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Personalizar críticas sobre série de Marielle limita debate

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Clarissa Brandão

Clarissa Brandão

Produtora e roteirista, é graduada em Cinema e Audiovisual pela UFRB-BA e associada à Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro.

11/03/2020 12h46

Em 6 de março de 2020, a Globo e a Globoplay anunciaram a produção de uma série ficcional sobre a trajetória da vereadora Marielle Franco, assassinada junto com o motorista Anderson Gomes na cidade do Rio de Janeiro, no dia 14 de março de 2017. O diretor José Padilha ("Tropa de Elite" e "O Mecanismo") e os roteiristas Antonia Pellegrino ("Sexo e as Negas", "Bruna Surfistinha" e "Tim Maia") e George Moura ("Onde Nascem os Fortes", "Amores Roubados" e "O Canto da Sereia") chefiam a produção com previsão de lançamento para 2021.

O anúncio de três realizadores genuinamente brancos para narrar a história de uma mulher negra, lésbica e favelada foi bastante criticada, principalmente por realizadoras/realizadores de cinema negro brasileiro.

No dia seguinte ao anúncio, diversos profissionais do audiovisual negro publicaram, por meio do portal Alma Preta, uma carta de repúdio em que lançam diversos questionamentos acerca da realização do projeto, da escolha do cineasta José Padilha para a direção e ainda do mercado audiovisual como um todo.

Em resposta às críticas a escolha por José Padilha, Antonia Pellegrino fala sobre a inexistência de um "Spike Lee brasileiro" e a importância de um nome de peso na direção, que possa levar a série a uma projeção global. Questionada sobre a declaração a respeito sobre um "Spike Lee brasileiro", a roteirista afirma ter sido uma frase infeliz e tenta trazer reflexão sobre racismo estrutural.

Já José Padilha reagiu às críticas em uma coluna para a Folha de São Paulo, o texto "Linchamento Moral" cita Malcom X para falar sobre as críticas recebidas, e cita sua própria trajetória enquanto cineasta engajado ao contrapor os ideais de Martin Luther King ao que chama de "limitação da liberdade de expressão".

A personalização das críticas recebidas pelo diretor e pela roteirista desloca a discussão para um âmbito reduzido, desviando a atenção do cerne das muitas questões levantadas pelos realizadores de cinema negro. Acredito que o momento permita a reflexão e autocrítica para parte da indústria do audiovisual, desde programadoras a realizadores genuinamente brancos.

Como os apontamentos feitos a eles podem contribuir para transformação da realidade encontrada? Como essa indústria narrou/narra as histórias de vidas de negras e negros? Quem escreveu essas histórias? São alguns dos questionamentos que surgem a partir do debate.

As escolhas das programadoras e de grandes produtoras para determinar os principais condutores de seus projetos, seguem uma lógica meritocrática e hierárquica, esta lógica da indústria tem impacto direto nas escolhas dos profissionais que narram as histórias.

Mesmo com nomes de peso no mercado do cinema negro brasileiro, ainda assim, os currículos dos profissionais negros acabam por geralmente não atender às expectativas das grandes empresas. Qual unidade de medida para a contratação desses profissionais?

"Tenho uma história com narrativas que contam a violência do Rio de Janeiro, com 'Ônibus 174' e 'Tropa 1 e 2'". As aspas são retiradas de fala do diretor na publicação da notícia do lançamento do projeto no portal G1, e exemplificam o olhar para nossas histórias.

"A violência é parte de nossas vivências, não o todo, não é a essência de nossas existências. Esse olhar, imediato e superficial, faz parte das diversas narrativas realizadas e transmitidas pelo audiovisual produzido por pessoas brancas."

A preocupação com a maneira que a história de Marielle possa ser contada se dá por esse histórico de parte dessa indústria. Um mercado audiovisual brasileiro verdadeiramente democrático, inclusivo e igualitário para de fato existir, requer profunda reflexão acerca do lugar de privilégio dos que há muitos anos produzem boa parte do audiovisual no país, em sua maioria homens.

Durante anos, a representação dos corpos negros como de Marielle foi tomada por este grupo hegemônico que comanda a indústria. Defender a existência de nossos corpos liderando grandes projetos que buscam contar as nossas próprias narrativas é, no mínimo, nosso direito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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