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Os desafios da educação brasileira

Luciano Frontelle é ativista, autor de piadas ruins e diretor executivo da Plant-for-the-Planet Brasil - Arquivo Pessoal
Luciano Frontelle é ativista, autor de piadas ruins e diretor executivo da Plant-for-the-Planet Brasil Imagem: Arquivo Pessoal

Luciano Frontelle*

26/02/2020 04h00

Quarta-feira de cinzas, segundo os católicos, é um dia para nos lembrarmos da fragilidade da vida humana, um convite a reflexão sobre a mudança de vida. Como data que simboliza o fim do carnaval, esse dia também é visto por muitos como o "real" início do ano.

É depois da quarta de cinzas que a atenção volta totalmente para o ano em curso e tudo que se busca conquistar nos meses que virão a seguir. Para quem fez vestibular, essa data também coincide com matriculas em universidades ou listas de segunda chamada no curso que pretende cursar, um período de ansiedade e tensão.

Essa pressão não vem só da família ou amigos, mas a maioria dos empregadores, quando exigem diploma para suas vagas, dão preferência para profissionais que tenham cursado em instituições públicas. Algo que por si só já exclui muita gente, visto que segundo o INEP, enquanto o Brasil tem 8,4 milhões de estudantes de graduação matriculados em instituições de ensino superior, apenas 24,6% deles em instituições públicas.

Ainda segundo o INEP, um dos maiores desafios do ensino superior é a alta taxa de desistência dentre aqueles que se matriculam. Analisando aqueles que entraram na em cursos superiores em 2010, 56,8% desistiram dos cursos - só 37,9% concluíram os estudos.
Mas por que desistimos dos cursos?

São vários os motivos que levam as pessoas a desistirem do curso de ensino superior, mas é importante citar que ainda vivemos uma contradição na ocupação das vagas. Quem estudou em escola pública, em sua maioria, acaba numa faculdade privada enquanto os que estudaram em escolas particulares, ocupam a maioria das vagas das universidades públicas - as que são preferidas pelos empregadores. As políticas de financiamento estudantil e PROUNI ajudaram a democratizar o acesso ao ensino superior, mas essas políticas por si só não dão conta de garantir que os matriculados concluam seus cursos. Tempo, grana e defasagem do ensino são alguns dos outros desafios da permanência estudantil.

E mesmo com todos esses desafios, as pessoas ainda apostam no diploma devido a possibilidade de ganhar melhor e da maior possibilidade de estabilidade. Porém fica a pergunta, é correto o diploma ser a única forma de se reconhecer o conhecimento e capacidade das pessoas?
Obviamente o conhecimento regulamentado para áreas sensíveis e extremamente técnicas faz todo sentido, como medicina ou engenharias. Mas para outras áreas não só é possível, como grandes empresas já perceberam que é preciso deixar de lado o diploma como corte na hora da seleção.

Google, IBM e Apple são algumas das empresas que não colocam o diploma como exigência, mas que olham para experiências práticas ou habilidades chaves de candidatos. No Brasil, Nubank é uma das empresas que aderiu a essa prática. Por meio de exercícios práticos, buscam avaliar competências e habilidades, como autonomia, capacidade de ouvir os outros e trabalho em equipe.

E é importante dizer que isso não é uma defesa da precarização do trabalho, onde profissionais tenham seus salários médios reduzidos pelo fato do diploma não ser ponto de corte, mas sim uma valorização do conhecimento não-formal ou adquirido fora do mundo acadêmico, que apesar de ter conseguido incluir mais pessoas das C e D, mulheres e negros, ainda não abrange a toda a sociedade, afinal 52% das pessoas entre 25 e 64 anos não concluiram o ensino médio no Brasil.

Sendo assim, aproveitando a reflexão desta quarta de cinzas, podemos dizer que ainda muito precisa ser feito para a democratização do ensino superior e pela educação básica brasileiras, ao mesmo tempo que o mercado trabalho precisa reconhecer que, afim de garantir a diversidade em seus postos de trabalho, precisamos encontrar formas que possibilitem maior acesso às vagas de pessoas que são capacitadas, mas nem sempre possuem o diploma em mãos.

*Luciano Frontelle é ativista, autor de piadas ruins e diretor executivo da Plant-for-the-Planet Brasil. Co-fundador do coletivo Clímax Brasil, se diverte com o desafio de tirar as mudanças climáticas do armário desde 2013. Em 2016, esse trabalho foi reconhecido pela revista Época como uma das iniciativas lideradas por jovens que estavam mudando o Brasil.

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