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Apontar o dedo pro inimigo ficou, no mínimo, fora de moda

Samuel Emílio é coordenador nacional do Movimento Acredito - Arquivo Pessoal
Samuel Emílio é coordenador nacional do Movimento Acredito Imagem: Arquivo Pessoal

Samuel Emílio*

11/02/2020 04h00

"Não existe qualquer senso de urgência, nossos líderes não estão se comportando como se estivéssemos em uma emergência. Em uma emergência, você modifica o seu comportamento!"

Essa fala da Greta Thunberg na COP 25 se referindo à crise climática, que ainda vive em nós, pode ser aplicada com perfeição à paralisia dos nossos líderes frente à crise política brasileira. Líderes formados por uma geração que derrubou a ditadura, hoje, assistem, apáticos, à fragilização da democracia brasileira e à perpetuação das injustiças que não foram capazes de erradicar. Quando convém, até manifestam sua indignação, mas quais partidos e lideranças políticas têm convocado e dado poder à população para se organizar em trincheiras e eleger zeladores da democracia nos municípios em 2020?

Tanto a exploração crescente dos recursos naturais, quanto o uso do sistema político para a garantia de interesses privados são crises que decorrerem da ruína de uma mesma edificação, que estrutura a forma como nos relacionamos uns com os outros como sociedade. O imobilismo dos antigos líderes, por sua vez, parece decorrer da crença na solidez dessa estrutura, que cada vez mais dá sinais de desgastes. A recente menção nazista do secretário de cultura, por exemplo, é só o topo do iceberg que aponta a proximidade de uma catástrofe de enorme proporção.

Se a solução não vem dos políticos, precisamos falar de nós. Da relevância excessiva concedida ao indivíduo, cujas necessidades se sobrepõem às da sociedade. Nesta estrutura, é justificável gerar um custo social, como poluição ou despesas ao orçamento público, para adquirir um benefício privado, como conforto para se locomover de carro mesmo morando no centro da cidade ou um "auxílio-paletó".

Alguns de nós até possuem um senso de responsabilidade para com os "seus". O problema é que reconhecemos como "nossos" apenas nossa família, aqueles que falam a nossa língua, têm a nossa cor, compartilham das nossas visões de mundo, e claro, são da nossa espécie. Ao nos responsabilizamos apenas por aqueles que reconhecemos como semelhantes, legitimamos a tolerância de injustiças com os diferentes.

A boa notícia é que tanto movimentos em defesa do clima quanto movimentos em defesa da renovação política nos revelam que uma nova geração, consciente do desmoronamento iminente, está construindo, conjuntamente, um novo edifício. Um que se sustente no coletivo, não no indivíduo. Que se baseia em uma noção de responsabilidade ampla, incluindo toda a raça humana, bem como o meio e as espécies com as quais ela interage.

Um edifício que se ampare, por fim, na profunda compreensão de que o outro não é inferior ou superior, mas diverso, e que é essa diversidade que nos dará potência para construir comunitariamente.

Foram anos de ineficiência apontando dedos e elegendo um lado "inimigo" e um lado "solução", mas, considerando o recorde de renovação no Congresso em 2018 e os movimentos globais pelo clima inspirados pela Greta, começo a acreditar que apontar o dedo para nós mesmos, fazer uma autocrítica e nos organizarmos de forma propositiva, não é só moda: é uma estratégia bem mais eficiente.

*Samuel Emílio é coordenador nacional do Movimento Acredito, cofundador da plataforma Engaja Negritude da Educafro, engenheiro de produção e sonha com o dia em que a cor da pele deixará de influenciar na expectativa de vida das pessoas.

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