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Contágio é democrático; prevenção, não. Como ajudar quem vive na rua

Homem em situação de rua na avenida Paulista, em São Paulo - Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Homem em situação de rua na avenida Paulista, em São Paulo Imagem: Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Vinícius Lima

Vinícius Lima

é cofundador do SP Invisível

16/03/2020 04h00

Acredito que a primeira questão a ser esclarecida, quando falamos de um assunto tão complexo e desconhecido como a pandemia de coronavírus ou da Covid-19 que vivemos, é o lugar de onde falamos e o lugar de onde não falamos. Esse texto não é escrito por um profissional da saúde, trata-se de um olhar sobre a população em situação de rua, especificamente nessa época de alerta para a nossa saúde. Como fica quem sempre foi invisibilizado e excluído dos cuidados, dos atendimentos, das informações e exposto a tantas vulnerabilidades?

Caso eu, um jovem de classe média e com saúde em dia, seja contaminado com o coronavírus, minha única preocupação é que não posso passar para minha avó e primos pequenos. Eu passaria por uma febre altíssima, talvez uma das piores, mas conseguiria atravessar esse momento. Isso porque tenho privilégios, mais específicos quanto um convênio de saúde, mas também privilégios que nem pensamos que são privilégios, como uma moradia para poder passar pela quarentena e água para poder me higienizar.

Outra atividade que teria que fazer, também caso fosse contaminado, é me afastar por um período do meu trabalho junto à população em situação de rua. Mas e eles? E se quem está em situação de rua é contaminado? Como fica quem mora em suas malocas num espaço pequeno pelo qual passam várias outras pessoas? Como é quando chove e todos têm que se agrupar embaixo de marquises e toldos? E quem vive nas "cenas de uso" de droga, como a Cracolândia, em grandes grupos de pessoas que compartilham cachimbos? E quem vive de resto? Tanto resto de comida no lixo ou resto de roupas dos nossos guarda-roupas? Como saber qual foi o caminho feito por aquela comida desperdiçada ou aquela doação de roupa até chegar em quem está nesta situação de exposição?

Segundo o app disponibilizado pelo SUS para nos informar sobre a prevenção do coronavírus, há algumas dicas a serem seguidas, que gostaria de problematizar e contextualizar para a situação de rua. Além de, também, dar algumas sugestões ao poder público e à sociedade civil que poderíamos tratar na urgência que a causa pede.

Lavar as mãos

A orientação principal é a de lavagem das mãos, com água e sabão ou álcool gel 70%, o maior número de vezes possível ao longo do dia. Porém a falta de água sempre foi um problema que o povo em situação de rua viveu. Não há água para beber, água para se lavar as mãos, nem água para lavar a roupa. Roupa, que na maioria das vezes, é uma doação. Álcool gel, muito menos. Alguns estabelecimentos permitem a entrada de pessoas em situação de rua para o uso do banheiro, mas são raros. A maioria os trata com hostilidade. Por isso, temos que incentivar e realizar as doações de água, sabonete e álcool gel, tanto por parte da Prefeitura, quanto da população. Imagina sua empresa, sua família, seus amigos fazendo um mutirão de doação de álcool gel ou garrafa de água nas ruas. Uma coisa simples, mas que faria uma diferença enorme.

Mantenha distância

Outra dica que o aplicativo nos dá é a de manter, pelo menos 2 metros de distância de alguém que está tossindo ou espirrando. Grande parte da população em situação de rua está exposta a doenças respiratórias, como asma, bronquite ou tuberculose. Porém, não há muita opção, a não ser conviver no mesmo espaço, pois estão nos albergues, com camas muito próximas umas da outras, nas malocas pequenas. Quando chove, muitos ficam amontoados nas marquises e nos toldos. Quando andamos pela rua, vemos as pessoas sozinhas e pensamos no tamanho da cidade. Não temos essa noção, mas na rua, a proximidade, viver com outras pessoas, é uma questão de proteção, principalmente para mulheres, mesmo que seus próximos estejam doentes.

Talvez seja o caso de quem for diagnosticado com o vírus, ganhar um quarto em um hotel social ou um auxílio aluguel para poder passar pela quarentena, concedido pela Prefeitura. Para a população: quem tiver grandes espaços, como igrejas e galpões e quiser se juntar a essa causa, faça como o Padre Júlio Lancellotti que abriu a Casa de Oração do Povo da Rua para isolar as pessoas em situação de rua que estiverem com coronavírus. Além disso, o espaço está aberto para lavar as mãos e passar o álcool gel.

Não compartilhar objetos pessoais

Na rua, há muita solidariedade entre as pessoas que estão naquela situação. Porém, por mais que exista a orientação de não se compartilhar objetos de uso pessoal, há também a questão da necessidade. Se uma pessoa consegue uma marmita, essa marmita é dela e de todos e todas que convivem com ela, por mais que haja apenas um garfo e uma faca. A mesma coisa acontece com as roupas que chegam de doação e não podem ser lavadas, ou com cobertores que são compartilhados uns com os outros, quando um vê o outro com frio e sem coberta.

Se estamos realmente preocupados com as vidas de quem está em situação de rua, mais do que nunca, com o alerta da Covid-19, não podemos ter um olhar preconceituoso em relação às drogas. Temos que pensar na redução dos danos, tanto os causados por elas, quanto os danos de seu compartilhamento.

Se você vir alguém bebendo uma "barrigudinha" ou qualquer outra garrafa compartilhada, oriente-o a pegar alguns copinhos plásticos em algum estabelecimento. Com o cachimbo de crack ou o baseado, oriente o não compartilhamento da droga ou até os ajude com o uso de piteiras resistentes. Há ONGs que atuam com a redução de danos que têm um trabalho de distribuição de piteiras de silicone na Cracolândia. Trabalhos como esse têm que ser incentivados, principalmente nessa época. Por que a Prefeitura não faz uma iniciativa como essa?

É urgente pensar sobre redução de danos: das drogas, do coronavírus e do nosso preconceito.

Saúde para todos é um direito

O contágio do coronavírus, assim como de outras doenças, é totalmente democrático. Porém os meios de prevenção e de tratamento não são. No Brasil, temos um sistema público de saúde, o SUS. Porém, mesmo nos locais de atendimento de saúde pública, há relatos de descaso ou de mal trato com a população em situação de rua.

Em momentos como esse que estamos vivendo, vemos a fragilidade dos nossos estabelecimentos. Tudo está fechando, de campeonatos milionários dos diversos esportes a escolas, igrejas e empresas. O vírus não avisa e está pegando todo mundo desprevenido. Porém quem tem dinheiro pode cancelar viagens, fazer home-office e pagar um tratamento. Já o que é público, como os transportes e os espaços de saúde continuam cheios.

O vírus nos iguala em seu contágio, estamos todos expostos e vulneráveis. Agora é a hora de usarmos nosso privilégio para igualarmos a prevenção e o tratamento. Precisamos defender uma saúde pública de qualidade, defender o SUS e a melhoria dele. Quem puder, ande com outro álcool gel ou uma garrafa de água na bolsa e compartilhe com alguém em situação de rua. Use do seu privilégio para conversar com estabelecimentos e convencê-los de abrir seus banheiros. Use suas redes para informar e conscientizar os outros, mas também vamos fazer essa informação chegar nas ruas.

A disseminação do vírus pode ser rápida, mas ela pode ser menos letal se nós conseguirmos disseminar com a mesma velocidade: os nossos privilégios, nossos recursos, nosso conhecimento, nossa influência, nosso tempo, nosso acolhimento e nossa voz.

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