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Da escassez à abundância

Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta eleita uma das 51 pessoas negras mais influentes do mundo  - Reprodução/ Facebook
Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta eleita uma das 51 pessoas negras mais influentes do mundo Imagem: Reprodução/ Facebook

Adriana Barbosa*

01/03/2020 04h00

A inserção da agenda de impacto no empreendedorismo na periferia

Eu sempre tive uma visão do mundo associada, de alguma forma, à abundância. Cresci em um ambiente escasso de recursos financeiros, mas extremamente abundante na inventividade, na criatividade e no afeto. Venho de uma família liderada por mulheres negras, fui educada por um trio ancestral: bisavó, avó e mãe. O matriarcado definiu o que eu sou hoje. O legado dessa herança feminina foi um estilo de vida bastante empreendedor.

A criatividade sempre foi o nosso berço. Lembro ainda hoje das soluções inventivas da minha bisavó, que criava oportunidades de colocar dinheiro na mesa se apropriando daquilo que ela mais sabia fazer. Abrir a nossa despensa, pegar o que tinha disponível, cozinhar e colocar para vender. Éramos a única família negra da região, e a casa mais simples da rua. Representávamos a periferia em um bairro de classe média. E nesse contexto, tínhamos de usar de técnicas de sobrevivência, e uma delas era a da Sevirologia (arte de se virar), que ajudou a transformar a nossa realidade de escassez de dinheiro em um dos principais negócios de impacto social posteriormente. Há pouco mais de 17 anos, decidi empreender em uma iniciativa que pudesse dar à comunidade negra visibilidade. De quem é e das suas inventividades.

Para isso, eu me virei vendendo peças de roupas usadas nas ruas de São Paulo. Uma década e meia depois, em 2017 eu estava em Nova York, entre as 100 pessoas afrodescendentes (e com menos de 40 anos) mais influentes do planeta, num ranking que incluía estrelas do esporte como Serena Williams e Usain Bolt, e as divas pop Rihanna e Beyoncé, sendo premiada pela iniciativa da Feira Preta.

O empreendedorismo foi a ferramenta que alavancou a minha história de reinvenção. Com pouco mais de 20 anos de idade criei a Plataforma Feira Preta, um negócio de impacto social que fortalece artistas e empreendedores negros por meio de um processo sistêmico que possibilita o match de quem produz e de quem consome, com serviços e produtos voltados para atender as especificidades da população negra.

Em sua trajetória a Feira Preta já mobilizou mais de 200 mil visitantes ao longo de suas 17 edições e durante as imersões do Afrolab, um laboratório itinerante e pra lá de criativo de pré-aceleração para afroempreendedores, e que dá suporte em criação, produção, distribuição e consumo. Além de São Paulo, o programa já passou por Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Maceió Recife e São Luís. E mais de 5 milhões de reais já foram movimentados de circulação monetária entre os empreendedores e consumidores.

Treze décadas após a Abolição, os negros (pretos e pardos) ainda são a imensa maioria na base da pirâmide e residem em diversas regiões periféricas do país. Ganham, na média, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), cerca de metade de um assalariado branco. Para melhorar de vida, muitos abraçam o empreendedorismo, assim como aconteceu comigo e com as mulheres da minha família.

Por um longo período de tempo, empreendedores negros e periféricos iniciavam seus negócios majoritariamente por necessidade. Onde isso começa? Na libertação dos escravos no país há 130 anos, quando tivemos uma abolição inacabada que não incluiu qualquer tipo de reparação social e apoio na transição para a tão sonhada liberdade.

Esse ponto de partida traz muitos desafios sociais e econômicos que continuam a impactar a comunidade negra e periférica no Brasil ao longo dos anos. Segundo a pesquisa A Voz e a Vez - Diversidade no Mercado de Consumo e Empreendedorismo, estudo inédito encomendado ao Instituto Locomotiva pelo Instituto Feira Preta, com apoio do Itaú, revelou-se um perfil dos empreendedores negros no país: 29% dos negros que trabalham têm o seu próprio negócio, totalizando 14 milhões de empreendedores que movimentam, aproximadamente, R$ 359 bilhões em renda própria por ano. No entanto, 82% dos empreendedores negros não têm CNPJ (frente a 60% dos empreendedores não negros) e 57% deles acreditam que pessoas negras sofrem preconceito quando tentam abrir seu próprio negócio no Brasil. A maior parte dos empreendedores são pobres e são negros e atuam na informalidade e em setores de baixo valor agregado, são pessoas que desempenham atividades autônomas e precisam de apoio para enfrentar as barreiras sociais e prosperar com seus negócios.

Esses indicadores trazem um retrato escasso do ponto de vista de oportunidades para todos, mas vale aqui também ressaltar e celebrar a abundância nas transformações nos últimos 20 anos.
Em meados dos anos 90, a pauta do empreendedorismo negro se torna relevante e começa a tomar forma, à medida que as lideranças negras levantam a discussão sobre o poder de consumo dessa gigantesca parte da população no Brasil e o fato de haver poucas ou nenhuma empresa focando em atender suas necessidades. Com isso, começa a nascer a discussão em torno de empreendedores da base da pirâmide, com parte deles focando seus negócios e crescimento em atender a população negra e periférica e suas necessidades. Segundo a pesquisa A Voz e a Vez, os negros do país já movimentam anualmente R$ 1,7 trilhão de renda própria.

Empreender na periferia é uma oportunidade para empreendedoras que buscam o primeiro negócio. Tem muita gente ainda que acha que as pessoas da periferia não têm poder aquisitivo para comprar determinados produtos, mas quem pensa assim não conhece a realidade de territórios detentores de saberes e tecnologias singulares, desenvolvidas localmente, por aqueles que têm uma compreensão mais apurada das dores e delícias de viver nas regiões periféricas.

Um dos principais desafios de empreender na periferia é lidar com o preconceito das pessoas que ainda enxergam escassez em lugar de abundância. Os hábitos de consumo dos moradores das periferias são pouco conhecidos e sobre eles se criaram muitos mitos e paradigmas. As multinacionais que atuam no país tendem a focar suas ações de consumo nas classes de maior poder aquisitivo, presumindo erroneamente que os mais pobres não têm dinheiro para gastos com bens e serviços de melhor qualidade. Principalmente quando falamos daqueles que vão além das necessidades básicas de sobrevivência, como: moradia, alimentação e saúde.

No entanto, no Brasil existem cerca de 168 milhões de pessoas integrando as camadas com faixas de renda mais baixas, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E somam quase 18 milhões de empreendedores das classes C, D e E que movimentam mais de 228 bilhões de reais por ano. Não estamos falando, portanto de números rasos. O maior fenômeno desse contexto é que o público, em sua maioria jovens, sonha em ter o próprio negócio e fazê-lo prosperar. Nos dias de hoje, não sonham mais com emprego público ou a carteira assinada, o que vale é fazer o comércio local bombar e atender os desejos de quem quer deixar de ser invisível.

Os empreendedores negros e da periferia desafiam cotidianamente as barreiras da exclusão para inovar e crescer e tem promovido a cidadania ao resolverem problemas de exclusão social e racial, ao unir os resultados financeiros à geração de benefícios para as suas comunidades e territórios carentes de serviços básicos, mas abundantes de oportunidades para novos negócios criativos e inovadores liderados pelo B TO B: da base da pirâmide para a base. A história se repete, em renovados cenários, como a minha história e a da minha bisavó semianalfabeta, usamos a nossa criatividade e inventividade para driblar cenários escassos e criar estratégias de abundância, este sim o nosso real talento.

*Adriana Barbosa é CEO Instituto Feira Preta, formada em gestão de eventos com especialização em gestão cultural pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (CELACC) da ECA - USP.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, são treze décadas desde a Abolição, não séculos. A informação foi corrigida.

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