é outro texto).

Infelizmente, não posso.

Não posso porque pôr em prática essas minhas vontades e costumes colocariam a vida de muitas pessoas em risco, pessoas queridas e pessoas que eu não conheço. A Organização Mundial de Saúde, os governos dos países mais afetados, médicos e cientistas do mundo todo estão nos alertando: levem isso a sério, é pelo seu bem e pelo bem das pessoas que vocês amam.

Outros governos já demonstraram que há formas de implementar medidas que deem suporte tanto para a classe trabalhadora, quanto para empregadores. Reino Unido, França e EUA fazem isso ao mesmo tempo que promovem o isolamento social.

Bolsonaro, ao invés de usar seu pronunciamento para nos trazer segurança e divulgar ações que o próprio governo vem fazendo, preferiu vender a ideia de que está tudo bem e pouca coisa precisa ser feita, afinal, se fosse mesmo só uma "gripezinha", pouco lhe caberia fazer. Enquanto nos massacramos no Facebook ou Whatsapp, ele segue sem precisar fazer grandes decisões, sem precisar liderar de fato.

Olha, nem tudo no mundo cabe na lógica de "é isso ou aquilo" como o Bolsonaro tenta vender, dá sim para manter o isolamento - salvando vidas, ao mesmo que dá pra implementar medidas que previnam que a economia quebre. Mas para isso é preciso que ele pare de brigar com governadores e o congresso, sente na mesa, escute e proponha. E é isso que gostaria de ver para que possamos sair dessa crise enquanto antes.

Por fim, é preciso lembrar que a gente se acostuma, mas não devia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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